Sabíamos que esse dia chegaria...
Lá pelos anos 90, a Folha publicava na seção de quadrinhos o Dilbert, de Scott Adams. Eu detestava o Dilbert, não conseguia entender por que certas pessoas gargalhavam com aquelas as tirinhas (ficava com aquela cara de tá e daí?, ajudando a engrossar minha reputação de radical-implicante).
Para completar meu rebaixamento à série B das criaturas incapazes de decifrar ironia, me explicaram com uma condescendência de altezas que eu não era capaz de entender o Dilbert porque não conhecia o “ambiente corporativo”.
Tenho uma vaga lembrança, nos anos 2000, de notícias sobre elogios a essas maledetas tirinhas, muitos e constantes, mas que eram produzidos pelo próprio autor – desmascarado pelo IP... quando algoritmo era tudo mato. “Não é nada que tire o requinte desse humor”, me lascaram no meio da cara, com narizes torcidos. Ok.
De volta à atualidade, Scott Adams é criticado há anos por seu apoio a Trump e falas anti-vacinas, entre outras. E agora, parece que o racismo descomplexado – livre, leve, solto e podre – tem batido cartão mais ostensivamente nas redes sociais do sujeito. Elon Musk saiu em defesa, reforçando o jogral do mitológico “racismo reverso”, que só faria alimentar o ódio contra homens brancos-ricos-bem-sucedidos-e-cansados-de-perseguição. Tá.
Enfim, lembrei da história vendo esta charge do genial Benett.
“A pandemia de covid-19 impôs a todos experiências singulares de vida e de vivências decorrentes do modo como as relações sociais foram normatizadas e estabelecidas. O isolamento social se fez imperativo: uma separação radical entre o eu e o outro; entre o individual e o coletivo. Essa cisão impôs também a necessidade de inventarmos formas de driblar a solidão e de encontrar outros caminhos para o encontro com o outro.
Nesse sentido, um caminho foi o encontro com a palavra, pois nesse enlace trata-se sempre do encontro da outra palavra com a palavra outra. Foi dessa forma que muitos de nós conseguimos chegar até o outro e, sobretudo, chegar ao mais íntimo de nós mesmos.
Foi em meio a essa pandemia que ocorreu o Concurso Franklin Cascaes – Contos promovido pela Editora da UFSC (EdUFSC). Daí a ideia da publicação de narrativas que ajudassem, mais que contar histórias, a compreendermos os sentimentos e os sentidos instaurados por uma crise que evidenciou a fronteira entre a vida e a morte. Nas páginas que seguem, autores catarinenses ou que fizeram de Santa Catarina seu lar narram histórias e registram a história dessa que é considerada pela Organização Mundial da Saúde a maior crise sanitária de nossa época.
Não se trata obviamente de uma história cronológica, mas do intento de escrever justamente aquilo que os dados estatísticos não são capazes de apontar: a inscrição de sujeitos e dos jeitos que cada um deu para registar sua própria história. Esta coletânea se apresenta como uma homenagem às quase 700 mil mortes no Brasil (quase 23 mil somente em Santa Catarina) decorrentes da covid-19. Também se trata de uma escritura de acesso à condição humana que foi capaz de enfrentar o vírus com o simples gesto de ficar em casa, de aplaudir os profissionais da saúde, de se juntar ao coro das canções entoadas pelas janelas dos prédios ou de fazer uma prece. Esta coletânea é uma metáfora da resistência em palavras que se presta a proliferar a esperança e a suplantar o sofrimento da perda.”
Ligo a TV, de bobeira. Canais de notícias pesando a mão para falar do acidente em MG. Em repetição infinita, imagens de um paredão de pedra que se desprende, cai; barcos, turistas, tragédia. A apresentadora narra o que já está explícito. Depois acrescenta: “Assista novamente, agora com o áudio. É possível ouvir gritos”. A imagem de segundos se repete novamente, agora com ruídos. “Acompanhe o resgate das vítimas”.
Tem quem pense que isso seja uma das marcas da nossa decadência ética, moral, sabor limão e afins. “Não sabem mais o que fazer para ter espectadores”, “Apelação barata”, “Falta de respeito”, “Sensacionalismo”, “Onde é que chegamos” e “[DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO INDIGNADO CONTRA A IMPRENSA]”. Pooooréeeeemmmmm... vale lembrar que a prática é tão velha quanto a própria imprensa, principalmente a policial e a que cobre desastres. Nunca existiu uma imprensa “respeitosa” com relação a esses temas, e muito cedo se entendeu que tragédia, horror e baixaria vendem. E muito.
