Já dá pra pedir entrega em domicílio?
quinta-feira, 27 de junho de 2019
terça-feira, 9 de abril de 2019
Indique um filme ao ministro Moro
Os últimos dias estão cheios das gracinhas do ministro da justiça Sérgio Moro. “Se não der certo, a culpa é do Bolsonaro”, “Este Twitter é mesmo meu”, participação em programas pop de entrevistas e fotos trabalhadas no empertigamento até o talo...
E enquanto exibe um calendário da Caixa Econômica como se fosse espada de samurai ou o santo graal, o ministro Moro, fãzão do Homem-Aranha, diz que precisamos combater o crime nacional com agentes infiltrados.
Claro. No país em que um músico e uma técnica de enfermagem são alvejados pelo exército com 80 tiros. Foi engano. O músico morreu. O filho do casal, de 7 anos, também estava no carro. Mas foi um engano. Um dos fardados teve tempo de rir da mulher, que gritava desesperada. Desculpe, foi engano.
Então...
Teria Moro assistido também àqueles filmes em que sinistros chefes de Estado estimulam crime, violência e ação de milícias? Nós já. Na tela e na vida. Será que já assistiu àqueles outros filmes sobre um sistema apodrecido da base ao topo? Com policiais, governantes e juízes midiáticos tão misturados à bandidagem que fica difícil desatar o enrosco?
Não? Pois fica aqui uma indicação: Serpico, dirigido por Sidney Lumet em 1973. “A história do homem mais perigoso sobre a Terra: um policial honesto”. Al Pacino como protagonista. Spoiler: não tem final feliz róliudiano como é do gosto do magistrado, mas é “filme norte-americano com agentes policiais disfarçados”, blablablá, theatrical trailer setentão vintage...
.
E de onde saiu esse, tem mais um monte. Incluindo um documentário sobre Frank Serpico, entrevistas com o próprio, de dois anos atrás.
Se o ministro se guia pelas referências cinematográficas, que sejam, né?
Labels:
#GolpeERetrocesso,
Ágora,
cabô-racismo-mas...,
Cinematographo,
Direita-miojão,
Gente Frouxa,
Na caradura,
Panelagem,
Peraí: tô salvando o mundo,
Tudinveja
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
O que é torcer para “dar certo”? (texto de A. Prata)
Folha SP, 13.01.19“ “As eleições acabaram, não há lugar para revanchismo”, dizem os supostos arautos da racionalidade, “agora é torcer pra dar certo” —e todos aqueles que não acompanham as primeiras estultices do governo Bolsonaro fazendo coraçãozinho com a mão são petistas ressentidos, incapazes de aceitar as regras da democracia: “Vai pra Cuba!”.
Tenho dificuldade em torcer para o governo Bolsonaro “dar certo”, não por ser um “petista ressentido” —no infinito rol dos inimigos da pátria criado por esta direita neo-jurássica estou mais para “esquerda-caviar”. O problema é que não compreendo o que seria este governo “dar certo”. Se for Bolsonaro e sua milícia de Brancaleone conseguirem pôr em prática boa parte do que prometeram na campanha e começaram a tentar implementar nas últimas duas semanas —com exímia incompetência, felizmente—, estou fora.
Sejamos francos: estes caras são uns lunáticos. Como não chamar de maluco quem acredita que o aquecimento global é um “plot marxista”? Quem acha que a Folha (“Foice”) de S.Paulo e a Globo (“Red Globo”) são comunistas? Quem vê um plano da esquerda, infiltrada em todas as ramificações do ensino e da cultura, para destruir a família? Para Olavo de Carvalho, o Osho da seita Jair messiânica, o “plot” é ainda mais doido: a esquerda é manipulada pelo grande capital que, minando a família do trabalhador,
poderá explorá-lo melhor.
“A sociedade que o ‘multiculturalismo’ anuncia” —escreveu aqui na “Foice”, em 2017, o Rajneesh dos bolsominions— “(...) é uma sociedade de tipo romano em que só os ricos e poderosos têm o privilégio de possuir uma família estruturada, enquanto o povão se esfarela numa poeira de átomos soltos, sem pais nem mães, nem tradição, nem passado, nem referência —a massa de manobra ideal para os engenheiros sociais a soldo da elite bilionária”.
Imagina o grau de delírio da pessoa para, toda vez que vê a bunda do Zé Celso, enxergar a carteira do George Soros? Nem no Centro Acadêmico de Ciências Sociais eu me lembro de testemunhar paranoia tão delirante. E olha que lá no CA o pessoal misturava Foucault com maconha, Kaiser quente e Bakunin —coquetel, agora sei, preparado pelos ocultos barmen da “elite bilionária”.
Voltando à terra: imagino que a maioria dos que torcem para o governo “dar certo” se refere à recuperação da economia. Sim, todos queremos crescimento, empregos, riqueza. Mas o que viria na esteira deste crescimento? Porte de arma para a população no país que já é o campeão mundial em mortes por bala? “Ponto final em todos os ativismos no Brasil”, i.e., mais violência contra mulheres, negros, LGBTs? Destruição das florestas, extinção das reservas indígenas? Execuções sumárias pela polícia? Murundu na política externa só para lamber as botas do Trump?
Os mesmos jedis da racionalidade que “torcem pelo Brasil” costumam reduzir tudo à economia, como se o nosso grau de desenvolvimento pudesse ser medido em toneladas de soja e as pautas de “costumes” fossem perfumaria. Ora, “costume” não é dar um ou dois beijinhos. É uma questão de costume escravizar ou não escravizar seres humanos. Uma mulher morrer assassinada a cada duas horas é uma questão de costume. (Eis a tradição que se preserva com a cretinice do azul e do rosa). Desigualdade e injustiça: costume. O que separa a Noruega do Brasil não é a economia, o DNA, a providência divina: são os costumes.Sinceramente, não sei para o que torcer. Parece-me que a tragédia dell’arte que ora se desenrola diante de nossos olhos não tem como “dar certo”.”
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Um passinho pra trás, por favor, Brasil – a TFP reloaded
Ontem, depois de ler alguns comentários online e manchetes típicas da Gazeta do Povo e afins, fiquei lembrando da TFP – a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Fundada em 1960, é um movimento extremista dentro da Igreja Católica, todo trabalhado na cruzada moralista, no megafone e no brocado dourado sobre fundo vermelho. Sim, carregavam estandartes e escandiam as sílabas para denunciar a pornografia, a blasfêmia, o divórcio, o comunismo e a dissolução da família. Contra-o-co-mu-nissss-mo! Pe-las-fa-mí-lias! (tenho certeza de que também lutavam pela preservação das toalhinhas de crochê, do pêssego em calda e da compota de figo).
Os senhores da TFP (apenas senhores) desfilavam de terno e gravata, estolas vermelhas e se posicionavam em locais estratégicos para denunciar a dissolução dos costumes. Me lembro deles na Rua XV em Curitiba. E também do susto que levei quando brincava e avistei um destacamento desses vindo pela rua em que eu morava (aliás, nem um pouco movimentada). Faziam ações em portas de teatro, cinemas, escolas, praças públicas. O sectarismo era tamanho, que até a Rede Globo palpitou contra e recebeu ameaças. Num Fantástico de 1978, houve resposta da entidade, réplica, tréplica, tudo no melhor estilo do programa que perturbou o sono e a saúde mental de crianças por mais de uma década – a matéria foi apresentada por Cid Moreira, com direito àquele cenário mostrando um feto cercado por papel laminado rasgado, ao som de uma música sinistra; quem via, lembra (aqui). O horror, o horror.
Buenos Aires, anos 1970
A TFP espalhou-se por toda a América Latina, deu crias nos Estados Unidos, França, Hungria, Polônia, Espanha. No anos 90, o fundador Plínio de Correia Oliveira morreu. E a seita do católico fanático rachou, em dois tentáculos. Um deles, comandado por um monsenhor, recebeu a bênção papal de João Paulo II; dedica-se a distribuir medalhas, pedir donativos, investir na formação da juventude. O outro grupo move processos na justiça (há bens envolvidos, claro), queixa-se de traição, faz acusações, tudo embalado em ternos cinzentos e fotos defronte estantes de livros.
Não sei qual dessas alas tentou se modernizar (perfeita contradição de termos), mas uma delas pôs na rua uma versão light, com jovens impecáveis, do tipo estudantes de direito & direita, angariando assinaturas para projetos de lei, contribuições e xavecos. Em dias de muito sol, circulavam com um guarda-sol colorido, sorriso pregado na cara. Trocaram o megafone e os estandartes vermelhos por faixas amarelas no peito e medalhas de todo o tipo. Momento maldade, quando era aluna de história: nesses mesmos anos 90, na Rua XV, a gente parava e dava trela para os engomadinhos, pedindo que explicassem pontos de suas teorias capengas, até que eles cansassem. Só funcionou umas 2 ou 3 vezes, depois, eles já nos reconheciam e desviavam. Aaaaahhhhh....
Não sei qual dessas alas tentou se modernizar (perfeita contradição de termos), mas uma delas pôs na rua uma versão light, com jovens impecáveis, do tipo estudantes de direito & direita, angariando assinaturas para projetos de lei, contribuições e xavecos. Em dias de muito sol, circulavam com um guarda-sol colorido, sorriso pregado na cara. Trocaram o megafone e os estandartes vermelhos por faixas amarelas no peito e medalhas de todo o tipo. Momento maldade, quando era aluna de história: nesses mesmos anos 90, na Rua XV, a gente parava e dava trela para os engomadinhos, pedindo que explicassem pontos de suas teorias capengas, até que eles cansassem. Só funcionou umas 2 ou 3 vezes, depois, eles já nos reconheciam e desviavam. Aaaaahhhhh....
Modos-que algumas palavras de ordem berradas atualmente soam familiares demais nas orelhas de quem tem 40 para cima. Oportunistas com parcas e porcas ideias, como kataguiris, campagnolos, bolsokids, frotas e demais tiveram escola. Em algum momento, beberam desse toddynho até a última gota, garantindo uma perfeita deformação de caráter – hoje celebrada como novidade, pura, íntegra.
Um passinho pra trás, por favor... O que poderia dar errado, não é mesmo?
