sábado, 9 de dezembro de 2017

Gazeta do Povo: porque retrocesso pouco é bobagem

Ontem, o famigerado “escola sem partido”, projeto de Magno Malta – pastor evangélico, senador,  protetor da família, do ensino religioso, dos bons costumes e indiciado pela PF por corrupção – foi arquivado no senado. Apoiado por Bolsonaro e Fernando Hollyday, entre outros bizarros nacionais, o projeto foi retirado de pauta pelo próprio autor, provavelmente antevendo uma votação negativa.

Mas isso não incomoda quem defende o obscurantismo acima de tudo e detém veículos de informação propaganda. É o caso do jornal curitibano Gazeta do Povo, que não mede esforços para garantir o atoleiro mental como opção política e filosofia de vida. Tudo isso, é claro, vendido como “liberdade de expressão” – sempre tem trouxa comprando e aplaudindo.


Contagem regressiva para a atribuição de “prêmios cívicos” à deduragem rastejante.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Não-sou-racista-mas...

Mês passado:
A atriz Taís Araújo falou sobre o que não se quer ouvir: racismo.
O ator Diogo Cintra foi espancado num terminal de ônibus, acusado de roubo, sem que ninguém reagisse.
O apresentador William Waack, acreditando não estar no ar, vomita o bordão racista mais repetido no país.

Há séculos:  
O brasileiro médio, panela em punho, pátria e família no coração, fica indignado: não tem racismo no Brasil!

Mas...


 
 

 
 


 
 

Síntese brilhante de Raphael Salimena:


terça-feira, 28 de novembro de 2017

No fim do século XX...

 Texto de Anderson França


Profiteroles.
 Tem isso na tua cidade? Em 1998, profiteroles era o pão artesanal do momento.
Tu ia nesses restaurante metido a besta, eles serviam de sobremesa. Aí a classe média que já tinha conquistado um plano de saúde da Amil, o básico, sem direito a helicóptero, mas com direito a band-aid gourmet, essa turma comia medalhão de frango com bacon, arroz à piamontese e fechava com profiteroles.
Nossa, mano. Se tivesse internet ali, ia ser uma enxurrada de selfie de assistente administrativo e gerente de setor confraternizando o 13o juntos.
Os filhos da classe média tá do jeito que tá, porque foi alimentada com arroz à piamontese e profiteroles. E mistura disso na barriga gera um ácido graxo que altera a estrutura biomolecular da vergonha no meio da cara.
Na época, Rivotril era MESMO remédio controlado. Hoje, tu compra Rivotril na mesma estante do Mentos. Sipá, Mentos tem sabor Rivotril.
Quem comia profiteroles eram os entusiastas do Kiwi, que chegara ao Brasil alguns anos antes. E não ouviam Benito di Paula. Ouviam Jorge Vercillo. Eles só não sabiam que Jorge Vercillo era o novo Benito di Paula.
Eu gosto dos dois, frise-se.
Ouço Benito, fico grande, quero beber, começo a falar igual Jurandir, boto uma pulseira grossa de prata no braço, uma camisa de viscose, calça branca. Fico na janela olhando pros vizinhos, pra ver se eles tão me olhando. E bebo. Ahhhh, como eu amei. Se ouço Vercillo, fico tímido-choroso. Boto pijaminha, sento no cantinho do sofá e como um potinho de profiteroles.
Ocorre que essa classe média é a gênese da família brasileira de Curitiba. Tudo começou com o profiteroles. Não foi o Departamento de Estado Americano, foi o profiteroles, que é a fonte da discórdia. Antes, tinha o Pirarucu da Discórdia. Quem comia pirarucu era brasileiro pra caralho, agora é o inverso: é pra comer um troço menos brasileiro possível.

Pense, Sonia. Antigamente era José Wilker no set de gravação de Bye, Bye, Brasil, cheio de farinha nos lábios e pirarucu. Soca pirarucu. Cinema brasileiro. Cabelo pubiano alto. Muito palavrão. Áudio mal feito. Era o que dava, porra.
Depois, o profiteroles foi perdendo espaço para outros encostos. Veio o iogurte com topping. Bagulho era comer iogurte, tinha topping de cereja, de limão, de morango, topping de merda, topping de profiteroles, uma versão vintage.
E ladeira abaixo. Brizola tinha razão.
Profiteroles era coisa de Fernando Henrique.
Iogurte com vários toppings era Classe CDE. Brasil povo, Brasil Garanhuns, nunca antes. Aí veio o naked cake, e a putaria dava sinais que ia dar merda. E depois o Food Truck, o Barber Shop, e a reação da classe média foi definitiva com a dança contra a corrupção.
Seja patriota, vem lutar por tua nação.
Lembra?
Todo mundo ali come profiteroles. Os pais comiam. Tem fotos de família com profiteroles.
Cabou Benito, cabou Vercillo. Hoje é sertanejo. Um negócio meio iludido com casamento e amante. Meio rock, meio gospel, ruim por inteiro. Só tem branco comedor de profiteroles. Me processem.
Eu que achava Tião Carreiro raiz, hoje quem é raiz é Michel Teló. Tião Carreiro cê dava bom dia, ele largava um acorde de modão e cuspia na tua cara, e vinha o Rolando Boldrin mandando você comprar tijolo e cimento na Casa de Construção Nossa Senhora de Goiás. Hoje, sertanejo fica fazendo batida de funk no IPad, querendo ter experiências artísticas disruptivas, com uns corte de cabelo muito loko.
O Brasil tinha que ser que nem boate, tinha que ter vários ambientes. Eu ia pro Brasil vintage. Não tô dando conta desse aqui não. Essa galera que diz que encontrou as respostas, olha, eu preferia quando a gente só tinha perguntas, angústias e a Angela Rô Rô com cigarro na mão cantando Amor Meu Grande Amor, e a gente chorando no chão da cozinha bebendo Pitú.

