segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Não, não vai continuar “tudo igual”

Não, não vai continuar “tudo bem”.







 










 




 





 🙈

E aquele momento para as notas locais, afinal, é nóis liderando o atraso, com direito ao maior jornal do estado publicando (mais) lixo. Por exemplo, o “principal nome do jornalismo catarinense” (sic, risos) e suas chamadas idôneas e imparciais (sqn)
O

O “principal nome” também espalha fêiquinius, pois vale tudo em sua cruzada pela moral, ordem, bons costumes e a toalhinha de crochê sobre o televisor 


A contragosto, teve que desmentir (mesmo que dando trucão no título)



E de bônus, momentos do brilhantismo intelectual dos bozinhos – que não são 1 ou 2. Tem que precise esgrimir vários desses, ao vivo e em cores, por dia. É muito cansativo. 


 🌊☁🔥🌀
E agora, a previsão do tempo:

 

sábado, 20 de outubro de 2018

Diga com quem você anda...



Haddad / Manu 13

Não, você não é elite!






Este vídeo é a cara dos viventes endinheirados neste país, motorista-cozinheira-férias-em-miami, toscos e violentos. Talhados para votar no koiso. MASSSSS O PIOR é ouvir esses mesmos comentários dentro do busão, na farmácia do bairro, no condomínio classe média cheio de taxa de morador atrasada, na fila do supermercado em dia de promoção, na compra da brusinha 5x no cartão, na facul onde se negociam as mensalidades do filho, na nostalgia de antepassados europeus – a maior parte, diga-se de passagem, veio ao Brasil para não morrer de fome ou fugindo de guerras, perseguições, ou seja, refugiados...


#Haddad13Presidente
#ManuNoJaburu
#Caixa2doBolsonaro

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Trator se preservando nas discussões



#Haddad13
#EleNão
#EleNunca

Magistério desgovernado



Essa aí, olhando para baixo e tentando se equilibrar no salto sou eu, recebendo o diploma do curso Magistério, em 1986 (modelito obrigatório, não fui que escolhi, tá?). Dois anos depois, comecei a dar aulas na periferia de Curitiba. Trabalhei com educação de jovens e adultos. Trabalhei numa escola particular com métodos de ensino modernos e pedagogia progressista. Trabalhei num colégio de irmãs dominicanas, que têm a educação como prioridade. Ensinei em uma faculdade e duas universidades federais. Fui professora de francês e ensinei português a refugiados sírios. Como eu, amigas, amigos e colegas têm trajetórias parecidas. Mas infelizmente, temos que ouvir, há décadas, pessoas que nunca puseram o pé numa escola pública nos ‘ensinarem’ sobre o que é melhor para as escolas, sobre como educar crianças (principalmente as pobres). Nos chamam de ‘mestres’ no dia de hoje, postam flores e poemas, mas no restante, dão joinha para escolas militarizadas, escola sem partido, creem que realmente exista ‘ideologia de gênero’ ou ‘doutrinação comunista’ em sala de aula (queria que me mostrassem onde e quando). Aí, olho para o meu diplominha do Instituto de Educação do Paraná, e lembro de minhas professoras e meus professores, há mais de 30 anos, nos dizendo que não seria fácil, nunca. Porque a briga é contra o obscurantismo, e esse não cede facilmente. 

Mas nós também não. Porque que essa luta é que nem flor que vinga em asfalto.

#Haddad13
#EleNão

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Acordei, o que houve nos últimos séculos?


O momento não é bacana. Nem um pouco. Pois uma coisa é um contexto político partidário corrompido e falido, num país reacionário e injusto, mas que conserva regras democráticas na medida do possível. Outra coisa é  um contexto político partidário corrompido e falido, num país reacionário, injusto e ditatorial, eleito. Por mais contraditório que pareça, tem quem panflete pelo fim de uma liberdade possível.

Tudo isso deprime, pois a violência dessas ideias corta a carne, quebra os ossos e os dentes. Vem junto com a cuspida no rosto, o soco no estômago, as doze facadas, a garrafada na cabeça, o tiro. Mas não se trata de novidade despontando indagorinha, né? A diferença é que agora ela vem chancelada, vem com grife identificando a “qualidade do produto” e garantindo a “traçabilidade”.

