Existe saudade que movimenta o arredor, desafia o ar, manufatura encontros. E tem aquela, a do outro tipo, que carrega pro beco sem saída, não traz de volta, não diminui ausência. Você espera que se consuma feito vela pra poder continuar em frente. Mas a dita não gasta de uma vez só – constitui processo, independente de qualquer vontade.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Catadão de publicados (2021-24)
Marco Zero
Marília Lila
Mountain bike, smart watch, ciclo computador, bolsa de quadro com o smartphone, ele cruza a cidade em direção à casa da colega. Pouco se falam na universidade, mas nos últimos quinze dias ele a atolou com mensagens: precisa muito de um livro que ela tem, esgotado, eternamente na lista de empréstimos da biblioteca, desaparecido de sebos e inexistente online.
Uma vez o pedido aceito, ele cancelou a ida diária à academia e a postagem de um vídeo em seu canal de viagens. Deixou a tarde livre, pois tem certeza que a colega vai lhe apresentar um problema ordinário a ser resolvido, como celular travado por aplicativos, uso de IA ou um laptop que não se conecta mais. Habituou-se a essas solicitações quase diárias, às vezes de pessoas que mal conhece, mas que permitem evidenciar suas capacidades com a tecnologia.
Pedala por lugares familiares, mas que não conhece realmente. Ladeira mal asfaltada, a rua em que a colega mora nasce de uma grande avenida. Ali equilibradas em declive, casas de madeira com fachadas de cimento alardeiam o tempo em que foram erguidas, há quase um século, assim como as camadas de reformas que vieram depois. Todas muito parecidas e cercadas por muros de concreto vazado, as construções se apoiam em curtos pilotis de tijolos e têm escadinhas para compensar o desnível da rua. Número 57, chegou. Um portão baixo geme em agudos ásperos quando é aberto. Ele carrega a bicicleta cinco degraus acima até a varanda com piso de caquinhos. Na parte superior da porta de entrada, um losango de vidro dividido em quatro cores. A colega abre, formalidades, “difícil achar o caminho?”, “trânsito caótico”, “será que chove?”.
Uma vez dentro da casa, não é mais seu olfato que percebe os cheiros, são os próprios odores que o aspiram. Apesar do sol escandaloso da tarde, a sala naufraga numa penumbra morna, e ele decide se afogar. Capta sons da rua, da madeira da casa, da própria pulsação, da voz da colega, tudo de uma vez só. Consegue sentir o tempo parado, absoluto. Em prateleiras, bibelôs gritam detalhes e relíquias abrem espaço entre cisnes de vidro, vasinhos de porcelana, flores de tecido, violetas verdadeiras, crochês insólitos. O bricabraque se erige em monumento.
Menos de um minuto após sua chegada, o celular da colega soa, ela responde, diz que está a caminho. Desliga, se desculpa, pergunta se ele não se importa de esperar, é coisa rápida. Ele se desfaz em muitos não-se-preocupe, vê a colega sumir em direção à cozinha e dali para um quintal. Agradece aos céus, à providência e à própria casa, pois pode relançar sua expedição invasora sobre objetos que delimitam não só espaços, mas farelos de tempo.
Uma cristaleira põe em evidência pilhas de pratos sobreviventes, com bordas lisas, curvas e frisos, cachorrinhos de louça, um galinho português preso a um chaveiro, uma torre Eiffel igualmente cativa, cinzeiros, pares de xícaras exibindo cenas campestres, um caneco de chopp resgatado de uma Oktoberfest local. Sobre a mesa no centro da sala estreita, toalha de crochê e frutas de plástico que transbordam de uma cesta envernizada. TV à válvula em nicho privilegiado, pilha de revistas desbeiçadas, embalagens vazias de produtos que não existem mais, retratos cinzentos entre o granulado colorido de fotos reveladas décadas atrás, rendas de poliéster amarelado na janela dissimulando o mundo exterior.