Na sede da entidade, interior de SP, em 1980
(sem som)
Labels:
Atolados na Transamazônica,
Beatice,
Bombril na antena,
Clio,
compota de figo,
Dei ouro para o bem do Brasil,
No meu tempo era tudo mato,
O horror o horror,
Ouvirundum
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Piadas de caserna
Em Santa Catarina, também temos comandante-em-chefe à frente do governo (“morra de inveja, resto do país”). Foram necessárias algumas chamadas à realidade em certos colunistas, que insistiam em chamar o governador de coronel ou comandante. Olhinhos brilhando.
Uma vez definido que o chefe do executivo estadual se chama Carlos Moisés e só, percebe-se que a nostalgia da caserna não se dissipou. Tem uma moçada trabalhada no quadriculado da Batalha Naval ou no tabuleiro de War, doida pra fazer avançar esquadrões.
E ponto final.
Eu gosto |SQN| da explicação que o autor da nota fornece sobre o modelo ser único atualmente no mundo, em termos de segurança pública. Talvez fosse o caso de se perguntar por quê, não é mesmo? Nem tudo o que é sem par nessa vida é bom, moço... Mas, como quase sempre, não teremos análises nem explicações vindas dos periódicos locais. Apenas divulgação do release oficial.
No mais, ficamos esperando que a busca por “referenciais históricos” para o estabelecimento de uma política de segurança não recue até a linha Maginot ou elefantes cruzando os Alpes a Serra do Mar e nem até a ponte sobre o Itororó...
Caxias, o duque
Escolhendo seus iguais
Excelente texto de Eliane Brum. Necessário para entender o que acontece na cabeça de muitas, muitas pessoas, neste instante, no Brasil.
“Desde 1 de janeiro de 2019, o Brasil tem como presidente um personagem que jamais havia ocupado o poder pelo voto. Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros. É necessário aceitar o desafio de entender o que ele faz ali. E com que segmentos da sociedade brasileira se aliou para desenhar um Governo que une forças distintas que vão disputar a hegemonia. Embora existam várias propostas e símbolos do passado na eleição do novo presidente, a configuração encarnada por Bolsonaro é inédita. Neste sentido, ele é uma novidade. Mesmo que seja uma difícil de engolir para a maioria dos brasileiros que não votou nele, escolhendo o candidato oposto ou votando branco, nulo ou simplesmente não comparecendo às urnas. Bolsonaro encarna também o primeiro presidente de extrema direita da democracia brasileira. O “coiso” está no poder. O que significa?
Quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez, na eleição de 2002, depois de três derrotas consecutivas, foi um marco histórico. Quem testemunhou o comício da vitória na Avenida Paulista, tendo votado ou não em Lula, compreendeu que naquele momento se riscava o chão do Brasil. Não haveria volta. Pela primeira vez um operário, um líder sindical, um homem que fez com a família a peregrinação clássica do sertão seco do Nordeste para a industrializada São Paulo de concreto, alcançava o poder. Alguém com o “DNA do Brasil”, como diria sua biógrafa, a historiadora Denise Paraná.
O Lula que conquistou o poder pelo voto era excepcional. “Homem do povo”, sem dúvida, mas excepcional. Um líder brilhante, que comandou as greves do ABC Paulista no final da ditadura militar (1964-1985) e se tornou a figura central do novo Partido dos Trabalhadores criado para disputar a democracia que retornava depois de 21 anos de ditadura. Independentemente da opinião que cada um possa ter dele hoje, é preciso aceitar os fatos: quantos homens com a trajetória de Lula se tornaram Lula?
Lula era o melhor entre os seus, o melhor entre aqueles que os brancos do Sul discriminavam com a pecha de “cabeça chata”. Se sua origem e percurso levavam uma enorme novidade ao poder central de um dos países mais desiguais do mundo, a ideia de que aquele que é considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a política e o conceito de democracia. Não se escolhe um qualquer para comandar o país, mas aquele ou aquela em que se enxergam qualidades que o tornam capaz de realizar a esperança da maioria. Neste sentido, não havia novidade. Quando parte das elites se sentiu pressionada a dividir o poder (para manter o poder), e depois da Carta ao Povo Brasileiro assinada por Lula garantindo a continuidade da política econômica, era o excepcional que chegava ao Planalto pelo voto.
O que a chegada de Lula ao poder fez pelo Brasil e como influenciou o imaginário e a mentalidade dos brasileiros é algo que merece todos os esforços de pesquisa e análise para que se alcance a justa dimensão. Mas grande parte já foi assimilada por quem viveu esses tempos. Os efeitos do que Lula representou apenas por chegar lá sequer são percebidos por muitos porque já foram incorporados. Já estão. Como disse uma vez o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014), em outro contexto: “Há coisas que não devemos perguntar o que farão por nós. Elas Já fizeram”.
Marina Silva, derrotada nas últimas três eleições consecutivas, em cada uma delas perdendo uma fatia maior de capital eleitoral, seria outra representante inédita de uma parcela da população que nunca ocupou a cadeira mais importante da República. Diferentemente de Lula, como já escrevi neste espaço, Marina encarna um outro amplo segmento de brasileiros, muito mais invisível, representado pelos povos da floresta. Carrega no corpo alquebrado por contaminações e também por doenças que já não deveriam existir no Brasil uma experiência de vida totalmente diversa de alguém como Lula e outros pobres urbanos. Mas este é o passado de Marina.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Palácio do Planalto pela primeira vez, na eleição de 2002, depois de três derrotas consecutivas, foi um marco histórico. Quem testemunhou o comício da vitória na Avenida Paulista, tendo votado ou não em Lula, compreendeu que naquele momento se riscava o chão do Brasil. Não haveria volta. Pela primeira vez um operário, um líder sindical, um homem que fez com a família a peregrinação clássica do sertão seco do Nordeste para a industrializada São Paulo de concreto, alcançava o poder. Alguém com o “DNA do Brasil”, como diria sua biógrafa, a historiadora Denise Paraná.
O Lula que conquistou o poder pelo voto era excepcional. “Homem do povo”, sem dúvida, mas excepcional. Um líder brilhante, que comandou as greves do ABC Paulista no final da ditadura militar (1964-1985) e se tornou a figura central do novo Partido dos Trabalhadores criado para disputar a democracia que retornava depois de 21 anos de ditadura. Independentemente da opinião que cada um possa ter dele hoje, é preciso aceitar os fatos: quantos homens com a trajetória de Lula se tornaram Lula?
Lula era o melhor entre os seus, o melhor entre aqueles que os brancos do Sul discriminavam com a pecha de “cabeça chata”. Se sua origem e percurso levavam uma enorme novidade ao poder central de um dos países mais desiguais do mundo, a ideia de que aquele que é considerado o melhor deve ser o escolhido para governar atravessa a política e o conceito de democracia. Não se escolhe um qualquer para comandar o país, mas aquele ou aquela em que se enxergam qualidades que o tornam capaz de realizar a esperança da maioria. Neste sentido, não havia novidade. Quando parte das elites se sentiu pressionada a dividir o poder (para manter o poder), e depois da Carta ao Povo Brasileiro assinada por Lula garantindo a continuidade da política econômica, era o excepcional que chegava ao Planalto pelo voto.
O que a chegada de Lula ao poder fez pelo Brasil e como influenciou o imaginário e a mentalidade dos brasileiros é algo que merece todos os esforços de pesquisa e análise para que se alcance a justa dimensão. Mas grande parte já foi assimilada por quem viveu esses tempos. Os efeitos do que Lula representou apenas por chegar lá sequer são percebidos por muitos porque já foram incorporados. Já estão. Como disse uma vez o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014), em outro contexto: “Há coisas que não devemos perguntar o que farão por nós. Elas Já fizeram”.
Marina Silva, derrotada nas últimas três eleições consecutivas, em cada uma delas perdendo uma fatia maior de capital eleitoral, seria outra representante inédita de uma parcela da população que nunca ocupou a cadeira mais importante da República. Diferentemente de Lula, como já escrevi neste espaço, Marina encarna um outro amplo segmento de brasileiros, muito mais invisível, representado pelos povos da floresta. Carrega no corpo alquebrado por contaminações e também por doenças que já não deveriam existir no Brasil uma experiência de vida totalmente diversa de alguém como Lula e outros pobres urbanos. Mas este é o passado de Marina.
A mulher negra, que se alfabetizou aos 16 anos e trabalhou como empregada doméstica depois de deixar o seringal na floresta amazônica, empreendeu uma busca pelo conhecimento acadêmico e hoje fala mais como uma intelectual da universidade do que como uma intelectual da floresta. Também deixou a Igreja Católica ligada à Teologia da Libertação para se converter numa evangélica genuína, daquelas que vivem a religião no cotidiano em vez de instrumentalizá-la nas eleições, como tantos pastores neopentecostais. Se Marina tivesse conseguido chegar ao poder, ela representaria toda essa complexa trajetória, mas também encarnaria uma excepcionalidade entre os seus. Quantas mulheres com o percurso de Marina se tornaram Marina?
Jair Bolsonaro, filho de um dentista prático do interior paulista, oriundo de uma família que poderia ser definida como de classe média baixa, não é representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma visão de mundo. Não há nada de excepcional nele. Cada um de nós conheceu vários Jair Bolsonaro na vida. Ou tem um Jair Bolsonaro na família.
Jair Bolsonaro, filho de um dentista prático do interior paulista, oriundo de uma família que poderia ser definida como de classe média baixa, não é representante apenas de um estrato social. Ele representa mais uma visão de mundo. Não há nada de excepcional nele. Cada um de nós conheceu vários Jair Bolsonaro na vida. Ou tem um Jair Bolsonaro na família.
Durante as várias fases republicanas do Brasil, a candidatura e os candidatos foram acertos das elites que disputavam o poder – ou resultado de uma disputa entre elas. O mais popular presidente do Brasil do século 20, Getúlio Vargas (1882-1954), que em parte de sua trajetória política foi também um ditador, era um estancieiro, filho da elite gaúcha. Ainda que tenha havido alguns presidentes apenas medianos durante a República, eram por regra homens oriundos de algum tipo de elite e alicerçados por ela.
Lula foi exceção. E Bolsonaro é exceção. Mas representam opostos. Não apenas por um ser de centro esquerda e outro de extrema direita. Mas porque Bolsonaro rompe com a ideia da excepcionalidade. Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar, quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.
Essa disposição dos eleitores foi bastante explorada pela bem sucedida campanha eleitoral de Bolsonaro, que apostou na vida “comum”, falseando o cotidiano prosaico, o improviso e a gambiarra nas comunicações do candidato com seus eleitores pelas redes sociais. Bolsonaro não deveria parecer melhor, mas igual. Não deveria parecer excepcional, mas “comum”.
