terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

"Pandemia em contos" (Ed. UFSC, 2023)

“A pandemia de covid-19 impôs a todos experiências singulares de vida e de vivências decorrentes do modo como as relações sociais foram normatizadas e estabelecidas. O isolamento social se fez imperativo: uma separação radical entre o eu e o outro; entre o individual e o coletivo. Essa cisão impôs também a necessidade de inventarmos formas de driblar a solidão e de encontrar outros caminhos para o encontro com o outro.

Nesse sentido, um caminho foi o encontro com a palavra, pois nesse enlace trata-se sempre do encontro da outra palavra com a palavra outra. Foi dessa forma que muitos de nós conseguimos chegar até o outro e, sobretudo, chegar ao mais íntimo de nós mesmos.

Foi em meio a essa pandemia que ocorreu o Concurso Franklin Cascaes – Contos promovido pela Editora da UFSC (EdUFSC). Daí a ideia da publicação de narrativas que ajudassem, mais que contar histórias, a compreendermos os sentimentos e os sentidos instaurados por uma crise que evidenciou a fronteira entre a vida e a morte. Nas páginas que seguem, autores catarinenses ou que fizeram de Santa Catarina seu lar narram histórias e registram a história dessa que é considerada pela Organização Mundial da Saúde a maior crise sanitária de nossa época.

Não se trata obviamente de uma história cronológica, mas do intento de escrever justamente aquilo que os dados estatísticos não são capazes de apontar: a inscrição de sujeitos e dos jeitos que cada um deu para registar sua própria história. Esta coletânea se apresenta como uma homenagem às quase 700 mil mortes no Brasil (quase 23 mil somente em Santa Catarina) decorrentes da covid-19. Também se trata de uma escritura de acesso à condição humana que foi capaz de enfrentar o vírus com o simples gesto de ficar em casa, de aplaudir os profissionais da saúde, de se juntar ao coro das canções entoadas pelas janelas dos prédios ou de fazer uma prece. Esta coletânea é uma metáfora da resistência em palavras que se presta a proliferar a esperança e a suplantar o sofrimento da perda.”

Sandro Braga 
Professor de Linguística Aplicada da UFSC e membro do Conselho Editorial da EdUFSC

 


Autoras & autores:

Alcione Nawroski, Aline Veingartner Fagundes, Ana Claudia Fernandes Pereira, Bianca Maria de Souza, Carlos Alberto Sapata Carubelli, Diogo de Souza Medeiros, Eduardo Gonçalves Dias, Eduardo Sens, Eduardo Xavier Costa Andrade, Fidel Correia Borges, Giona di Collodi, Guilherme Lopes Duarte, Igor Amarante, Isaac Kofi Medeiros, Jorge Pla Cid, Kristel Hemmer Casagranda, Lêda Mônica Fialho de Oliveira, Luan Valêncio Coelho, Lucas Augusto Valente, Luiz Alberto de Souza, Luiz Carlos de Sousa, Maria Isabel Teixeira Brisolara, Maria Luiza Vargas Ramos, Mariana Vieira Moura, Marilia Lila, Marina Hadlich, Natália Martinello Willemann, Natassia D’Agostin Alano, Nilce Nerli Vieira, Philipi Schneider, Rafael da Silva Moreira, Rafael Reginato Moura, Renan Cabral Fontana, Rodrigo Almeida Bastos, Rogério Kiefer, Rosane Cordeiro, Salvador Norberto Gomes, Silvana Helena Liz de Souza, Silvia Argenta, Tatiani Longo Mazon, Tattiana Teixeira, Teca Mascarenhas, Vidomar Silva Filho, Viegas Fernandes da Costa, Vitória Rodrigues Porto, William Wollinger Brenuvida.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Cadáveres e catástrofes: quem dá mais?

Ligo a TV, de bobeira. Canais de notícias pesando a mão para falar do acidente em MG. Em repetição infinita, imagens de um paredão de pedra que se desprende, cai; barcos, turistas, tragédia. A apresentadora narra o que já está explícito. Depois acrescenta: “Assista novamente, agora com o áudio. É possível ouvir gritos”. A imagem de segundos se repete novamente, agora com ruídos. “Acompanhe o resgate das vítimas”.