Ele avança. Um degrau entre a sala e a cozinha. Desce para o chão de cimento vermelho e seu radar capta o oleado colorido sobre uma pequena mesa; pia, fogão, botijão de gás com indefectível capa de plástico xadrez; sobre a geladeira com alavanca na porta, o liquidificador vestindo o mesmo modelo. Uma coleção de chaveiros pendurados em pregos alinhados na parede, ao lado de um Cristo desbotado que exibe seu sagrado coração e um casal cuja tristeza ficou eternizada numa fotopintura. Na parede contígua, a porta entreaberta do banheiro deixa ver o reflexo do sol batendo em cheio no vidro martelado de um basculante.
Protegendo os olhos da claridade, ele empurra a porta e vê a pia retangular branca e muitas vezes esfregada, escovas de dente dentro de um copo, o espelho oxidado, prateleiras com tubos e potes já velhos de guerra e outros recém começando o combate. Uma cortina plástica com peixes coloridos esconde a torneira de chuveiro mais antiga que ele já viu, uma touca de banho que parece uma hortênsia e um sabonete amarelo. Ele pensa em objetos sepultados no interior das pirâmides. Tontura, ar morno. Apoia as costas contra os azulejos azuis e escorrega até o chão. Sente que vai se fundir ao cimento vermelho, quer se dissolver naquela luz, se transformar numa partícula elementar, apenas existindo, sem esforço para ser.
Ele sabe que vem de linhagens anônimas, sabe que pertence ao prosaico, aos manufaturados, reaproveitados e mesmo assim originais. Vítima de ablações, sente dores pelas coisas das quais foi apartado desde o nascimento em nome do bom-gosto-sóbrio, sem entulhos nem confetes, dentro de ambientes a emular festas de réveillon publicitárias. Naquele momento, tem a sensação de que suas conexões estão se desmontando e que suas redes de contato com o mundo se arrebentam. Afogado na tecnologia de última geração, percebe-se operando apenas por instrumentos, diariamente, e no limiar de interfaces. Apoia a cabeça na parede, enterra o queixo no peito e deixa o restante do corpo se liquefazer. A intensidade da luz na janela aumenta e diminui conforme as nuvens permitem.
Ouve sons metálicos e uma respiração que não é humana. Massa escura com manchas amareladas, a criatura parada à porta espirra e se sacode, espalhando baba ao redor. Entorta a grande cabeça para o lado, bate as patas dianteiras contra o chão e solta um latido rouco, apenas um. Voltando ao mundo, lento, ele se dá conta da rottweiler que se aproxima, intrigada por sua presença insólita. Mais uma sacudida de cabeça e os sons da coleira cortam de vez seu transe. Ele encolhe as pernas devagar, todos os sentidos em alerta. Apoia as mãos no chão para se levantar quando ouve a voz da colega chamando do quintal: “Zuzu! Vem aqui, já!”. A cachorra se vira na direção da voz, depois volta a observá-lo. “Zuzu, aqui!”. O bicho toma impulso e corre para fora, escorregando pelo piso vermelho.
Como quem se ergue depois de um soco no meio da ideia, ele firma as pernas, sai do banheiro e volta à sala. Gira a chave na porta, atrapalhando-se ao abri-la, e treme de frio enquanto carrega a bicicleta até a rua, onde sente lâminas de tempo se amontoando, avista de relance estratos se desagregando e deixando à mostra partículas desertoras de outros agoras.
Na bicicleta, ganha velocidade ladeira abaixo e some na avenida movimentada. Confusa, a colega aparece na porta a procurá-lo: “O livro...”. Fica um tempo olhando para os lados. Entra. Enquanto tranca a porta, escuta o movimento distante e familiar da avenida. Carros acelerando, buzinas. O som abafado de uma freada e o eco de uma colisão. Na cozinha, sintoniza o rádio envolvido numa capa de couro muito gasta e acomoda um coador de pano sobre o bule verde. Procura a caixa de fósforos enquanto Zuzu se deita no chão.
In: Arquétipos do Absurdo. Antologia. Belo Horizonte: Selo Editorial Starling, 2025.