A mesma estratégia foi mantida depois de eleito, como a mesa bagunçada de café da manhã com que recebeu John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente americano Donald Trump. Neste sentido, Bolsonaro jamais pode ser considerado o “Trump brasileiro”. Trump, além pertencer a uma parcela muito particular das elites americanas, tem uma trajetória de destaque. Bolsonaro não. Como militar, ele só se notabilizou por quebrar as regras ao dar uma entrevista para a revista Veja reclamando do valor dos soldos. Como parlamentar por quase três décadas, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei. Era mais conhecido como personagem burlesco e criador de caso.
Quando Tiririca foi eleito, por exemplo, sua grande votação foi interpretada como a prova de que era necessária uma reforma política urgente. Mas Tiririca foi um grande palhaço. Num mundo difícil para a profissão desde a decadência dos circos, Tiririca conseguiu encontrar um caminho na TV, fazer seu nome e ganhar a vida. Não é pouco.
Lula foi exceção. E Bolsonaro é exceção. Mas representam opostos. Não apenas por um ser de centro esquerda e outro de extrema direita. Mas porque Bolsonaro rompe com a ideia da excepcionalidade. Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar, quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido com seu tio ou primo. Ou consigo mesmos.
Essa disposição dos eleitores foi bastante explorada pela bem sucedida campanha eleitoral de Bolsonaro, que apostou na vida “comum”, falseando o cotidiano prosaico, o improviso e a gambiarra nas comunicações do candidato com seus eleitores pelas redes sociais. Bolsonaro não deveria parecer melhor, mas igual. Não deveria parecer excepcional, mas “comum”.
A mesma estratégia foi mantida depois de eleito, como a mesa bagunçada de café da manhã com que recebeu John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente americano Donald Trump. Neste sentido, Bolsonaro jamais pode ser considerado o “Trump brasileiro”. Trump, além pertencer a uma parcela muito particular das elites americanas, tem uma trajetória de destaque. Bolsonaro não. Como militar, ele só se notabilizou por quebrar as regras ao dar uma entrevista para a revista Veja reclamando do valor dos soldos. Como parlamentar por quase três décadas, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei. Era mais conhecido como personagem burlesco e criador de caso.
Quando Tiririca foi eleito, por exemplo, sua grande votação foi interpretada como a prova de que era necessária uma reforma política urgente. Mas Tiririca foi um grande palhaço. Num mundo difícil para a profissão desde a decadência dos circos, Tiririca conseguiu encontrar um caminho na TV, fazer seu nome e ganhar a vida. Não é pouco.
Bolsonaro não. O grande achado foi se eleger deputado e conseguir continuar se elegendo deputado. Em seguida, colocar todos os filhos no caminho dessa profissão altamente rentável e com muitos privilégios. A “família” Bolsonaro tornou-se um clã de políticos profissionais que, nesta eleição, conseguiu um número assombroso de votos. Mas não pela excepcionalidade de seus projetos e ideias.
O novo presidente do Brasil passou quase três décadas como um político daquilo que no Congresso brasileiro se chama “baixo clero”, grupo que faz volume mas não detém influência nem arquiteta as grandes decisões. A alcunha é uma alusão injusta ao clero religioso que faz o trabalho de formiguinha, o mais difícil e persistente, seguidamente perigoso, no mundo das igrejas. O próprio Bolsonaro já comentou que não tinha prestígio. Quando disputou a presidência da Câmara, em 2017, só obteve quatro votos dos mais de 500 possíveis. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou em um discurso no plenário, em 2011.
Os deputados do “baixo clero” do Congresso descobriram a sua força nos últimos anos e também como podem se locupletar unindo-se e fazendo número a favor dos interesses que lhes beneficiam. Ou simplesmente chantageando com o seu voto. Bolsonaro é dessa estirpe. Se ocupava um lugar no Congresso, era o de bufão. Até um ano atrás poucos acreditavam que poderia se eleger presidente. Parecia impossível que alguém que dizia as barbaridades que ele dizia poderia ser escolhido para o cargo máximo do país.
O novo presidente do Brasil passou quase três décadas como um político daquilo que no Congresso brasileiro se chama “baixo clero”, grupo que faz volume mas não detém influência nem arquiteta as grandes decisões. A alcunha é uma alusão injusta ao clero religioso que faz o trabalho de formiguinha, o mais difícil e persistente, seguidamente perigoso, no mundo das igrejas. O próprio Bolsonaro já comentou que não tinha prestígio. Quando disputou a presidência da Câmara, em 2017, só obteve quatro votos dos mais de 500 possíveis. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou em um discurso no plenário, em 2011.
Os deputados do “baixo clero” do Congresso descobriram a sua força nos últimos anos e também como podem se locupletar unindo-se e fazendo número a favor dos interesses que lhes beneficiam. Ou simplesmente chantageando com o seu voto. Bolsonaro é dessa estirpe. Se ocupava um lugar no Congresso, era o de bufão. Até um ano atrás poucos acreditavam que poderia se eleger presidente. Parecia impossível que alguém que dizia as barbaridades que ele dizia poderia ser escolhido para o cargo máximo do país.
O que se deixou de perceber é que quase todos tinham um tio ou um primo exatamente como Bolsonaro. Logo essa evidência ficou clara nos almoços de domingo ou nas datas festivas da família. Mas ainda assim parecia apenas uma continuação do que as redes sociais já tinham antecipado, ao revelar o que realmente pensavam pessoas que até então pareciam razoáveis. Deixou-se de enxergar, talvez por negação, o quanto esse contingente de pessoas era numeroso. Os preconceitos e os ressentimentos recalcados em nome da convivência eram agora liberados e fortalecidos pelo comportamento de grupo das bolhas da internet. As redes sociais permitiram “desrecalcar” os recalcados, fenômeno que tanto beneficiou Bolsonaro.
Os gritos das pessoas que ocuparam o gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foram a parte mais reveladora da posse de Bolsonaro, em 1o de Janeiro. Eufórica, a massa berrava: “WhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!”. Quem quiser compreender esse momento histórico terá que passar anos dedicado a analisar a profundidade contida no fato de eleitores berrarem o nome de um aplicativo e de uma rede social da internet, ambos de Mark Zuckerberg, na posse de um presidente que as elegeu como um canal direto com a população e deu a isso o nome de democracia.
Bolsonaro representa, sim – e muito – um tipo de brasileiro que se sentia acuado há bastante tempo. E particularmente nos últimos anos. E que estava dentro de cada família, quando não era a família inteira. Todas as famílias gostam de se pensar como diferentes – ou, pelo menos, melhores (ou piores, conforme o ponto de vista) que as outras. A experiência de um confronto político determinado pelos afetos – ódio, amor etc – nestas eleições deixou marcas profundas.
Os gritos das pessoas que ocuparam o gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foram a parte mais reveladora da posse de Bolsonaro, em 1o de Janeiro. Eufórica, a massa berrava: “WhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!”. Quem quiser compreender esse momento histórico terá que passar anos dedicado a analisar a profundidade contida no fato de eleitores berrarem o nome de um aplicativo e de uma rede social da internet, ambos de Mark Zuckerberg, na posse de um presidente que as elegeu como um canal direto com a população e deu a isso o nome de democracia.
Bolsonaro representa, sim – e muito – um tipo de brasileiro que se sentia acuado há bastante tempo. E particularmente nos últimos anos. E que estava dentro de cada família, quando não era a família inteira. Todas as famílias gostam de se pensar como diferentes – ou, pelo menos, melhores (ou piores, conforme o ponto de vista) que as outras. A experiência de um confronto político determinado pelos afetos – ódio, amor etc – nestas eleições deixou marcas profundas.
Não engendrasse tantas possibilidades destruidoras para o país, o fenômeno Bolsonaro seria bastante fascinante quando olhado como objeto de estudo. Sugiro algumas hipóteses para compreender como o mediano entre os medianos se tornou presidente do Brasil. As pesquisas de intenção de voto mostraram que Bolsonaro era o preferido especialmente entre os homens e especialmente entre os brancos e especialmente entre os que ganhavam mais. Isso não significa que não tenha tido uma votação significativa entre as mulheres, os negros e os que ganham menos. Se não tivesse, Bolsonaro não conseguiria se eleger. Mesmo no Nordeste, a única região do Brasil em que perdeu para Fernando Haddad (PT), no segundo turno das eleições, Bolsonaro recebeu uma votação significativa.
O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar onde precisa.
Vária irrupções perturbaram esse sentimento de caminhar em território conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma ênfase inédita que não seria mais possível fazer gracinhas nas ruas nem assediá-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A violência sexual foi exposta e reprimida. A violência doméstica, quase tão comum quanto o feijão com arroz (“um tapinha não dói”) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma “mulher era mal comida” se tornou comentário inaceitável de um neandertal.
Na mesma direção, os LGBTI se fizeram mais visíveis na exigência dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras públicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. E a posição de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.
Tanto que, como reação, surgiram proposições como criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” ou o “Dia do Homem” e até o “Dia do Branco”. Não faz sentido criar datas para quem tem todos os privilégios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privilégios em particular parece balançar o mundo de quem sempre teve a coleção completa de vantagens como direito inalienável.
O novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar onde precisa.
Vária irrupções perturbaram esse sentimento de caminhar em território conhecido, em especial para o homem branco e heterossexual. As mulheres disseram a eles com uma ênfase inédita que não seria mais possível fazer gracinhas nas ruas nem assediá-las nos trabalho ou em qualquer lugar. A violência sexual foi exposta e reprimida. A violência doméstica, quase tão comum quanto o feijão com arroz (“um tapinha não dói”) foi confrontada pela Lei Maria da Penha. Afirmar que uma “mulher era mal comida” se tornou comentário inaceitável de um neandertal.
Na mesma direção, os LGBTI se fizeram mais visíveis na exigência dos seus direitos, entre eles o de existir, e passaram a denunciar a homofobia e a transfobia. Figuras públicas como Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. E a posição de homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.
Tanto que, como reação, surgiram proposições como criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” ou o “Dia do Homem” e até o “Dia do Branco”. Não faz sentido criar datas para quem tem todos os privilégios, mas as propostas apontam como mesmo a perda destes privilégios em particular parece balançar o mundo de quem sempre teve a coleção completa de vantagens como direito inalienável.