Uma das figuras que melhor representaram essa dinâmica foi o repórter fotográfico Weegee (Arthur Fellig), que cobriu os bas-fonds de NY entre 1930-50. Em suas fotos, sobra cadáver com tiro na cara sangrando na sarjeta, entre outros. Antes de se tornar consultor renomado e realizar experiências fotográficas, Weegee vivia da venda de fotos da noite nova-iorquina para jornais, então, as imagens precisavam impressionar, tinham que ser dramáticas, para serem reproduzidas, compartilhadas, repetidas. E como um cadáver no chão nem sempre rendia uma imagem chocante na página policial, o fotógrafo não hesitava em arrastar um corpo para mais perto de uma lata de lixo ou placa, por exemplo, nem a fabricar poses mais impactantes com os cadáveres. Tudo tinha que ser rápido, antes da chegada de outros fotógrafos (ele revelava as fotos dentro do próprio carro). A história do sujeito é ótima, suas imagens mais ainda.
Voltando para a atualidade, a gente percebe que a ideia permanece, mesmo que algumas práticas (em teoria) não sejam mais permitidas. Só que o mais irritante é a camada de “seriedade jornalística” que tentam pincelar em cima do sensacionalismo mais chinelagem que mostram, é a cara de conteúdo que apresentadores e apresentadoras tentam ostentar enquanto arrastam uns corpos aqui e umas tragédias ali. Tirar imagens de foco não confere qualquer dignidade a essas coberturas que, sabemos, são montadas para garantir telespectadores para publicidade de bancos, montadoras, empreiteiras, multis & parasitagem em geral.
Weegee em ação (anos 1930)
Para Jair Henrique Miranda Ratton (1969-2008)
In Coletânea de poetas brasileiros contemporâneos – Editora Persona, 2021.
Não
tô podendo com tias papa-hóstia que agora xingam arcebispo, pois
sujeito faz sermão pacifista. Estamos falando de pacifismo (básico para
religiosos praticantes, não?) e arcebispo! Tá, não é um cardeal, mas tá
bem posicionado na fila eclesiástica do pão, oras! Apostólico romano tem
que respeitar hierarquia. Não é padre de paróquia trabalhado na
teologia da libertação, daqueles que congregados adoram chamar de
'vermelho' desde que marcharam com deus pela liberdade em 64... Vai daí
que tia carola agora deu de compartilhar postagem de um grupo chamado
'pátria armada', que mostra a soldadesca suíça: meia listrada, penacho
vermelho, armadura e um arsenal de baionetas e fuzis Mauser. Como
legenda, 'se até o Papa tem armas...'. Gentes, que vergonha que dá!
Quedê-lhe coerência? E quedê-lhe aquele conhecimento sobre história que,
juram as papa-hóstia, elas dominam como ninguém? Socorro. ![]()
Sempre bom lembrar que idade não é sinônimo de sabedoria acumulada. Se vivente passou a vida numa penúria de raciocínio, é bem provável que assim permaneça. Hoje, por exemplo, tem véi informando no fêici que “não entregarão a nação ao comunismo”. Como se vê, a questão não é apenas geriátrica...
Agarrar-se nas dobras da vida
para esquecer a peste
e meter na miséria carimbo de carma
Ignorar violência – já preencheu os espaços da vida,
só quebra dentes de quem afunda
Discutir a validade do parágrafo quinto do artigo xpto,
a relevância da mesa redonda,
a importância da aliança política,
o aprendizado pessoal.
Trabalhe a distância.
Assine petição.
Faça pão.
Beba água.
Exercite-se.
Pronto, mais um dia terminado.
O Organized Crime and Corruption Reporting Project’s – Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção – é uma associação jornalistas investigativos de várias partes do mundo que todo ano elege uma personalidade/instituição que tenha realmente contribuído para o avanço da corrupção e do crime organizado. Já “premiaram” Putin, Maduro, Duterte, Erdogan, Trump, entre outros. Adivinha quem recebeu o maior caneco em 2020? Pôxa-que-surpresa-né-como-poderíamos-saber-e... Não, pera!
O
importante não é saber se eu sou contra, a favor, se faria ou não, se
minhas crenças condenam ou aprovam. O que eu penso, individualmente, não
conta, pois o importante é que mulheres que precisem do procedimento
possam fazê-lo de forma segura, descriminalizada e fora de uma discussão
moral.