Lei de Segurança Nacional
Marília Lila
Plantou gritos
no cimento, no ferro e no aço
no estrondo de portas
na aflição de ferrugem
nos fios elétricos e nas violações
Plantou gritos
que ecoassem em ondas pela cidade
como registros do sinistro
em que muitas caíram
durante um bocejo do mundo
Plantou gritos
que adubassem alertas infinitos
consertassem a rudeza
e esmagassem o terror
que toma corpo
no orgulho da faina
na falácia da ordem
na letargia cotidiana
In: Sangue e Versos. Antologia. São Paulo: Arame Farpado, 2024.
Linha d‘água
Marília Lila
Consultório, sala de espera. Folhas de revistas avançam e recuam. Alertas de mensagens, timelines perturbadas, leituras em diagonal. Sozinho no aquário, Procópio desliza, as longas nadadeiras azuis varrendo o fundo de pedras. Consultas atrasadas. Suspiros. Inexpressões. De tempos em tempos, as pessoas se desconectam do ambiente e submergem nas próprias essências – essas, Procópio é capaz de ler, como toda criatura cativa. Ele traça uma diagonal ascendente na água, para num canto e ali permanece, abrindo e fechando a boca, selecionando a próxima leitura, que não demora a chegar, vinda do sofazinho em frente ao aquário.
Esperar é necessário. Não gosto, mas não me incomodo, pois me programo. Sou pessoa organizada, do tipo que só passa no coador a quantidade necessária de café, sorve-o em pé, ao lado da pia, lava o que foi utilizado, seca e guarda. Meus dias são sucessões de pequeninas atividades, com começo, meio e fim. Nada grandioso, nada criativo, mas tudo organizado. Previsível. Contrario-me com frequência e às vezes tento seguir o fio da minha insatisfação, entender sua causa. Sei que isso é inútil, quase um reflexo a me afligir, pois no final das contas, a resposta está lá, sempre esteve, diante dos meus sentidos: a maior parte dessa insatisfação é causada pelas pessoas que me cercam, que ordinariamente perdem a paciência comigo, sugerem que preciso mudar, que a convivência não é fácil. Só que eu não tenho culpa se as pessoas não correspondem aos meus ideais, que por sinal, não sei definir bem quais sejam, mas isso é outra história. Incomodados que se retirem, não é o que diz o ditado? Várias pessoas se retiraram da minha vida, após discussões, tentativas de entender situações, tudo muito desagradável. Saio correndo, literalmente, pois o que ninguém nunca quer entender é que eu sou assim! E nada posso fazer se as situações se repetem. Nada. Ninguém consegue me distrair, falta uma sensibilidade específica para viver comigo, pois sou pessoa organizada, do tipo que só passa os cafezinhos necessários para o momento. Há alguns anos, releio os mesmos cinco livros, meus preferidos. Às vezes, tento outros, mas é muito difícil encontrar histórias que me apeteçam, e a bem dizer, não preciso de outras. Me alimento corretamente, adoro exercícios, assim como adoro perceber como meu corpo se aperfeiçoa. Controlo a ingestão de nutrientes e meus progressos físicos como se fossem atos de fé, de engajamento político mesmo. Acredito que me manter saudável seja um bom legado que ofereço ao mundo, de bom grado. O que, modéstia à parte, considero algo raro atualmente, pois só vê egoísmo estragando tudo, é a...
Telefone. Sonolento, o recepcionista balbucia o de sempre, faz anotações e convoca o próximo vivente a ser atendido. Consciências soltam-se de suas profundidades e chegam à tona com olhares monótonos, avaliando e seguindo o paciente da vez, que desaparece no corredor à direita. Pigarros, consultas a relógios, celulares. Por instantes, o ambiente todo parece mudar de posição. Depois, as criaturas da sala voltam a afundar, lentamente, em suas substâncias. Procópio conhece a dinâmica. Outra consciência chega até seu aquário sem muito alarde.