O que a maioria dos homens entendia como direito – falar o que bem entendesse, especialmente para uma mulher – já não era possível. “Não dá para falar mais nada” se tornou uma frase clássica na boca destes homens. As já tradicionais piadas de “viado”, um tema clássico de fortalecimento da identidade de macho, tornaram-se inaceitáveis. O “politicamente correto”, que Bolsonaro e seus seguidores tanto atacaram nesta eleição, foi interpretado como agressão direta a privilégios que eram considerados direitos.
Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a única prova de “superioridade” enquanto enfrenta o massacre diário de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a população aglomerada na Praça dos Três Poderes, nesta terça-feira, o presidente recém-empossado colocou o combate ao “politicamente correto” como uma das prioridades do seu governo. Não a assombrosa desigualdade social, que até mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de “libertar” a nação do jugo do “politicamente correto”.
Logo no início do discurso, Bolsonaro afirmou: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
É esse brasileiro “acorrentado” que votou para retomar seus privilégios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira política e também na campanha eleitoral. Para muitos, o privilégio de voltar a ter assunto na mesa de bar – ou o de não ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almoço de domingo.
Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privilégios de raça, tão enraizados quanto os privilégios de classe e de gênero no Brasil, possivelmente mais.
Os negros passaram a não aceitar passivamente ser maioria nas piores estatísticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. É desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persistência por Bolsonaro e seus seguidores: a de que “o PT inventou os conflitos raciais”. É claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mortífero na sociedade brasileira, não haveria conflito. Mas esse tempo acabou e até mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades públicas, começaram a ser ocupados pelos negros.
Para as famílias, especialmente as brancas, outra mudança atingiu profundamente um privilégio arraigado que está na formação do Brasil, e que foi pouco alterado pela abolição da escravidão negra. No início da segunda década do século, a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas” deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham há décadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).
Para um homem pobre, seja ele branco ou negro, tripudiar sobre gays e/ou mulheres na vida cotidiana pode ser a única prova de “superioridade” enquanto enfrenta o massacre diário de uma jornada extenuante e mal paga. Bolsonaro compreendeu isso muito bem. Em seu discurso para a população aglomerada na Praça dos Três Poderes, nesta terça-feira, o presidente recém-empossado colocou o combate ao “politicamente correto” como uma das prioridades do seu governo. Não a assombrosa desigualdade social, que até mesmo presidentes conservadores achavam de bom tom citar, mas a necessidade de “libertar” a nação do jugo do “politicamente correto”.
Logo no início do discurso, Bolsonaro afirmou: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.
É esse brasileiro “acorrentado” que votou para retomar seus privilégios, incluindo o de ofender as minorias, como seu representante fez durante toda a carreira política e também na campanha eleitoral. Para muitos, o privilégio de voltar a ter assunto na mesa de bar – ou o de não ser reprimido pela sobrinha empoderada e feminista no almoço de domingo.
Somado a isso, as cotas raciais nas universidades, assim como o Estatuto da Igualdade Racial, conquistas dos movimentos negros reconhecidas pelos governos do PT, atingiram fundo os privilégios de raça, tão enraizados quanto os privilégios de classe e de gênero no Brasil, possivelmente mais.
Os negros passaram a não aceitar passivamente ser maioria nas piores estatísticas, ter menos tudo, assim como morrer mais e mais cedo. É desse confronto que vem a frase sem qualquer lastro na realidade, mas repetida com persistência por Bolsonaro e seus seguidores: a de que “o PT inventou os conflitos raciais”. É claro que, enquanto os negros seguissem aceitando o seu lugar subalterno e mortífero na sociedade brasileira, não haveria conflito. Mas esse tempo acabou e até mesmo lugares que pareciam reservados apenas aos filhos dos brancos, como as carreiras mais disputadas das universidades públicas, começaram a ser ocupados pelos negros.
Para as famílias, especialmente as brancas, outra mudança atingiu profundamente um privilégio arraigado que está na formação do Brasil, e que foi pouco alterado pela abolição da escravidão negra. No início da segunda década do século, a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas” deu a essa categoria formada majoritariamente por mulheres, a maioria delas negras, direitos trabalhistas que outras categorias tinham há décadas mas que sempre foram negados a elas, como o limite da jornada de trabalho e o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço).
Isso fez com que muitas famílias de classe média temessem não poder mais manter a sua escrava contemporânea fazendo todo o serviço dentro de casa e/ou cuidando dos filhos dos patrões por um tempo ilimitado de horas. Essa medida afetou profundamente as mulheres brancas de classe média, ainda hoje em grande parte responsáveis pela administração doméstica, apesar dos avanços feministas. As reclamações ocupavam todos os espaços. Os direitos das empregadas domésticas eram compreendidos como privilégios, quando na verdade era o privilégio dos brancas de ter uma mulher negra explorada e mal paga fazendo o serviço doméstico que estava em jogo.
Os direitos de gênero, classe e raça estão conectados. O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo. O ódio dos bolsonaristas se expressa não na ação, mas na reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Também por isso sentem ser legítimo lançar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam – e ainda acreditam – estar apenas se defendendo, o que na sua visão de mundo justificaria qualquer violência. Também por isso o outro é inimigo – e não opositor.
Os direitos de gênero, classe e raça estão conectados. O reconhecimento destes direitos e a ampliação do acesso dos negros a espaços até então reservados aos brancos teve grande impacto no resultado eleitoral e também no antipetismo. O ódio dos bolsonaristas se expressa não na ação, mas na reação: a de quem se defende do que acredita ser um ataque. Também por isso sentem ser legítimo lançar as piores e mais violentas palavras contra o outro. Acreditavam – e ainda acreditam – estar apenas se defendendo, o que na sua visão de mundo justificaria qualquer violência. Também por isso o outro é inimigo – e não opositor.
Mas qual é o ataque que acreditam estar sofrendo? A suspensão de privilégios que consideravam direitos, acirrada pelo desamparo que uma crise econômica e a ameaça de desemprego provocam. Era gente – principalmente homens, heterossexuais e brancos – que nos últimos anos via o chão desaparecer debaixo dos seus pés. Excluídos das elites intelectuais, pressionados a ser “politicamente corretos” porque outros saberiam mais do que eles, ridicularizados na sua macheza fora de época, assombrados por mulheres até mesmo dentro de casa, reagem. Como se sentem fracos, reagem com força desproporcional.
Esses brasileiros não querem um homem melhor do que eles na presidência. O que querem é um homem igual a eles no governo. Numa época em que até as metáforas se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve – literalmente – aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.
São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço. São brasileiros que pertencem a diferentes religiões, mas a votação mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evangélicos. As igrejas evangélicas neopentecostais têm multiplicado o número de fiéis e aumentado sua representação no Congresso nos últimos anos, encarnando uma das mais importantes mudanças culturais – e políticas – do Brasil.
Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.
Esses brasileiros não querem um homem melhor do que eles na presidência. O que querem é um homem igual a eles no governo. Numa época em que até as metáforas se literalizaram, Bolsonaro lhes devolve – literalmente – aquilo que sentem que lhes foi tirado. Ao assumir o poder, Bolsonaro mostra que a ordem do mundo volta ao “normal”. Com Bolsonaro, eles voltam também ao Governo de suas próprias vidas, sem serem questionados nem precisarem ser questionados sobre temas tão espinhosos como, por exemplo, a sexualidade e seu lugar na família e na sociedade.
São principalmente homens, mas também são mulheres que sentem que a opressão é um preço baixo a pagar para voltar a um território que, mesmo asfixiante, é conhecido e supostamente mais seguro num mundo movediço. São brasileiros que pertencem a diferentes religiões, mas a votação mais expressiva recebida por Bolsonaro foi entre os evangélicos. As igrejas evangélicas neopentecostais têm multiplicado o número de fiéis e aumentado sua representação no Congresso nos últimos anos, encarnando uma das mais importantes mudanças culturais – e políticas – do Brasil.
Como disse Bolsonaro em seu discurso às massas, logo após ser ungido com a faixa presidencial: “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.
Como se sentiam burros diante da intelectualidade acadêmica que sempre lhes torceu o nariz pontudo, os bolsonaristas adotaram seus próprios intelectuais. E também foram adotados por eles, como fez Olavo de Carvalho, que graças a isso se tornou um autor best-seller e passou a exercer seu autoproclamado “anarquismo” de forma bastante interessante.
Bolsonaro torna-se então aquele que “não tem medo de dizer o que pensa” ou “aquele que diz a verdade”. Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que começam a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que não aceitam mais um lugar subalterno podem então voltar a mentir sobre privilégios serem direitos – e afirmar que esta é “a verdade”. Bolsonaro prega “transformação”, mas só se elegeu porque sua proposta de “mudança” trabalha com a ilusão do retorno. Essa “nova direita” compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.
Na tentativa de volta ao passado que já não pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privilégios perdidos foram tachados de “ideologia”. Aqueles que ideologizam tudo, até mesmo a orientação sexual e a religião alheias, culpam a ideologia por tudo. Se não gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em “ideologia marxista”. Transformam “politicamente correto” num palavrão. Qualquer limite torna-se uma afronta à liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de “comunistas” ou “esquerdistas”, como se ambas as palavras significassem uma espécie de pecado capital.
Bolsonaro torna-se então aquele que “não tem medo de dizer o que pensa” ou “aquele que diz a verdade”. Bolsonaro se torna herói porque enfrenta o “politicamente correto” e liberta os sentimentos reprimidos de seus iguais. Eles, que começam a se sentir uns merdas diante de mulheres cada vez mais assertivas e de negros que não aceitam mais um lugar subalterno podem então voltar a mentir sobre privilégios serem direitos – e afirmar que esta é “a verdade”. Bolsonaro prega “transformação”, mas só se elegeu porque sua proposta de “mudança” trabalha com a ilusão do retorno. Essa “nova direita” compreende muito bem os anseios de uma parcela dos homens desesperados desse tempo.
Na tentativa de volta ao passado que já não pode ser, mesmo com Bolsonaro no poder, os privilégios perdidos foram tachados de “ideologia”. Aqueles que ideologizam tudo, até mesmo a orientação sexual e a religião alheias, culpam a ideologia por tudo. Se não gostam dos fatos, como o aquecimento global, convertem-nos em “ideologia marxista”. Transformam “politicamente correto” num palavrão. Qualquer limite torna-se uma afronta à liberdade, em especial a liberdade de ser violento. Chamam todos aqueles que apontam a necessidade de limites de “comunistas” ou “esquerdistas”, como se ambas as palavras significassem uma espécie de pecado capital.