Trilha sonora ilustrativa:

 Benito di Paula (Aaaaaaaaahhhhhhhh, como eu amei – presença certa em toca-fitas paternos) 😆


Ângela Rô-Rô (Amor, meu grande amor – fui no show, na Curitiba-profiteroles dos anos 90)💖😍


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

De ré na ponte para o futuro

E a quantas anda aquele projeto de 2015 chamado “ponte para o futuro”, último grito da modernidade político-administrativa, comparável ao carro de boi e à rinha de galo? Só a logo já me faz viajar 40 anos atrás, experiência por si só detestável. 



Pois vejamos:


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É o Encilhamento reloaded, moçada!  Bora ouvir Ernesto Nazareth pra entrar na vibe!

|Brejeiro, composição de 1893|


👉Vale a leitura: Encilhamento 


Brasileiros & feminismo



Autoexplicativo

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Brasileiros e seu espaço, por Arnaldo Branco



Eu acho que o brasileiro é assim desse jeito errado por falta de visão periférica. Quando se trata de perceber a existência do outro e de levar em consideração a necessidade de respeitar os limites do próximo, somos o anti-Ronaldinho Gaúcho. Pra quem não manja de futebol, Ronaldinho Gaúcho é famoso por passar a bola para companheiros bem posicionados enquanto olha em outra direção, sei que é uma merda explicar piada mas acabo de falar na importância de respeitar os limites do próximo.
Percebam a ação do brasileiro em um lugar onde o espaço precisa ser compartilhado por muitos e nem sempre há área de circulação suficiente para evitar colisões - um supermercado, por exemplo. Nosso herói não só costuma parar diante do setor de produtos de limpeza para analisar suas opções como se estivesse examinando o quadro da Monalisa no Louvre como também cultiva o hábito de largar o carrinho de compras atrás de si, interrompendo o fluxo dos outros seres humanos que claramente tem menos importância na escala evolutiva do que ele.
Mesmo em uma das experiências mais degradantes da existência humana, o ônibus lotado, o brasileiro consegue a façanha de impor sua presença aos outros através de vários recursos: a perna aberta, a mochila nas costas, o quadril relaxado. Na hora de fazer valer seu direito ao espaço que escolheu preencher não tem lei da física que possa impedir.
O brasileiro trata cada metro quadrado do seu caminho como um território inimigo a ser conquistado. A cada passo ele finca uma bandeira imaginária, expande o peito e abre os braços para consolidar o perímetro. As pessoas ao redor que procurem outro quadrante habitável, aquele tem dono até que esse general invencível decida a próxima escala de sua turnê mundial.
Por isso acredito que não haja qualquer esperança de um projeto comum neste país. Um lugar onde um pedido de licença soa como uma ordem de despejo não pode mesmo aspirar por justiça social, ou que pelo menos esse filho da puta tire o carrinho da passagem.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

“Plumas & Paetês” – porque no meu tempo...

Em 1980 eu tinha 11 anos. João Figueiredo era o general da vez, com toda a bizarria ministerial de Galvêas, Andreazza, Rischbiter, Delfin Netto, Passarinho e demais figuras que não deixaram saudade alguma. A não ser para alguns intelectos comprometidos, que juram ter vivido num paraíso de educação moral e cívica, todo trabalhado na novena, na semana da pátria e no sanduichinho de pão de forma cortado em triângulo...

Como essa homogeneidade verde-amarela não existia, a gente convivia também com nossa versão disco em músicas, roupas e, claro, programação de TV, incluindo as indefectíveis novelas e suas aberturas pré-Hans Donner. Dia desses, acordei com a música de Plumas & Paetês na cabeça. Música tema da novela com mesmo nome, era interpretada por Ronaldo Resedá, bailarino, ator e cantor que provocava furor no fim dos 70/início dos 80. Não tinha tiozão do pavê que não o chamasse de “boneca”, referência de tiozões e tiazonas a homens gays.



Mas, pasme o MBL, Ronaldo Resedá dava as caras semanalmente na TV, por conta de suas músicas coreografadas para o Fantástico e, claro, das aberturas e demais temas de novela que escrevia e interpretava. Foram muitas.

Marron glacê (1979) foi uma delas – novela e música, com vídeo oficial do moço entre mesas de um restaurante cafoooooooooonnnna, todo enfeitado “para festa” (provavelmente, aquelas às quais se ia vestindo “esporte fino”🙈 e com “um brilho nos olhos”). Não importa, ashcriança gostava mesmo era da música, do cantor e da coreografia 😆.

E a tal Plumas & Paetês apareceu um ano depois, contando a história de modelos de uma agência. Havia outras coisas, mas não lembro... Seja como for, a abertura era construída na base do espelho, do paetê, da sombra “gatal” (como dizia Mayumi), calças-pijama e acessórios futuristas. A música? Deixava moralistas arrepiados, pois dizia que “trocar de roupa é como trocar de marido / pois o amor não vale mais que um vestido”. E assombrem-se, modernos bastiões do moralismo, a novela era exibida diariamente. Às 19h.



Ah, sim! Destaque para a menção à tortura (não se usava a palavra por acaso) e à abertura – a abertura política daqueles dias fazia a linha dura explodir bombas em shows, bancas de jornal, instituições associadas à luta pela democracia. 




Não sou nostálgica, mas me pego lembrando dessas coisas ultimamente...