Odeio esperar, odeio! Mas por que aceitam tantos convênios aqui, deus meu? Um dia terei o dinheiro necessário para nunca mais ficar em filas, esperando. Eu chego, recebo atendimento e pronto. Em qualquer lugar, passarei antes. Aliás, tenho que marcar hora para dar um jeito neste cabelo, faz mais de uma semana da última vez. E também avisar a diarista que não deixe os móveis fora do lugar – custa alinhar tudo com o tapete? Parece que custa, pois a cadeira azul está sempre no canto depois que ela limpa o chão. Ai, eu sei que deveria me importar menos com isso, mas tenho tantos problemas com mudanças, com disposições diferentes das habituais. Eu não gosto que as coisas mudem. Não, não é bem assim. O que eu queria mesmo é que as mudanças acontecessem quando eu tivesse condições de assimilá-las. É isso! Preciso anotar para me lembrar. Eu sei, eu sei, a analista e o homeopata já me disseram que nesse caso não seriam mudanças, então, eu tento me habituar à ideia. Eu tento, de verdade, mas como é possível fazer escolhas e mudar, se tudo se transforma tão rapidamente? E se eu escolher o que não for bom para mim? Preciso de uma camisa nova, saindo daqui, passo no shopping, não posso esquecer. Que horas são, hein? Mas então... a vida seria tão mais decente se pudéssemos saber das consequências de cada escolha antes de decidirmos, não? Tenho tanto medo de decidir errado, que evito qualquer situação envolvendo escolhas. Amigas e amigos riem, até se revoltam comigo, mas é assim que eu sou, não posso mudar de uma hora para outra, posso? E é exatamente por isso que eu tento criar coisas positivas na mente, pensamentos construtivos, com um empenho enorme. Chego a me cansar fisicamente. Faço isso para que desejos se concretizem, pois acredito que podemos produzir a realidade que queremos. Crio verdadeiros mantras em forma de pedidos: que o mundo não mude tão rapidamente; que o tempo não passe tão depressa. Om. Amém. Inch Allah. Como era mesmo em chinês? Tenho que encontrar, para reforçar meu pedido ao universo. Assim que eu chegue em casa, pesquiso, sem falta. Queria fazer mais coisas, me concentrar, mas nem sei por onde começar. Por isso não é justo que o tempo passe enquanto eu não decidir, não tem como a...
O telefone
outra vez, uma porta que bate. As duas criaturas observadas do aquário
são içadas à superfície ao mesmo tempo, seus olhares se encontram,
opa-tudo-bem-e-aí, coincidência-né-veja-só. Sorrisos incolores, ansiando
pelo fim do contato. Se conheceram há um mês, talvez mais, na Passeata
Pela Paz no Mundo e Pela Solidariedade Entre os Povos. Pois concordam
que o mundo caminha para o egoísmo extremo, não há mais desprendimento,
acabou-se a empatia e o interesse verdadeiro pelas coisas, não há mais
noção do que seja bom ou errado. Acreditam que muitas passeatas são
imprescindíveis, que a publicidade deva falar sobre isso, que se
elaborem campanhas educativas, muitas. São necessárias mudanças e
rápido, mas será que ninguém percebe isso? O mundo tem que ser
transformado! Revoltam-se, pois é urgente que as coisas mudem. Do jeito
que está, não dá mais. Por que ninguém age, até quando este imobilismo?
Procópio se agita na água.
In: Coletânea de Escárnios. Curitiba: Persona, 2024.
Poeira
Limpa a poeira dos armários como se desincrustasse a rotina dos dias, a tristeza das horas, a persistência das escolhas sem volta.
In: D-ARTE. Revista Eletrônica de Arte e Cultura, n. 29. Londrina, 2024.