Como sentiam-se oprimidos por conceitos que não compreendiam, os bolsonaristas descobriram que poderiam dar às palavras o significado que lhes conviesse porque o grupo os respaldaria. E, graças às redes sociais, o grupo os respalda. O significado das palavras é dado pelo número de “curtir” nas redes sociais. Esvaziadas de conteúdo, história e consenso, esvaziadas até mesmo das contradições e das disputas, as palavras se tornaram gritos, força bruta.
É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira “mito”. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem.
Mas é este brasileiro que chega ao poder com Bolsonaro? Em parte sim. Mas em parte não. Este é o enredo que assistiremos a partir de agora. Tornar-se adulto não é apenas uma condição biológica. É, no sentido mais amplo, reconhecer seus limites e responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Bolsonaro, claramente, é uma criança voluntariosa e mal educada que precisa da aprovação dos maiores.
Ao vislumbrarem que Bolsonaro poderia ganhar a eleição, diferentes grupos das elites se aproximaram e respaldaram sua candidatura. Cada um com seu projeto próprio. Há Paulo Guedes, o ultraliberal ambicioso e intoxicado pela própria importância que quer marcar a história, comandando o superministério da Economia. Há Sergio Moro, o juiz que mostrou que pode violar a lei caso ela perturbe seu projeto pessoal, porque acredita que seu projeto pessoal é público e acredita saber o que é melhor para a nação, como acreditam todos os que se creem superiores ou mesmo super-heróis.
Há os representantes do “agronegócio”, ramo que no Brasil se confunde com crimes como grilagem (roubo) de terras públicas e conflitos agrários causadores de dezenas de assassinatos a cada ano. Fiadores do governo de Michel Temer (MDB) e também da candidatura de Bolsonaro, os ruralistas não apenas estão no governo, mas “são” o governo.
Esse grupo vai abrir a Amazônia para a exploração – soja, gado e mineração, além de grandes obras. Isso significa, entre outras medidas, mudar ou “regulamentar” a Constituição para abrir as terras públicas de usufruto exclusivo dos indígenas ou as terras coletivas dos quilombolas para lucros de grupos privados. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro, logo após ser empossado na presidência, foi transferir a demarcação das terras indígenas e das terras dos quilombolas para o Ministério da Agricultura. Já no primeiro dia Bolsonaro entregou o futuro da floresta e do cerrado àqueles que os destroem.
No escalão mais subalterno, há um ministro do Meio Ambiente condenado por violar o meio ambiente, um ruralista escolhido pelos ruralistas. Há uma ministra da cota evangélica que vai cuidar de temas tão amplos como direitos humanos, mulheres e indígenas, a partir de uma leitura literal da Bíblia. Há um ministro de Cidadania que será responsável também pela área da cultura, mas já afirmou não entender nada da área.
Há ainda os ministros da cota afetiva de Bolsonaro, como o chanceler Ernesto Araújo, que assumiu para si a tarefa de construir a base intelectual da ideologia de Bolsonaro. Em artigo publicado numa revista americana, o diplomata que parece desprezar a diplomacia lançou uma espécie de nacionalismo religioso: “Deus através da nação”. E há o ministro da Educação que acredita que o golpe que levou o Brasil a 21 anos de ditadura deve ser comemorado. O apagamento da história, sacrificando os fatos em nome da ideologia, é uma das missões do governo Bolsonaro.
E há, finalmente, aquele que é talvez o grupo mais significativo, composto por sete militares ocupando postos chaves no governo. Nem sempre esses grupos concordam sobre o que é melhor para o Brasil. É provável que em alguns pontos possam discordar radicalmente. Como então o garoto Bolsonaro vai lidar com a disputa de gente grande?
Como o menino mimado vai se haver com a realidade, agora que a campanha acabou? Como vai ser quando a corrosão dos dias ameaçar a paixão das massas? E, no lado oposto, como os adultos da sala vão lidar com a criança cheia de vontades quando ela não puder ser manipulada – ou estiver sendo manipulada pelo grupo adversário – e ameaçar seu projeto de poder? Como se dará essa negociação? Quais são os riscos de ruptura?
Como todo medíocre, Jair Bolsonaro arrota ignorância como se fosse sabedoria. Mas, também como todo medíocre, no fundo, bem no fundo, ele suspeita que é medíocre. E busca desesperadamente a aprovação dos adultos.
No momento, Bolsonaro está encantado por ter um intelectual ligado à Escola de Chicago dizendo a ele o quanto é especial. Um herói da Operação Lava Jato lhe tecendo elogios. E, principalmente, generais batendo continência ao capitão. Mas a realidade é implacável com as ilusões.
Para acirrar a possibilidade de conflitos, há ainda a família de Bolsonaro, com seu trio de principezinhos, desta vez mimados pelo pai, que ainda chama marmanjos sem limites de “garotos”. Extasiados com o poder, eles já mostraram o quanto gostam do palco e quanta confusão podem aprontar. Como pai típico deste momento histórico, Bolsonaro protege seus meninos. Neste caso, da própria mediocridade. Os Bolsonaros Júnior parecem ter certeza de que são excepcionais e que a realidade vai se dobrar à sua vontade. Se não se dobra, sempre podem chamar “um cabo e um soldado” para fazer o serviço.
A experiência de Brasil que agora se inicia é fascinante. Mas só se vivêssemos em Marte e se a maior floresta tropical do planeta não estivesse ameaçada. Em algum momento, Jair Bolsonaro se olhará no espelho e verá apenas Fabrício Queiroz, o PM e ex-assessor do filho que não consegue explicar de onde vem o dinheiro que depositou na conta da primeira-dama. Em algum momento, Jair Bolsonaro poderá se olhar no espelho e verá apenas a imagem mais exata de si mesmo. Assombrado pela verdade que não poderá chamar de “fake news”, ele correrá para as ruas para ouvir os Queiroz gritarem: “Mito! Mito! Mito!”. Mas o grito pode ter sido engolido pela realidade dos dias. Saberemos então, em toda a sua magnitude, o que significa Bolsonaro no poder.”
É assim que um homem medíocre como Bolsonaro vira “mito”. Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito Homem.
Mas é este brasileiro que chega ao poder com Bolsonaro? Em parte sim. Mas em parte não. Este é o enredo que assistiremos a partir de agora. Tornar-se adulto não é apenas uma condição biológica. É, no sentido mais amplo, reconhecer seus limites e responsabilizar-se pelas próprias escolhas. Bolsonaro, claramente, é uma criança voluntariosa e mal educada que precisa da aprovação dos maiores.
Ao vislumbrarem que Bolsonaro poderia ganhar a eleição, diferentes grupos das elites se aproximaram e respaldaram sua candidatura. Cada um com seu projeto próprio. Há Paulo Guedes, o ultraliberal ambicioso e intoxicado pela própria importância que quer marcar a história, comandando o superministério da Economia. Há Sergio Moro, o juiz que mostrou que pode violar a lei caso ela perturbe seu projeto pessoal, porque acredita que seu projeto pessoal é público e acredita saber o que é melhor para a nação, como acreditam todos os que se creem superiores ou mesmo super-heróis.
Há os representantes do “agronegócio”, ramo que no Brasil se confunde com crimes como grilagem (roubo) de terras públicas e conflitos agrários causadores de dezenas de assassinatos a cada ano. Fiadores do governo de Michel Temer (MDB) e também da candidatura de Bolsonaro, os ruralistas não apenas estão no governo, mas “são” o governo.
Esse grupo vai abrir a Amazônia para a exploração – soja, gado e mineração, além de grandes obras. Isso significa, entre outras medidas, mudar ou “regulamentar” a Constituição para abrir as terras públicas de usufruto exclusivo dos indígenas ou as terras coletivas dos quilombolas para lucros de grupos privados. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro, logo após ser empossado na presidência, foi transferir a demarcação das terras indígenas e das terras dos quilombolas para o Ministério da Agricultura. Já no primeiro dia Bolsonaro entregou o futuro da floresta e do cerrado àqueles que os destroem.
No escalão mais subalterno, há um ministro do Meio Ambiente condenado por violar o meio ambiente, um ruralista escolhido pelos ruralistas. Há uma ministra da cota evangélica que vai cuidar de temas tão amplos como direitos humanos, mulheres e indígenas, a partir de uma leitura literal da Bíblia. Há um ministro de Cidadania que será responsável também pela área da cultura, mas já afirmou não entender nada da área.
Há ainda os ministros da cota afetiva de Bolsonaro, como o chanceler Ernesto Araújo, que assumiu para si a tarefa de construir a base intelectual da ideologia de Bolsonaro. Em artigo publicado numa revista americana, o diplomata que parece desprezar a diplomacia lançou uma espécie de nacionalismo religioso: “Deus através da nação”. E há o ministro da Educação que acredita que o golpe que levou o Brasil a 21 anos de ditadura deve ser comemorado. O apagamento da história, sacrificando os fatos em nome da ideologia, é uma das missões do governo Bolsonaro.
E há, finalmente, aquele que é talvez o grupo mais significativo, composto por sete militares ocupando postos chaves no governo. Nem sempre esses grupos concordam sobre o que é melhor para o Brasil. É provável que em alguns pontos possam discordar radicalmente. Como então o garoto Bolsonaro vai lidar com a disputa de gente grande?
Como o menino mimado vai se haver com a realidade, agora que a campanha acabou? Como vai ser quando a corrosão dos dias ameaçar a paixão das massas? E, no lado oposto, como os adultos da sala vão lidar com a criança cheia de vontades quando ela não puder ser manipulada – ou estiver sendo manipulada pelo grupo adversário – e ameaçar seu projeto de poder? Como se dará essa negociação? Quais são os riscos de ruptura?
Como todo medíocre, Jair Bolsonaro arrota ignorância como se fosse sabedoria. Mas, também como todo medíocre, no fundo, bem no fundo, ele suspeita que é medíocre. E busca desesperadamente a aprovação dos adultos.
No momento, Bolsonaro está encantado por ter um intelectual ligado à Escola de Chicago dizendo a ele o quanto é especial. Um herói da Operação Lava Jato lhe tecendo elogios. E, principalmente, generais batendo continência ao capitão. Mas a realidade é implacável com as ilusões.