Tem quem pense que isso seja uma das marcas da nossa decadência ética, moral, sabor limão e afins. “Não sabem mais o que fazer para ter espectadores”, “Apelação barata”, “Falta de respeito”, “Sensacionalismo”, “Onde é que chegamos” e “[DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO INDIGNADO CONTRA A IMPRENSA]”. Pooooréeeeemmmmm... vale lembrar que a prática é tão velha quanto a própria imprensa, principalmente a policial e a que cobre desastres. Nunca existiu uma imprensa “respeitosa” com relação a esses temas, e muito cedo se entendeu que tragédia, horror e baixaria vendem. E muito. 

Uma das figuras que melhor representaram essa dinâmica foi o repórter fotográfico Weegee (Arthur Fellig), que cobriu os bas-fonds de NY entre 1930-50. Em suas fotos, sobra cadáver com tiro na cara sangrando na sarjeta, entre outros. Antes de se tornar consultor renomado e realizar experiências fotográficas, Weegee vivia da venda de fotos da noite nova-iorquina para jornais, então, as imagens precisavam impressionar, tinham que ser dramáticas, para serem reproduzidas, compartilhadas, repetidas. E como um cadáver no chão nem sempre rendia uma imagem chocante na página policial, o fotógrafo não hesitava em arrastar um corpo para mais perto de uma lata de lixo ou placa, por exemplo, nem a fabricar poses mais impactantes com os cadáveres. Tudo tinha que ser rápido, antes da chegada de outros fotógrafos (ele revelava as fotos dentro do próprio carro). A história do sujeito é ótima, suas imagens mais ainda.

Voltando para a atualidade, a gente percebe que a ideia permanece, mesmo que algumas práticas (em teoria) não sejam mais permitidas. Só que o mais irritante é a camada de “seriedade jornalística” que tentam pincelar em cima do sensacionalismo mais chinelagem que mostram, é a cara de conteúdo que apresentadores e apresentadoras tentam ostentar enquanto arrastam uns corpos aqui e umas tragédias ali. Tirar imagens de foco não confere qualquer dignidade a essas coberturas que, sabemos, são montadas para garantir telespectadores para publicidade de bancos, montadoras, empreiteiras, multis & parasitagem em geral.

 

Weegee em ação (anos 1930)

sábado, 23 de outubro de 2021

Medievo tropical

Depois das informações sobre vikings no continente americano e a descoberta de uma espada medieval, agora vem a contagem regressiva para que brasileiros cruzados-de-apartamento façam jorrar “deus vult” pelas mídias sociais – todos expondo suas potenciais raízes nórdicas, o orgulho de sua cultura de cavalaria, além da certeza de que nada têm a ver conosco, plebe rude e miscigenada latino-americana. E, claro, aquele ódio escandinavo por tudo o que sugira “esquerda”, afinal, sabemos que normando que se prezava, raiz mesmo, era praticamente um eleitor do Novo, não é mesmo? Viking de sapatênis.

Ablação

Para Jair Henrique Miranda Ratton (1969-2008)

 


 

In Coletânea de poetas brasileiros contemporâneos – Editora Persona, 2021.

Belicismo do bem

Não tô podendo com tias papa-hóstia que agora xingam arcebispo, pois sujeito faz sermão pacifista. Estamos falando de pacifismo (básico para religiosos praticantes, não?) e arcebispo! Tá, não é um cardeal, mas tá bem posicionado na fila eclesiástica do pão, oras! Apostólico romano tem que respeitar hierarquia. Não é padre de paróquia trabalhado na teologia da libertação, daqueles que congregados adoram chamar de 'vermelho' desde que marcharam com deus pela liberdade em 64... Vai daí que tia carola agora deu de compartilhar postagem de um grupo chamado 'pátria armada', que mostra a soldadesca suíça: meia listrada, penacho vermelho, armadura e um arsenal de baionetas e fuzis Mauser. Como legenda, 'se até o Papa tem armas...'. Gentes, que vergonha que dá! Quedê-lhe coerência? E quedê-lhe aquele conhecimento sobre história que, juram as papa-hóstia, elas dominam como ninguém? Socorro. 😱

domingo, 1 de agosto de 2021

Dispautérios vetustos

Sempre bom lembrar que idade não é sinônimo de sabedoria acumulada. Se vivente passou a vida numa penúria de raciocínio, é bem provável que assim permaneça. Hoje, por exemplo, tem véi informando no fêici que “não entregarão a nação ao comunismo”. Como se vê, a questão não é apenas geriátrica...