Terceira Pessoa Singular
Marília Lila
pai e mãe nada lhe deixaram, nem memórias – economia doméstica
o que coleciona da vida são os horrores; fobofilia
imaginou merecer grandezas – cantiga que intoxica crianças
enquanto se calculam potencialidades lucrativas, estabilidades ou apatias
se tornou apenas a pessoa que era
limitada pelo mundo que define a sobra, encolhe a experiência
e envelhece a utopia
preenche o vazio entre as promessas e os quem-sabes
com projetos pela metade e bicos para uma digestão por dia
não conhece palavras para narrar o que vive, ainda não existem
mesmo se conhecesse, não teriam demanda
porque terror e miséria só se consomem mornos, em experiência estética
sim, ensinaram-lhe a proteger sensíveis, a deglutir suas condescendências
migalhas que não abrandam fomes
nem serenam traumas de quem vive
com a agulha no olho
sente fome de beleza enquanto flanqueia o embrutecimento
o feio, o precário e o sujo – o trauma é infeccioso quando a exposição é total
carrega a vulnerabilidade pura
que descasca a pele centímetro a centímetro
entende que vida é faísca na cabeça
se dissipa na desimportância
placa em rua que deixou de existir, anúncio de comércio há tempos fechado
sabe que só tem o que ainda não é
e inveja animais, plantas e água – não cultuam massacres, desconhecem fronteiras
não herdará o reino dos céus
mas já são seus o lixo, a culpa
e os excessos alheios
é rachadura, lasca, rasgo, rasura –
estrago que irrompe antes do descarte final
In: Revista Brasilis, n. 2, vol. 1. Um ato de resistência, maio de 2023.
Agenda
Tenho me dado cansaços erguendo coliseus já em ruínas.
In: Zarpadas. São Paulo: Abarca Editorial, 2023.
Anticorpo no redemoinho
Marília Lila
Céu azul. Mesmo de olho fechado, sei que é azul. Bem-te-vi ao fundo. E afundo em tempos outros, marcados por pessoas que importaram e que, quando se foram, levaram junto uma época inteira. Perder algumas pessoas é como perder o próprio backup do mundo. Travo na garganta. Turbilhão. Coroa. Corona. Asfixia. Dezenove. 1919. Bem-te-vi.
Sempre tive uma imagem fixada na retina, a da tia-avó que não conheci. Na imagem, ela e minha avó num estúdio fotográfico, entre panos com franjas, flores de papel e uma paisagem falsa ao fundo. Ambas de branco, a melhor roupa para o retrato, laço de fita infantil nos cabelos crespos que declaram guerra ao penteado à europeia. Dois anos mais velha, a tia-avó desafia a câmera, o fotógrafo e o mundo com um olhar direto, de baixo para cima. Um nadinha de sorriso, que eu adivinho debochado. E era, a família confirma. Ela e amigas iam escondidas a bailes, com roupas masculinas. Dançavam juntas, vez ou outra, tiravam alguma outra moça a dançar. Eu queria saber mais, as respostas vinham difusas: “brincadeiras inocentes”; “todas tinham noivo”, me garantiam. Além do mais, explicavam, a preocupação naqueles dias era com a gripe forte, vinda de fora e que matava. Se convivia com mais doenças e mortes precoces, mais com medo que precaução. Um dia, a gripe ganhou nome e sobrenome: era espanhola e era pandemia. Chegara ao confim do mundo, e não havia cafiaspirina que desse cabo da praga. Tia-avó pegou. Melhor, a gripe pegou-a. Quinze dias de dores, febre, respiração que não se completava. Isolamento. Máscaras de pano grosso. Morreu no mesmo dia que o presidente da república, a família contava, com uma ponta de orgulho mal disfarçado. A carroça da saúde pública veio buscar o corpo. Era uma tarde abafada, ameaçando chuva.
Demorei a perceber o quanto minha irmã era parecida com tia-avó, coisa que nosso pai não suportava. Ele chamava a filha mais velha de boçal, batia em sua boca com as costas da mão, tapa rápido, arrogante como ele. Minha irmã era brilhante, e eu sentia que, perto dela, poderia entender qualquer coisa que se passava no mundo. Era como se algo sensacional fosse acontecer a cada minuto. Aprendeu a ler sozinha, aprontava, como dizia minha avó, não respeitava autoridade. Foi aprovada em medicina entre os primeiros lugares, outro motivo de orgulho para a família, mas que criava incoerências diárias. Nosso pai tinha medo que ela o ultrapassasse, por pavor de ceder à mudança, de admitir que a verdade dele só ficava em pé ao custo de muitas escoras, dos amigos e familiares. O protesto da nossa mãe era silencioso, interno, pessoal e intransferível. Pelas frestas, eu e minha irmã buscávamos seu afeto, raro e perecível. Era como se tivéssemos várias mães, dependendo do humor, do que ia à volta dela, da sua frustração ou calma interior. A mãe que nós preferíamos quase nunca estava lá. Aparecia de surpresa e ia embora, tão rapidamente, que nos fazia duvidar do encontro. Travo na garganta.