Para acirrar a possibilidade de conflitos, há ainda a família de Bolsonaro, com seu trio de principezinhos, desta vez mimados pelo pai, que ainda chama marmanjos sem limites de “garotos”. Extasiados com o poder, eles já mostraram o quanto gostam do palco e quanta confusão podem aprontar. Como pai típico deste momento histórico, Bolsonaro protege seus meninos. Neste caso, da própria mediocridade. Os Bolsonaros Júnior parecem ter certeza de que são excepcionais e que a realidade vai se dobrar à sua vontade. Se não se dobra, sempre podem chamar “um cabo e um soldado” para fazer o serviço.
A experiência de Brasil que agora se inicia é fascinante. Mas só se vivêssemos em Marte e se a maior floresta tropical do planeta não estivesse ameaçada. Em algum momento, Jair Bolsonaro se olhará no espelho e verá apenas Fabrício Queiroz, o PM e ex-assessor do filho que não consegue explicar de onde vem o dinheiro que depositou na conta da primeira-dama. Em algum momento, Jair Bolsonaro poderá se olhar no espelho e verá apenas a imagem mais exata de si mesmo. Assombrado pela verdade que não poderá chamar de “fake news”, ele correrá para as ruas para ouvir os Queiroz gritarem: “Mito! Mito! Mito!”. Mas o grito pode ter sido engolido pela realidade dos dias. Saberemos então, em toda a sua magnitude, o que significa Bolsonaro no poder.”
Do El Pais.
Labels:
#EleNão,
Atolados na Transamazônica,
Brum,
Corrija seu Courrèges,
Direita-miojão,
Erário Eleitoral,
Glóriadeus,
Meia-na-cueca,
Ouvirundum,
Panelagem,
Piadas de caserna,
Revoltadões-on-line
sábado, 29 de dezembro de 2018
Sobre sorte, segurança & Strasbourg
Mercado de natal reaberto em Strasbourg, França, dia 14 de dezembro de 2018.
Três dias antes, bem ali, um sujeito matou 4 pessoas e feriu 13, a tiros. Até então, parecia que a cidade estava sitiada, pois o homem tinha fugido, exército e polícias faziam patrulhamento e revistavam pessoas. O mercado, ao pé da catedral, fechou. É a principal atração da cidade no natal, que enche de turistas de tudo o que é parte. Pessoas desistiram da viagem, com medo.
Como sempre, muitas especulações, explicações e reações. Um braço do “Estado” Islâmico reivindicou a ação do atirador francês; pessoas declararam ter ouvido allah akbar durante o crime – francamente, qualquer movimento maluco-fundamentalista, seja islâmico, cristão, bramanista, o que for, reivindica o que quer que possa ser midiático, né? Teve também quem atolou o pé na teoria da conspiração, para concluir que o ataque fora planejado para tirar a atenção do movimento dos “coletes amarelos” (les gilets jaunes)!!! Como o assassino conseguiu fugir, também imaginou-se que ele estivesse na Alemanha àquelas alturas.
Adesivos do Plan Vigipirate (militar, contra o terrorismo) alertavam sobre mais riscos de atentado. Por toda a cidade, check points, controle, abre casaco, abre mochila, desce da bicicleta. Se você tem uma cara confiável (branca), passa; sério, depois de um atentado, é assim que funciona.
Enfim, coisas que fazem você se perguntar para que serve todo o aparato, se o ataque já foi cometido? Além disso, um criminoso desse tipo vai conseguir furar qualquer vigilância. Age quando tudo parece tranquilo, quando a guarda está baixa. Não precisa mais desviar aviões, explodi-los contra prédios. Uma caminhada solitária na própria cidade também fornece vítimas. E repercussão midiática. E medo.
No fim das contas, depois do crime, o homem permaneceu em Strasbourg, por dois dias. Denunciado, andava pela rua, armado, quando a polícia chegou até ele e o abateu (termos da imprensa francesa). Estava ali, o tempo todo. Talvez atacasse novamente, não se sabe. O aparato de segurança conseguiria detê-lo? Vá saber.
Mesmo antes da notícia da morte do sujeito, a cidade decidira voltar a viver, até porque os prejuízos já tinham sido altos. Não só para as lojas fru-fru, mas para pequenos restaurantes, barraquinhas no mercado, todo mundo que vive do turismo, principalmente no final do ano. Um rapaz disse numa entrevista que detesta o final do ano e todos os turistas que enchem a cidade, mas que detestou mais ainda ver tudo vazio, silencioso e fechado. Nos lugares em que as pessoas foram atacadas, colocaram flores e acenderam velas.
Naquele dia, saímos do mercado quando frio pegou mais pesado. Vimos pela TV que o presidente acabava de chegar à cidade, para fazer uma homenagem às vítimas do atirador. O aparato era gigante. Sozinho, isolado por um cordão de militares e iluminado por muitos holofotes, Macron depositou uma flor na praça Kleber (aí em cima), um dos locais com velas e flores.
Um pouco antes de sair da cidade, vi uma matéria sobre uma das vítimas: era um turista indonésio, que viajava com a família. Eles iriam a Paris, mas com receio da violência das manifestações na capital, ele mudou o roteiro para Strasbourg...
Além do privilégio enorme que é poder viajar, eu e Consorte concluímos que, até agora, temos é sorte. Em 2009, uma semana antes do acidente com avião da Air France que caiu no Atlântico, tínhamos voado no mesmo aparelho. Agora em dezembro, chegamos na França no meio de manifestações com repressão feia, bem feia; viajamos para uma cidade se recuperando de um ataque, que acontecera 3 dias antes. Saímos do mercado de natal meia hora antes de Macron chegar. Quando você escolhe os dias para viajar, não tem ideia do que vem pela frente. E nem do que vai conseguir evitar. Como no dia a dia.
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Medíocres do além & seus celulares ativos
Escuto muito, neste momento, que é bobagem discutir com reacionários, que não vale a pena etc e tal. Concordo. Mas há momentos nos quais você tenta fugir, não consegue e é obrigada a explicar o óbvio, a lembrar do mundo concreto em volta e buscar um fiapo de inteligência para dialogar. E não naquela perspectiva super condescendente, do tipo “deixa que eu te explico, afinal sou doutora / homem / mais inteligente / mais qualificado /especialista / besta pra carai”.
Falo de situações que você recusa porque não crê que a Terra seja plana, que “ideologia de gênero” e kitiguêi existam. Falo de não aceitar explicações irreais e surreais sobre a “lei ruaney” (sic, ou melhor, sick), sobre as universidades federais como antro de doutrinação (qual?), sobre torturador de mulheres grávidas ser considerado herói nacional, sobre o aquecimento global ser opinião de esquerdista ou sobre o método-paulo-freire estar incrustado na escola pública preparando futuras guerrilhas.
São tacanhices atiradas na sua cara enquanto se exige respeito a elas. E não em guetos específicos que se evitam, mas no todo-dia, no trabalho, no busão, vindas do chefe, de colegas, da família. E agora, na rua, de pessoas-de-bem aleatórias, trabalhadas no combo celular filmando + mediocridade. Medo.
Falo de situações que você recusa porque não crê que a Terra seja plana, que “ideologia de gênero” e kitiguêi existam. Falo de não aceitar explicações irreais e surreais sobre a “lei ruaney” (sic, ou melhor, sick), sobre as universidades federais como antro de doutrinação (qual?), sobre torturador de mulheres grávidas ser considerado herói nacional, sobre o aquecimento global ser opinião de esquerdista ou sobre o método-paulo-freire estar incrustado na escola pública preparando futuras guerrilhas.
São tacanhices atiradas na sua cara enquanto se exige respeito a elas. E não em guetos específicos que se evitam, mas no todo-dia, no trabalho, no busão, vindas do chefe, de colegas, da família. E agora, na rua, de pessoas-de-bem aleatórias, trabalhadas no combo celular filmando + mediocridade. Medo.
😱
Bonus-track: esta pessoa-de-bem aí embaixo é exemplar. A dissociação total entre o que se passa no mundo concreto que ela registra e o que ela consegue enxergar é impressionante. Vê-se a criatura reagir à deformação criada por seu cérebro carente de sinapses (ainda tô na dúvida se não é humorista...)
💀
Labels:
Atolados na Transamazônica,
Cassandra reloaded,
d'Orgas,
Dei ouro para o bem do Brasil,
Desatenção crônica,
Direita-miojão,
Faixa de Gaza,
Glóriadeus,
O horror o horror,
Ouvirundum,
Panelagem
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Republicando
Proclamação da República. Até anos atrás, andava quase esquecida, comemoração protocolar. O refrão Liberdade, abre as asas sobre nós de seu hino só é lembrado por ter sido usado no samba enredo da Imperatriz Leopoldinense em 1989 (ou para quem tinha aula de canto orfeônico no Instituto de Educação, caso dessa que vos escreve).
Mas como retroceder pouco é bobagem, uma legião de zumbis, saída das aulas de educação-moral-e-cívica, tomou conta do “debate republicano” em duas frentes.
De um lado, a patriotada verde-amarela, na esteira da eleição do Bolsonaro. Um povo que já se empertiga só para pronunciar “juiz-Moro”, “a família é a célula-mater da sociedade” ou “gostaria de parabenizar” (patrioteiro bolsomico gosta de parabenizar). Para estes, a república verdadeira começará no dia da posse de seu presidente e é descrita de forma difusa, como paisagem bíblica liberta do comunismo, das feministas, dos viados e de qualquer política pública. Um território de merecimento, apoio divino e enriquecimento individual como resultado dos esforços próprios. O que poderia dar errado, não é mesmo?
E de outro, moçada trabalhada numa monarquia meio Sissi, a
imperatriz, imaginando para si títulos nobiliárquicos, condados de novela e o combo libré/escravaria a servi-los. Tem gente já encomendando a espineta (em 10 vezes no cartão) e considerando aulas de francês.
Em comum nos dois grupos, cochilos na aula de história, só pode. Ou ainda, professor de história reaça, “dizendo verdades” porque não tem “medo de ninguém” – existem às pencas, creiam-me, e não são considerados doutrinadores. Ora que irônico...
Seja como for, pra mim, nossa república é uma estátua equestre, cagada de pombo.
sábado, 10 de novembro de 2018
Imprensa catarinense: "neutra, despolitizada" (e reaça com gosto)
Verão chegando, férias... Pense onde você vai gastar o seu dinheiro, em que comércios, hoteis, restaurantes. O Nordeste tem locais lindos!
terça-feira, 6 de novembro de 2018
Ame-o ou deixe-o (o último que sair apaga a luz do aeroporto)
Nos anos 90, fazendo história na UFPR, analisamos slogans do período da ditadura em uma das disciplinas. A profe nos contava que respondiam ao Brasil: Ame-o ou Deixe-o com O último que sair apaga a luz do aeroporto. Para nós, estudantes, aquilo soava distante, 20 anos atrás. Na mesma época, durante o governo Collor, circularam uns adesivos Brasil: ame-o, e a moçada ria da falta de alternativas que os slogans colloridos apresentavam.