 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Agenda


Agarrar-se nas dobras da vida
para esquecer a peste
e meter na miséria carimbo de carma
Ignorar violência – já preencheu os espaços da vida,
só quebra dentes de quem afunda
Discutir a validade do parágrafo quinto do artigo xpto,
a relevância da mesa redonda,
a importância da aliança política,
o aprendizado pessoal.
Trabalhe a distância.
Assine petição.
Faça pão.
Beba água.
Exercite-se.
Pronto, mais um dia terminado.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

A escola e os eternos palpites toscos


Em alta aquele argumento que mostra praias e bares com gente amontoada e sem máscara, perguntando por que estes lugares estão abertos e as escolas não. É um recurso muito do canalha, que força uma comparação entre situações completamente diferentes, ou seja, as de criaturas estúpidas que escolhem ir a um bar lotado, por exemplo, e as de professores, professoras, profissionais de várias atividades nas escolas, alunos e alunas, trabalhando em ambientes muitas vezes sem a menor estrutura, já em tempos pré-pandemia, o que dizer agora. 
 
Certamente que é necessário encontrar soluções para a escola atualmente, mas quem entende do assunto agradece se leigos palpiteiros e trabalhados na educação moral e cívica calarem a boca. No fundo, estão dizendo que “quando é para vadiar, tudo bem, libera-se, mas quando é para estudar, proíbe-se, por isso o brazeeu não vai para frente e nem Amaral Neto volta à TV blábláblá...”. Porque não basta ter votado no Capitão Cloroquina, não basta ter defendido imbecilidade e agora fingir que nada teve a ver com isso: é preciso espalhar as parcas e porcas ideias para não se sentir irrelevante e trouxa.
 
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Prêmio “Pessoa Corrupta do Ano”

O Organized Crime and Corruption Reporting Project’s – Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção – é uma associação jornalistas investigativos de várias partes do mundo que todo ano elege uma personalidade/instituição que tenha realmente contribuído para o avanço da corrupção e do crime organizado. Já “premiaram” Putin, Maduro, Duterte, Erdogan, Trump, entre outros. Adivinha quem recebeu o maior caneco em 2020? Pôxa-que-surpresa-né-como-poderíamos-saber-e... Não, pera!

 


Títulos que amamos – Marcos Nogueira, FSP

 


Legalização do aborto na Argentina

O importante não é saber se eu sou contra, a favor, se faria ou não, se minhas crenças condenam ou aprovam. O que eu penso, individualmente, não conta, pois o importante é que mulheres que precisem do procedimento possam fazê-lo de forma segura, descriminalizada e fora de uma discussão moral.

 Argentina retoma luta pela legalização do aborto - CartaCapital

Não tem humor, não tem leveza

“Nossa, vamos falar de coisas positivas”... “Não deixe o clima baixo astral falando da pandemia e de política”... Faço minhas as palavras da microbiologista Natália Pasternak no vídeo aí embaixo. Porque a pandemia não vai terminar na base do pensamento positivo. Porque dizer “eu tomo todas as precauções” não vai barrar a contaminação de quem continua a fazer merda, “brindes à vida” e a agir como se a pandemia estivesse longe, no cotidiano dos outros, não no seu próprio. Porque a “era de aquário” não está começando (nunca vai começar, aliás). Porque orações não dissolverão o vírus. Porque não receberá vacina antes quem teima em passar pano para o parasita asqueroso que ora ocupa o Planalto; e nem quem finge que não o ajudou a chegar lá ou que não ajudou a disseminar negacionismo e fake news.
 

 
 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Das cavalgaduras e dos cavalos

🐎 Todo fascistelho digno do nome garra gosto em se mostrar a cavalo. Putim passeia pelas estepes montado em seu baio, cruz dependurada no torso nu (visão do inferno); Kim Jong il fez ensaio fotográfico cavalgando, livre, leve e solto, num cavalo branco pelas neves do Monte Paektu (uma coisa meio disney); já Gurbanguly Berdymukhammedov, à frente do Turcomenistão, além de montar também participa de corridas. Podemos dizer que vem dele a melhor ilustração sobre o que acontece com tiranos dessa laia, quando menos se espera... 




Em tempo: cavalos não tiveram escolha, ao contrário de eleitores brasileiros 2 anos atrás. 🐎

sábado, 7 de março de 2020

Cavalgaduras em cruzada


Vivemos tempos de pastiches do medievo bastante cagados peculiares, repletos de cavaleiros, cavalgaduras e cruzadas bisonhas. Depois do piá de prédio, o cruzado de apartamento irrompe no cenário nacional, anunciando suas fontes de inspiração...


