“A pandemia de covid-19 impôs a todos experiências singulares de vida e de vivências decorrentes do modo como as relações sociais foram normatizadas e estabelecidas. O isolamento social se fez imperativo: uma separação radical entre o eu e o outro; entre o individual e o coletivo. Essa cisão impôs também a necessidade de inventarmos formas de driblar a solidão e de encontrar outros caminhos para o encontro com o outro.
Nesse sentido, um caminho foi o encontro com a palavra, pois nesse enlace trata-se sempre do encontro da outra palavra com a palavra outra. Foi dessa forma que muitos de nós conseguimos chegar até o outro e, sobretudo, chegar ao mais íntimo de nós mesmos.
Foi em meio a essa pandemia que ocorreu o Concurso Franklin Cascaes – Contos promovido pela Editora da UFSC (EdUFSC). Daí a ideia da publicação de narrativas que ajudassem, mais que contar histórias, a compreendermos os sentimentos e os sentidos instaurados por uma crise que evidenciou a fronteira entre a vida e a morte. Nas páginas que seguem, autores catarinenses ou que fizeram de Santa Catarina seu lar narram histórias e registram a história dessa que é considerada pela Organização Mundial da Saúde a maior crise sanitária de nossa época.
Não se trata obviamente de uma história cronológica, mas do intento de escrever justamente aquilo que os dados estatísticos não são capazes de apontar: a inscrição de sujeitos e dos jeitos que cada um deu para registar sua própria história. Esta coletânea se apresenta como uma homenagem às quase 700 mil mortes no Brasil (quase 23 mil somente em Santa Catarina) decorrentes da covid-19. Também se trata de uma escritura de acesso à condição humana que foi capaz de enfrentar o vírus com o simples gesto de ficar em casa, de aplaudir os profissionais da saúde, de se juntar ao coro das canções entoadas pelas janelas dos prédios ou de fazer uma prece. Esta coletânea é uma metáfora da resistência em palavras que se presta a proliferar a esperança e a suplantar o sofrimento da perda.”
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