Grávida. De um dia para outro, minha irmã passou de rebelde a criminosa sob aquele teto – harmônico, de família amorosa, jurava nosso pai. Grávida! Ele se rasgou em lamentos asquerosos. Adoção, abandono do curso de medicina – que vergonha para um pai, a filha indo às aulas naquele estado e solteira. A mudança de minha irmã para o interior foi cogitada, casa de parentes. Mas a solução dela veio antes, quando colocou sua cópia da chave de casa sobre a mesma e saiu, com uma pequena mala na mão. Não disse nada. Deixou um bilhete para mim, avisando que me procuraria. Passei a vê-la com frequência, apesar dos escândalos paternos e o ar de vítima materno. Meu sobrinho nasceu num dia lindo de abril. Os avós, aos poucos, aceitaram a criança, mesmo que à mãe solteira destinassem apenas monossílabos, olhares desviados e a arrogância dos que se sabem certos sobre tudo.
Eu e minha irmã juramos nunca abandonar uma à outra. Por conta disso, passei a enfrentar nossos pais, sem argumentar, mas fazendo o que eu queria. Comunicava-lhes sobre minhas decisões, no máximo. Minha irmã chegou à fase do internato médico na universidade ao mesmo tempo em que um segundo pico de meningite demolia o país pelas bases. Os militares no governo do país haviam interditado a divulgação de quaisquer informações, mesmo que fossem sobre prevenção. Entrevistas proibidas, profissionais de saúde e lideranças comunitárias, todos silenciados. Mas como tomate maduro, impossível querer que não escorra entre os dedos quando se aperta demais. Minha irmã se juntou a um grupo com outras colegas, professoras de periferia e estudantes de jornalismo. Distribuíam pequenos folhetos mimeografados descrevendo cuidados básicos para evitar a transmissão da doença. Reuniam pessoas que buscavam apoio e informação, esclareciam, ajudavam, discutiam debatiam. Ou seja, tudo o que era passível de prisão e muito pior. E o muito pior não demorou a chegar. Minha irmã desapareceu e ninguém deu conta. Dias. Semanas. Um mês. Dois. Os piores da minha vida. Até então. Fragmentos de informação desencontrados chegavam. Pela primeira vez, minha mãe ignorou a imaginária autoridade paterna e passou a me acompanhar. Delegacia, quartel, ordem pública, cadeia. Horror macho e fardado, fedendo a burrice, cabresto e violência. Não gosto de ir até essa memória. Cheguei a levar bofetadas, tão familiares quanto as paternas. Meu pai não queria ouvir, não quis saber. Bradava que o surto de meningite era invenção e, filha dele, minha irmã não era mais. Dedo em riste, camisa aberta, debruçado sobre o prato do almoço, enquanto o rádio papagaiava a loteria esportiva. Metida na baderna, isso sim – ele esbravejava –, mãe solteira, vagabunda e comunista. Definitivamente, filha sua, não era mais. Minha mãe silenciou, garantindo os valores familiares. Então, foi minha vez de sair de casa, mala na mão, meu sobrinho no braço.
Ironia do regime, meu pai contraiu meningite. Não fui vê-lo, apesar dos pedidos chorosos da minha mãe. Até hoje, cogito se ele morreu em paz e sem sofrer. Espero, com todas as minhas forças, que não, o que me consola um mínimo. Continuei minha procura, conheci muitas pessoas na mesma situação. Tive informações precisas sobre minha irmã no dia do aniversário de dois anos do meu sobrinho. Me lembro de um grande número 2 recortado no isopor, copinhos de papel, estouro de um balão, brigadeiros e cheiro de vela apagada. Não consegui dar conta. Paralisei. Alguma coisa cimentou um bloco em minha memória. Monolito. Travo na garganta. Horror macho e fardado, fedendo a burrice, cabresto e violência. Não gosto de ir até essa memória. Me aproximei dos movimentos pela anistia e direitos humanos enquanto meu sobrinho crescia. E as décadas seguintes passaram intensas, exageradas e até felizes. Mas rápidas.