L'armata Brancaleone (M. Monicelli, 1966)

 

Les visiteurs (J-M. Poiret, 1993) 



Jabberwocky (T. Gillian, 1977)

 

The Adventures of Robin Hood (M. Curtiz/ W. Keighley, 1938)

Num cenário mais feitincasa, buscando uma aproximação espaço-temporal, certeza que sobrou um espacinho no coração para o nosso brioso Pedro I, esculachando as cortes portuguesas na beira do corguinho.

 

 Independência ou Morte (C. Coimbra, 1972)
 

sexta-feira, 6 de março de 2020

Cuidado com os idos de março e o “feliz dia da mulher”


Aberta a temporada do “você, mulher...”, “parabéns pelo seu dia” e patacoadas no estilo, além dos indefectíveis descontos no workshop de pão de queijo (para transformar o lanche em família numa festa),  na limpeza de pele (para ressaltar ainda mais a sua beleza) e nas seleções de bolsas e sapatos de salto gentilmente organizadas por marcas que sabem que tudo o que você, mulher, precisa é valorizar a autoestima.

Assunto novo isso não é, mas precisa continuar sendo martelado na medida em que uma data para ressaltar a luta por direitos e trazer à luz combates históricos continua sendo apropriada pelo comércio e esvaziada de seus sentidos políticos, sociais. Já ouvi vááárias vezes o quanto isso é coisa de recalcada-feminazi-solteirona-feia-invejosa  [ACRESCENTE AQUI A QUALIFICAÇÂO MACHISTA DE SUA PREFERÊNCIA] afinal, estão nos fazendo uma gentileza! Aqui e ali, nos dão parabéns, oras! Levanta a mão quem já teve a própria beijada pelo colega que faz mesuras de cavalheiro, para intensificar a homenági. O post brilhando com rosas de glitter já pipoca cedo, junto com poemas duvidosos falsamente atribuídos a Drummond, Quintana ou qualquer outro que atenda pela pecha de poeta (porque mulher e poesia combina que é uma beleza, vocês sabem). E, claro, declarações de mulheres sobraçando um cento de rosas vermelhas dizendo que é feminina e não feminista e que gosta sim, de ganhar flores.

Daí a gente explica pela giganésima vez que não há problema algum em usar salto, gostar de flor, batom, receitas, costura, bdsm, seja lá o que for, desde que seja escolha. O problema é apagar debates necessários e urgentes esvaziando-os do seu sentido original e reduzindo-os a imagens inócuas, infantilizadas e altamente comerciais como dia das crianças, por exemplo.

Então, buscando recuperar o sentido que teimam em querer extinguir ou simplesmente negar, dia 8/3 é um marco, uma lembrança internacional sobre a necessidade de paridade, de garantias, de proteção social, de leis, de punições a quem as descumpre; é sobre a necessidade de se retirar o debate religioso das políticas públicas voltadas às mulheres, de se retirar a aura de amor romântico das possessividades violentas, dos crimes; de parar de culpar mulheres (héteros, lésbicas, cis, trans) pelas violências a que são submetidas.

Mas enquanto a gente puxa de um lado para que essas questões ocupem o “horário nobre” do debate, tem quem puxe a outra ponta sublinhando nossa chatice, falta de sensibilidade e a mania de ver tudo pelo lado negativo (levanta a mão também quem já ouviu dessas). Piooooor, o colega disquerda que insiste na ladainha de que essa discussão é pauta identitária destruindo a esquerda e a maria-mole rosa (com pitadas de “até pegaria feminista, mas só tem feia” ou “mulheres não valorizam homens sensíveis e inteligentes” – levanta a mão...).





Bonus track da passação de vergonha machista: profe universitário revirando os olhos, “agora não dá mais pra fazer uma gentileza a uma mulher, que a gente já leva um coice”. Claro, professor, nossa tarefa é ficar à espreita de um homem gentil para humilhá-lo publicamente, aos gritos loucos, de preferência atirando nele coletores menstruais – sim, essa imagem e similares são mais do que evocadas nesses idos de março, começando por tias deste Trator que aqui escreve.

Manual de instruções: presente, todo mundo adora receber. Não precisa de data, mas corresponder ao gosto da pessoa em questão, certo? Quanto à gentileza, digamos que é condição sine qua non para a interação humana de quem já desceu da árvore e se equilibrou sobre duas patas, assim como defender políticas públicas de qualidade e justiça social. É básico. Agora, arremedo de poema ruim com flores e corações ninguém merece. Por favor.








quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

#tbt


O “dia da marmota” nunca acaba em terra brasilis
Eleitoral 
Comportamental 
Disfuncional.
Sonrisal!