Parecia tudo tão distante.
Pois século XXI chegou e... estamos de volta a 1973! Ao menos para os gênios de marketing do SBT que, visando verbas federais, correram a desenterrar da lama algo que agradasse Biroliro e sua malta. Lascaram logo um Ame-o ou deixe-o, sem a menor vergonha na cara trabalhada em produtos Jequity.
Quando eu digo que vai rolar abaixo-assinado pela volta de Amaral Netto, o Repórter, moçada ri da minha cara. Taí. Não assisto à TV com frequência, e agora, menos ainda. Tenho medo que o Sujismundo esteja de volta...
🙉
...que me obriguem a cantar isso (como obrigaram as crianças, 40 anos atrás) ...🙊
... a fazer rodar esse maldito catavento, cantando já-podeis-da-pátria-oh-filhos...
... ou ainda, dar de cara com o general Geisel em pronunciamento oficiallllll. Socorro.
Sério, se é pra voltar aos anos 70, que seja assim
Labels:
#GolpeERetrocesso,
Ágora,
Atolados na Transamazônica,
Bombril na antena,
Citação,
Dei ouro para o bem do Brasil,
Eu te disse,
Gente Frouxa,
No meu tempo era tudo mato,
O horror o horror,
Tá bôua Santa?
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
A violência em marcha não vai perguntar de que família você é
Milhares vivem essa história aí embaixo há séculos, por causa da pele,
da classe social. Tipo de violência que parece não incomodar, 'não é
comigo'.. Mas ela sempre pode se expandir e atingir os que estão próximos.
Pois a violência uma vez em marcha não para pra perguntar de que família
você é, que igreja você frequenta, em quem você votou. A violência uma
vez em marcha transborda, afoga muitos e respinga em todos, pois o que
aparentar (somente aparentar) 'suspeito', 'desviante', 'divergente' será
atacado. A violência em marcha é paranoica, ignorante, bruta. Tudo pode
ser considerado ameaça. Nunca existe 'quem não deve não teme', pois
qualquer um passa a ser devedor. Pela cor da pele, gênero, orientação,
classe social, mas também porque algum mastodonte não gostou do seu
jeito de falar, andar; porque algum medíocre não gostou da suas
reflexões. Não estou dizendo isso por ser exagerada nem vitimista. Digo
isso como historiadora. Identificar contextos como o atual vai muito
além do 'acho que'. Não é só uma opinião.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
O maior delírio hoje no Brasil é o da “normalidade” (Eliane Brum)
““Distopia simulada”. Esta foi a expressão usada por Luis Felipe Salomão,
ministro do Superior Tribunal Eleitoral, para justificar a proibição do
programa de Fernando Haddad em que era mostrada a apologia de Jair Bolsonaro
à tortura e aos torturadores. O programa de Haddad, ao mostrar o que
Bolsonaro diz e faz, nas palavras do ministro, “pode criar, na opinião
pública, estados passionais com potencial para incitar comportamentos
violentos”. A questão, para o ministro, não é o que Bolsonaro diz e faz,
mas que as pessoas possam escutar o que ele diz e ver o que ele faz. E
se posicionar a partir do que ele efetivamente diz e faz. Ou seja, se
posicionar a partir da realidade dos fatos.
O problema do ministro é que o eleitor possa pensar algo lógico como:
“Não posso votar num homem que defende a tortura e tem como herói um
torturador que colocava fios desencapados na vagina das mulheres e
depois chamava seus filhos pequenos para ver a mãe nua, urinada e
vomitada”. Não, o ministro entendeu que precisava vetar a realidade
factual para que o eleitor, ao conhecer os fatos, não tenha a estranha
reação de pensar sobre eles.
O risco da violência, para o ministro, estaria naqueles que sentem medo,
não nos que provocam medo. Pensar que o Brasil quase certamente vai
eleger um homem que defende a tortura e tem como herói Carlos Alberto Brilhante Ustra poderia assustar a população. E o ministro acha que não há motivo para a população se assustar.
Vale a autoverdade do ministro,
o que ele escolheu que é real e o que ele escolheu que é “simulado”. A
verdade, assim como a realidade, tornou-se uma escolha pessoal.
Estamos ferrados. Não apenas porque um ministro do TSE diz que é
simulado aquilo que é real, mas porque este tem sido o comportamento de
uma grande parcela das instituições e também da imprensa. Simula-se no
Brasil que a distopia não é real. E se faz isso simulando que esta é uma
eleição “normal”, uma eleição entre dois projetos distintos, mas
igualmente legítimos.
Não é.
Esta é uma eleição em que um candidato, Fernando Haddad, por mais
ressalvas que se possa ter a ele e ao seu partido, tem um projeto
democrático, e o outro candidato, Jair Bolsonaro, nega a democracia.
É estranho disputar uma eleição e ao mesmo tempo negar a democracia? É
estranho. Esta é uma das contradições da democracia, e ela se expressou
diversas vezes ao longo da história e se expressa com muita força nos
dias atuais, com exemplos como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e Recep Tayyip Erdogan, na Turquia.
No Brasil, uma grande parcela daqueles que deveriam servir de
referência, tanto instituições como indivíduos, por várias razões não
têm se mostrado à altura do momento de extrema gravidade vivido pelo
Brasil. Outros preferem não se arriscar à fúria dos apoiadores de
Bolsonaro hoje, à perseguição do homem que terá toda a máquina do Estado
em suas mãos amanhã. Só o farão quando for impossível não fazê-lo, e
com o menor custo possível.
Isso significa que você, nós, estamos por nossa própria conta neste momento.
Por conta das alianças que conseguirmos fazer para resistir ao que virá
e seguir a luta pela democracia. Bolsonaro já disse, no último domingo,
que aqueles que não vivem segundo seus preceitos, “vão pra fora (do
Brasil) ou vão pra cadeia”. Exatamente o que aconteceu na ditadura civil-militar (1964-1985) que ele tanto exalta.
Bolsonaro chama gente como eu e você, que lutamos pelos direitos
humanos, pela igualdade e pelo meio ambiente, de “comunistas”. Como as
palavras se esvaziaram de sentido no Brasil, qualquer coisa, até o meu
abajur, pode ser chamada de “comunista”. O comunismo, que não tem mais
nenhuma relevância no mundo, só sobrevive na boca de gente como
Bolsonaro.
Mas, assim como o ministro pode dizer o que é real e o que é
simulado, Bolsonaro também pode dizer que eu e você somos “comunistas”.
Quem tem o poder e terá o aparato de repressão na mão poderá também
dizer o que somos eu e você. A verdade, num governo autoritário, passa a
ser a daquele que tem a arma na mão e o pau de arara no porão para
impô-la. E, então, como Bolsonaro já anunciou no último domingo: “Esses
marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. E acrescentou: “Será
uma limpeza nunca vista no Brasil”.
Esta é a candidatura que tem sido tratada como opção democrática —e a eleição que tem sido tratada como “normal”.
É a história se repetindo? É. E também não é.
Porque é a história se repetindo sem precisar botar os tanques na
rua, é a história se repetindo pelo voto da maioria dos eleitores
brasileiros. E, sim, é preciso dizer, pela omissão daqueles que votam
nulo, branco ou se abstêm de votar. Assim, é a história se repetindo de
um jeito muito pior.
Quero dizer claramente que, sim, é preciso ter muito medo. É
mentalmente saudável ter medo quando um homem como Bolsonaro quase
certamente terá o poder no Brasil. A única coisa que está sendo
simulada, neste momento, pela maior parte das instituições e da
imprensa, é a normalidade. Não há nada de normalidade democrática no que
estamos vivendo. Nada. Bolsonaro não é um democrata. Não é preciso que
eu ou outros tantos digam mais uma vez quem ele é. Ele mesmo diz. O
tempo todo. Basta que você escute.
Além do delírio coletivo da normalidade, também é enlouquecedora a
frase recorrente de alguns: “Ah, mas ele não vai fazer isso”. E o “isso”
são todas as atrocidades que ele vem proferindo há anos e também nesta
campanha. Todas as atrocidades que ele disse no último domingo.
Por que Bolsonaro não faria o que diz que fará e não seria o que é? Há
alguma razão lógica para isso? Há algum fragmento de sentido em duvidar
do que ele já avisou que fará, como essa “faxina” no país, tratando uma
parte da população como lixo que deverá ir para o exílio ou será presa?
Entre os tantos absurdos que Bolsonaro falou no último domingo, está o
seguinte: “O Brasil será respeitado lá fora. O Brasil não será mais
motivo de chacota junto ao mundo”. Bolsonaro delira porque sabe que pode
delirar à vontade. Ele sabe que pode criar sua própria verdade.
A imprensa internacional trata Bolsonaro como o horror que ele efetivamente é. O Brasil se tornou o espanto do mundo.
Em qualquer país onde se vá as pessoas perguntam como os brasileiros
são capazes de eleger um homem como Bolsonaro. Nos tornamos uma vergonha
planetária. E, se alguém acha que a crise econômica vai ser resolvida
por um homem com as credenciais de Bolsonaro, não está prestando atenção
nos sinais. Bolsonaro é um constrangimento de proporções continentais.
Não é de hoje que o Brasil parece viver em permanente delírio. Mas,
neste momento, o delírio alcançou uma dimensão sem precedentes. Pessoas
afirmando e escrevendo que não há risco de um governo autoritário?
Colunistas dizendo que as instituições no Brasil são fortes e que o
sistema de pesos e contrapesos vai funcionar? Em que país essas pessoas
vivem?
Não no meu ou no seu. Não no país em que Bolsonaro faz apologia à
tortura e aos torturadores, que diz que vai prender, expulsar e
“limpar”, e nenhuma instituição o impede. Não no país em que Marielle
Franco foi assassinada e onde nenhuma instituição tem força suficiente
para nomear os assassinos e mandantes e julgá-los. Não no país em que o
presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, já se submete aos
militares por vontade própria, ao fraudar a história dizendo que a
ditadura não foi ditadura, mas um “movimento”.