Nossa casa, minha e dele, muitas vezes foi a salvação para quem era chutado por famílias e próximos. Ele estudava teatro, eu ensinava inglês. Viajamos juntos, saímos. Adotei seus amigos e amigas, fui adotada por eles. Durante um ano, um casal de amigas dele morou conosco. Conheci tanta coisa. Até ilícitas, as quais me deixavam tão feliz. Era como se eu esfregasse na cara de meu pai o quanto eu não o considerava, o quanto ele não tinha decisão sobre mais nada. Tive namorados. Uma namorada. Nada para sempre, nada que concedesse títulos e cargos e relações e direito a palpites. Então um nó começou a se apertar. Das pessoas públicas que adoeciam e morriam, passamos a pessoas próximas, depois às conhecidas. Depois às amigas. Tempos de hospital, visitas, noites de vigília, espera pelo chamado coquetel que debelaria imunodeficiências. Participávamos dos grupos de discussão e pressão por políticas públicas de saúde, ajudávamos na divulgação de informações científicas e decentes, tentando soterrar de vez informações falsas, precisamente aquelas plantadas em nome da família e de uma ordem social que nunca existiu. Amigos começaram a partir. Meu sobrinho recebeu o resultado de seus hemogramas. Ele nunca me contou com todas as palavras, não foi preciso. Trocamos olhares com as informações necessárias, e os próximos 14 anos nos encontraram inteiros, criando alternativas para viver. Sensação de que foram 50 anos, pois tão intensos. Rotina de medicamentos, consultas, exames. Quando o vírus passou a se multiplicar em escala irrisória, meu sobrinho passou a ser portador apenas. Dias felizes. Outros nem tanto, mas vida de verdade, sempre. Nos juntamos às comissões que investigavam desaparecidos, e no reconhecimento de sua morte, minha irmã voltou a existir. Seu filho, e meu também, começou a ter sucesso como ator, depois diretor de teatro. O normal parecia estar mudando, nossas marcas pareciam contar nesse mundo. Ele então adoeceu, piorou, melhorou, piorou. Hospitais outra vez. Me disse que aturaria tudo, dor, tratamentos, efeitos colaterais, mas não a perda da lucidez, a alienação do mundo. Na última vez em que nos falamos, no hospital, a clareza das ideias começava a abandoná-lo. Me pediu que amarrasse seus sapatos, pois tinha medo de tropeçar. Eu concordava com tudo. Não sei se ele chegava a pesar 40 quilos. Era possível ver o batimento do coração através da camiseta fina, como se mais nada houvesse por baixo do tecido, tantas vezes lavado, com versos de música já se apagando – cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Dormiu agarrado à minha mão, machucando meus dedos por causa dos anéis. Não os tirei, nunca mais, pois era como se meu sobrinho tivesse se impregnado ali.
A vida continuou sua corredeira, eu a acompanhei, rápida, mesmo que internamente tivesse a sensação de viver em um tempo suspenso. Um agora permanente passou a me envolver, nem bom nem ruim, mas ali, determinando meus dias. Coisas boas vieram. Lampejos de mudanças no limiar me davam a sensação de ter minha irmã e meu sobrinho junto a mim. Fui convidada a publicar minhas memórias por uma editora pequena e desconhecida. Estranhei o convite a princípio, depois abracei-o com alegria, pois poderia registrar as cores das vidas que me foram tão importantes e que acabaram tão cedo, pela doença, pela violência. Pelas duas juntas. Ainda trabalhava nesse projeto quando o mundo foi pego num vácuo, como se um aspirador potente nos quisesse exterminar. Horror macho e fardado, fedendo a burrice, cabresto, e passamos à livre escolha da violência como horizonte político, como estilo de vida. Baque. A editora que publicaria meu texto fechou, sem perspectivas de se voltar à ativa. Mas continuei a escrever, pois eu precisava de um galho para me segurar, por pouco tempo que fosse. A película de tempo em suspensão ao meu redor se rompeu e eu não quis me afogar naquela corredeira. Não naquela. Redemoinho. Quando as pessoas que mais contam morrem, é como se parte de nós descesse ralo abaixo em uma fração de tempo ínfima. E perpétua – pois hoje, a primeira lembrança das coisas vividas juntos, aquela que as ilumina pela primeira vez e as fixa como memória, se deixa ver já no lampejo de sua destruição. Mais ou menos como a bomba atômica, que imprimiu nas pedras as sombras do que destruiu. Ausências tão enormes que se tornam presença.