Ausência de espinha dorsal facilita a passada de pano


 A imagem pode conter: 5 pessoas, área interna
Flagrante photographico do exato momento em que uma passada de pano se articula. 

Pois para cada mau caráter a frente de um ministério haverá comentadores de fatos a esmiuçar o desimportante, a gaguejar platitudes e a disfarçar simpatias sob um suposto 'equilíbrio técnico' na análise. Sobram silêncios coniventes, espirais explicativas que se contorcem e se repetem até o vazio de sentido, vozes doces, bater de pálpebras, koleston-marrom-chocolate em costeletas e topetes-tiozão, sapato 'social' de bico retorcido. 

Do lado de cá da tela, viventes detectando o Manifesto Comunista por trás desse mingau de maisena e sacarina vendido como jornalismo. 

Sim, a coisa toda está polarizada. Polarizada entre mediocridades nos extremos do mesmo eixo embaçado. Citando Hilda Hilst, 'Oscar, meus sais'.



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Mediocridade, má fé & condescendência: a imprensona nacional


O lixo que é a imprensona nacional comentando a situação da Bolívia como se fossem jornalistas suíços noticiando eventos culturais nos cantões do norte. Após explanações isentonas que nunca descrevem a realidade pura e dura, num tom insuportável de condescendência e passação de pano ao sistema, desfiam-se as preocupações com os investidores, a bolsa, a alta do dólar. Poses épicas e caras de conteúdo, de pulitzer. Se transmitissem imagens de bancadas e cadeiras vazias por horas, não faria diferença. Talvez houvesse mais qualidade...


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

CSI: Trambique

Vinte e três anos atrás, a gente via pela TV o legista Badan Palhares, famosão e tudo, comandando uma equipe que investigava as mortes do “tesoureiro de campanha” de Collor, PC Farias, e a de Suzana Marcolino. Palhares havia integrado a equipe de legistas que buscou identificar as ossadas de presos políticos assassinados pelos militares e também a equipe que identificou a ossada de Josef Mengele, o nazista que refugiado no Brasil. Quédizê, até botava-se fé naquele sujeito, barba grisalha, vasta cabeleira e olhos azuis.

Tudo bem que foi bem esquisita a transmissão pela TV, ao vivo, da ação do legista no exterior da casa em que PC foi morto. Fitas métricas, passadas largas, uma equipe enorme, moçada armada em torno da casa e enxames de jornalistas. O legista solicitava a participação destes, pedindo que atentassem a barulhos de disparos que ele faria no interior da casa. “Ouviram um ou dois?”. Os jornalistas colaboravam. Depois, Palhares entrava e saía da casa, olhava para cima, reaparecia na sacada.

Eu me perguntava se estaríamos entrando numa nova era de investigações policiais, nas quais a ciência forense traria luz sobre assassinatos comandados pelo Estado e queimas de arquivo, tão recorrentes neste país. Será que a coisa estava ficando séria mesmo?

Nãããããã... Dias depois, o laudo oficial apontou crime passional seguido de suicídio. Sabem como é, moça dinheirista com ciúmes do homem que pagava suas contas, só podia dar nisso, não é mesmo? Teve tio que comprou a ideia. Seja como for, muito barulho por nada, e o tal laudo é até hoje questionado, com fortes provas de que a perícia fora bem encomendada. Informações que não batem, objetos que desapareceram, dados desencontrados e equívocos grosseiros, conscientemente plantados.

Realmente, não havíamos entrado na era das investigações impecáveis, das revelações científicas que não deixam dúvida, dos laudos que apontam crimes vindos de cima, envolvendo autoridades, dinheiro, tráfico de influência...

Foi alarme falso. Como tantos outros no Brasil.

Nos intervalos publicitários entre as transmissões da pirotecnia forense, o astrólogo, tarólogo e estelionatólogo Walter Mercado nos convidava a ligar agora! Para nos certificar da eficiência do serviço, depoimentos de usuários cujas vidas melhoraram horrores depois do telefonema e de John Herbert, ator na época já veterano da TV (e da pornochanchada), que frisava a probidade dos “discípulos de Walter Mercado” – praticamente mereciam uma canonização junto com irmã Dulce, eu acho. Cadê Vaticano nessas horas, né?

Enfim, a última semana foi um déjà vu com gosto de ressaca.


📺Intervalo comercial em 1996, com chamadas para debates do tipo “eu separo sexo de amor” e “dou chinelada nos filhos”, para venda de vinis, K-7 e CDs que “vão mexer com você dos pés à cabeça” e, claro, para os extraordinários serviços de Walter Mercado, blond ambition esotérica.