A vida do país não se passa em salas protegidas. Apenas a probabilidade de Bolsonaro se eleger já faz vítimas pelo Brasil.
Negros, mulheres, LGBTQ. As minorias, que Bolsonaro diz que tem que se
“se curvar às maiorias ou desaparecer”, têm sido ameaçadas nos espaços
públicos. “Você vai ver depois do dia 28” se vai poder andar assim, se
vestir assim, ser assim... é o tom das ameaças verbais, quando elas não
se tornam também físicas. Há muita gente, neste momento, sem saber como
colocar seu corpo nas ruas do Brasil depois de uma vitória de Bolsonaro.
Com medo. Saudavelmente com medo.
Na Amazônia,
onde tudo acontece primeiro, a violência recrudesceu. Carros dos fiscais
do IBAMA foram queimados, e a ponte da única estrada de acesso por onde
funcionários do ICMBio passariam, durante uma ação de combate ao
desmatamento, foi incendiada. A violência contra os órgãos
governamentais ecoa a declaração de Bolsonaro de que acabaria com “a
indústria de multas”. “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos
do Brasil. Vamos tirar o Estado do cangote de quem produz”, prometeu,
referindo-se aos órgãos que protegem o meio ambiente. Intimamente ligado
à bancada ruralista, Bolsonaro já deixou claro que quer abrir a
Amazônia, incluindo as áreas protegidas, para a soja, o boi e a
mineração. Ele tem ainda uma rixa particular com o Ibama, porque foi multado pescando em área proibida, dentro de uma unidade de conservação. E nunca pagou a multa aos cofres públicos.
Não existe risco de horror? O horror já se infiltrou nos ossos do
Brasil. Já estamos vivendo sob o horror, exatamente porque as
instituições são fracas, as autoridades incapazes e a parcela
supostamente mais esclarecida das elites têm preferido acreditar num
delírio de normalidade.
Não é que vai acontecer. Ou que pode acontecer. Já está acontecendo.
A reação da maioria dos candidatos derrotados no primeiro turno é
mais uma mostra da fragilidade da democracia brasileira. Ciro Gomes,
Marina Silva e Geraldo Alckmin envergonharam a si mesmos e traíram a
confiança de seus eleitores. Apoiar o único projeto democrático do
segundo turno deveria ser imperativo ético, não opção. Como políticos e
cidadãos, deveriam estar fazendo campanha desde o dia seguinte ao
primeiro turno, lado a lado. Mágoas, disputas, cálculos, tudo isso
deveria estar adiado diante do risco de Bolsonaro ser eleito no domingo.
Os principais políticos do país, que poderiam e deveriam mostrar
grandeza, se revelaram tragicamente aquém do momento histórico. Fernando Henrique Cardoso
despencou da própria biografia. O Brasil descobriu-se à beira do abismo
sem um único estadista. Não há nem mesmo um político de expressão capaz
de botar as necessidades do país acima das suas. Parecem todos adultos
infantilizados, fantasiando seu rancor e suas picuinhas com palavras
sofisticadas.
O Brasil está vivendo um dos mais graves momentos da sua história.
Jair Bolsonaro é tudo que sabemos que ele é e também um homem incapaz de
se controlar. Este homem que não se controla quase certamente estará no
comando do país. Jair Bolsonaro não consegue se controlar e fingir ser
um democrata nem mesmo na confortável posição de liderar as pesquisas. É
fácil imaginar o que fará com poder presidencial. O próximo presidente
poderá ser um descontrolado cheio de ódio num país já devastado por várias crises.
Jair Bolsonaro será o valentão da escola com um exército e todo o
aparato de repressão, em especial as PMs dos estados, cultuando-o como
um “mito”.
Há algo que o Brasil já perdeu. E que vai custar muito para
recuperar. Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro, descobrimos que vivemos num
país em que a maioria dos brasileiros acha possível votar num homem como
Bolsonaro. Sem nenhum drama de consciência, compactuam com todo o ódio
que ele produz, são cúmplices do desejo de exterminar aqueles que são
diferentes, apreciam as ameaças e os arrotos de poder, exaltam a
ignorância e a brutalidade.
É pelo que o Brasil já perdeu que a gravidade deste momento talvez
seja maior do que a que se desenhava no golpe de 1964 e, com o AI-5, em
1968. Desta vez, há um apoio explícito de uma parcela significativa dos
brasileiros ao projeto autoritário. Um apoio explícito pelo voto. Uma
parcela dos seguidores de Bolsonaro já decidiu agradar ao “mito”
perpetrando a violência nas ruas. Claramente estimulados e incitados
pelos seus discursos de ódio e de expulsão de uma parcela da população,
na qual estamos eu e talvez você, decidiram eles mesmos arrebentar e
oprimir. Assim, desta vez, a violência pode vir de qualquer lugar. Até
mesmo do vizinho.
Há algo que o Brasil já perdeu. Mas a eleição ainda não está totalmente perdida.
Quem acompanha meus artigos de opinião sabe o quanto sou crítica ao
governo do PT. Critico o PT desde antes de a maioria criticar o PT. Sem
deixar de reconhecer os acertos, critico o PT por várias razões e porque
cubro, como repórter, o processo da construção da hidrelétrica de Belo Monte,
no rio Xingu, um crime que manchará para sempre as biografias de Lula e
de Dilma Rousseff. E que seguirei documentando. Posso afirmar que fiz
algumas das mais duras críticas ao partido, a Lula e à Dilma Rousseff,
críticas que considero justas e baseadas em fatos checados e apurados.
Tudo o que escrevi nos últimos anos está na internet para quem quiser
ler.
Para mim não é fácil votar no PT. Para mim também não é fácil expor o
meu voto. É a primeira vez que eu o faço publicamente. E o faço porque
compreendo a gravidade deste momento histórico. Faço porque entendo que
este não é um voto para um candidato ou para um partido. Mas sim um voto
contra a opressão, um voto em defesa de tudo aquilo pelo qual lutei a
minha vida inteira, um voto em defesa de todos os princípios que fizeram
de mim uma jornalista.
Em momentos-limite como o que vivemos, cada um de nós precisa fazer
escolhas difíceis, escolhas em que sempre se perde muito. Nasci e cresci
na ditadura que Bolsonaro exalta e iniciei no jornalismo já com a
retomada da democracia. Sempre me perguntei se eu seria capaz de
sustentar os meus princípios, a despeito de todos os riscos, caso o país
pudesse, mais uma vez, ser oprimido por um regime de exceção. Fazia
isso como um exercício mental, mas nunca supus que chegaríamos a este
ponto novamente, e com ainda mais gravidade. Acredito que o fato de ter
conquistado uma voz durante 30 anos de jornalismo me confere uma
responsabilidade. E espero estar à altura desta responsabilidade.
Quem acompanha esta coluna de opinião sabe também que eu costumo
defender que votar em branco, anular o voto ou se abster é posição.
Acredito que o “voto útil” ou o “voto crítico” também nos trouxe até
este momento dramático. Sigo acreditando que anular o voto, votar em
branco ou não votar é posição política legítima quando se trata de dois
projetos dentro da democracia.
Mas tenho convicção de que, neste momento, quando o que está em jogo é
a própria democracia, porque o projeto de Jair Bolsonaro nega os
fundamentos democráticos, votar em branco, anular o voto ou não votar
está fora do campo das possibilidades. Votar em branco, anular o voto ou
deixar de votar não é posição neste momento, mas omissão. E omissão é
um tipo de ação. Neste momento, o pior tipo de ação possível.
Não tenho mais o que dizer a alguém que vota num homem que faz
apologia à tortura e aos torturadores, que incita o ódio e que quer
acabar com uma parte da população brasileira. Minhas palavras nunca
chegarão àqueles que acham possível ter um presidente como Jair
Bolsonaro. Mas talvez minhas palavras possam chegar àqueles que odeiam o
PT. E possam compreender, como eu mesma precisei compreender, que este
não é um voto no PT. E que este voto, mesmo não sendo no candidato e no
partido que desejaríamos, seja talvez o voto mais importante desde que
recuperamos o direito de votar. É um voto pelos princípios da
humanidade, é um voto pela vida dos mais frágeis, é um voto por seguir
existindo neste país.
Eu aprendo com as pessoas que escuto. E escolhi escutar como repórter
as pessoas mais frágeis. E também as pessoas mais frágeis que resistem.
Se para mim era extremamente difícil votar no PT, e não votei no PT no
primeiro turno, como seria para aqueles que tiveram a vida destruída
pela política do PT para a Amazônia?
Perguntei então a três ribeirinhos do Xingu que foram expulsos por
Belo Monte como votariam e como se sentiam a respeito do seu voto. Os
três tiveram suas ilhas ou terras afogadas, dois deles adoeceram
seriamente, um deles teve a casa queimada com tudo dentro, outro não
conseguiu nem mesmo impedir que os ossos do pai fossem submersos e para
sempre desaparecidos, todos perderam a vida que conheciam e amavam,
assim como a própria possibilidade de sobrevivência. De homens e
mulheres da floresta se tornaram pobres urbanos em uma das cidades mais
violentas do Brasil. Tornaram-se refugiados em seu próprio país,
destituídos de tudo, até mesmo da própria identidade.
Os três me disseram, sem hesitação, que votariam contra Bolsonaro.
Eles compreendem que algo maior que a sua própria vida está em jogo. Se
estas pessoas, que perderam tudo por uma obra de Lula e de Dilma, são
capazes de compreender o momento histórico vivido pelo Brasil e superar
todo o seu sofrimento e sua justa revolta para fazer o que é certo,
entendo que eu também posso. E acredito que você também.
É de um deles a frase que me inspira:
— Eu vou votar no PT para que resolvam a merda que fizeram!”
Labels:
#EleNão,
#GolpeERetrocesso,
#HaddadManu13 #Haddad13 #ManuNoJaburu #Caixa2doBolsonaro,
Brum,
Clica aê vai,
Desatenção crônica,
Faixa de Gaza,
fardão & pijama,
Gente Frouxa,
O horror o horror
Assinar:
Postagens (Atom)
-
Marco Zero Marília Lila Mountain bike, smart watch, ciclo computador, bolsa de quadro com o smartphone, ele cruza a cidade em di...
-
Existe saudade que movimenta o arredor, desafia o ar, manufatura encontros. E tem aquela, a do outro tipo, que carrega pro beco sem saída, n...




