Essa presença me deu sustentação outra vez, quando um precipício se abriu abaixo do outro e o mundo foi se transformando num cenário de ficção científica já meio batido. Máscaras no rosto, pessoas isoladas em suas casas, a novidade da situação, emoções ao vivo. E mais o cenário tentava nos incluir como personagens, mais a negação do real parecia ser a solução. Senti como se, um século depois, tudo de ruim tivesse se amalgamado, e a doença riscasse os limites da ação, da revolta. Senti que íamos adoecendo, por vírus e por uma estrutura social mórbida, a cultuar obscurantismos perigosos. Atravessei o século XX sendo atingida pelos detritos dessa cultura doente, vendo as tentativas de se chumbar os arco-íris a terra, de afundá-los no esgoto. Mas também testemunhei solidariedade e delicadeza, tipos de planta que deitam raízes e apontam suas folhas em qualquer fresta que se apresente, asfalto ou lama. Brotam. Luz explodindo em gotas d’água, não tem chumbo e não tem dejeto que a destruam. Continuaremos, aos lampejos, forçando passagem através das frestas, cegando pelo brilho. Os vírus se debelam, os cacos se colam.
Nesse meio tempo, minha mãe, muito idosa, adoeceu. Desde a morte de meu pai, escolheu morar com a família do irmão, no interior. Nos víamos raramente, ela pouco se interessou pelo neto, que percebia como uma vítima da degradação moral das duas filhas. Visitei-a ainda na casa desses parentes, e a experiência não foi tão ruim quanto eu imaginava que seria – por conta de uma nova geração familiar que cresceu e espalhava outros genes, generosos. Transferida a um hospital próximo, minha mãe faleceu três dias depois. Nesse intervalo, herdei o vírus. Cada um lega o que pode ao futuro, não é mesmo? As memórias viraram caleidoscópio. Nesse momento, sinto que o passado morreu e que o futuro desaparece. Dezenove. Coroa. Corona. Mergulho nas memórias macias, expulso delas para sempre as sombras de horror. Desapareçam! Um travo na garganta. Físico. Me deixo afundar num vazio tranquilo, sem tempo. Não sei onde nem quando estou. Acho que ouço vozes, talvez. Só sei que o céu está limpo, apesar os olhos fechados. Bem-te-vi ao longe, e outro adiante. Não me entrego. Me habituei a fincar os pés no redemoinho.
In: Pandemia em Contos. Florianópolis: Editora da UFSC, 2023.
Ablação
Para Jair Henrique Miranda Ratton (1969-2008)
Marília Lila
Onde foram parar
meu amigo
nossas viagens imaginárias
a casa que projetamos
os filhos que inventamos
os livros intermináveis que não escrevemos
o curta-mais-nojento-do-mundo que detalhamos
o lugar para ver o fim do mundo que reservamos
o vestido preto que você imaginou para mim?
Excessivos e tão reais
que prescindiram de materialidade
mas se perderam ralo abaixo
numa partícula de tempo
mínima e perpétua –
pois hoje, a lembrança das coisas vividas
aquela que as ilumina pela primeira vez
e as fixa como memória
se deixa ver já no lampejo de sua destruição.
Mais ou menos como a bomba atômica
que imprimiu nas pedras
as sombras do que destruiu.
In: Coletânea de poetas brasileiros contemporâneos. Curitiba: Persona, 2021.
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É trágico, não há o que dizer. Pobres famílias e amigos que perderam seus próximos. Mas assim, imprensa: quan...
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Coisa que me dá gastura existencial é o barroquismo, a pretensão às ‘ belas letras’ e à erudição com trejeitos mal trabalhados no moderninho...