E parece que tem gente acordando só agora para a arbitrariedade, a violência abençoada por juízes e pastores de almas, a má distribuição da riqueza, o racismo e o machismo estruturais. Parece que só agora isso toma forma porque está próximo, porque ameaça pessoalmente. 

Mas antes seria o que, pessoa acordando agora? Questões teóricas? Retóricas? Suficientemente distantes para não tirarem o sono?

Sério, se essas eleições serviram para tirar fascistas do armário, incluindo os domésticos, também serviram para tornar visíveis os bundinhas-no-sofá que, já em idade adulta, parecem reagir ao mundo como se o achocolatado matinal tivesse terminado. Coisa injusta e violenta, né? Oras...

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Independendo

Ligando a TV logo cedo (bem feito pra mim).  Fazia tempo, nem sabia que o noticiário matinal agora é coreografado. A apresentadora da NSC parece estar numa rave, após ter engolido alguma bagaça sintética. À cada palavra corresponde um gesto, incluindo artigos e preposições. Falando sobre um acidente de trânsito, ela se revolta, pois o “cidadão do bem” corre riscos.

Num tal Café com Jornal, apresentadores noticiam a morte de Burt Reynolds. Histórico de filmes, biografia rápida, imagens do ator. Apresentador diz que gosta do Burt. “Qué dizê, gostava, né?”. E revela: “Adoro os filmes que ele não fez”. Oi!? Também lembram do incêndio no Museu Nacional, âncora local e repórter em NY. O âncora emenda, ainda com as imagens das chamas na tela: “Mas você que taí em NY vai ver o jogo da seleção brasileira hoje?”.

Apresentadora das previsões meteorológicas informa que haverá um “sol decorativo” no feriado.
Pastor apresenta A família quadrangular, Alexandre Garcia lembra que Bolsonaro foi esfaqueado um dia antes do dia da pátria. Usurpador Temer afirma que vivemos em uma democracia na qual prevalece o estado de direito. Preguiça de gargalhar. Luís Carlos Prates, tiozão do pavê na mídia local, lembra que temos mais de 8 milhões de metros quadrados, sem tragédias e com um povo bosta. Ao final do discurso, ele bate continência... Parece que estou ouvindo um professor da facul que me aulas nos últimos anos. Ele tem certeza da sua sofisticação intelectual  – não acreditar que o homem pisou na Lua ou que o nazismo fosse algo totalmente ruim são apenas detalhes de seu pensamento, digamos, complexo.

E se na Globo o Agro é pop, na Band, Somos todos agro.

Compre um carro, abra conta no Banco do Brasil, use desodorante que clareia as axilas e aproveite o feriado para fazer compras no Paraguai.

Ana Maria Braga cita Nietzsche.

Parabéns, você voltou 40 anos no tempo, não tem o direito de jogar de novo nem de rasgar o livro de educação-moral-e-cívica. Faça um cata-vento verde-amarelo, enfie no seu patriotismo mais raivoso e relembre, nostálgico, do Tarcisão libertando o Brasil das cortes portuguesas.

sábado, 11 de agosto de 2018

Momentos épicos da imprensa nacional


E não é qualquer blablablá sem sentido de gazeta de arraial, tá? Há pesquisas, porcentagens, âncora dividindo tela com correspondente especialmente enviada. Tem até a indicação do site para eventuais elogios. Prêmio Esso, na certa!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Panelagem ungida

 
Deus então disse, “Vai, Michel, e fala com o povo eleit...”. Nááá, mentira, pois se deus existisse dava é na cara de Temer. Mas o fato é que aquele-que-usurpa-a-cadeira-da-presidência participou hoje de um evento na igreja pentecostal Assembleia de Deus. Lá, pastor disse que, acima de Temer, só deus e a nação. Os presentes, incluindo deputados e senadores da bancada evangélica, aplaudiram. Muito, segundo O Globo.



Ele pediu que os pastores levassem sua mensagem a “todos os rincões”, num verdadeiro palanque-fala-que-eu-te-escuto-eleitoral.


A coisa anda tão absurda, que não sei nem por onde começar... Só sei que, com um “povo de bem” desses, é mais jogo ir dar abraço no capeta...





domingo, 27 de maio de 2018

Brasil em pane é o retrato do governo Temer (L. Sakamoto)



“Cada vez que o governo federal vem a público para dizer que a greve é uma orquestração de donos de transportadora, como fez Carlos Marun, ministro-chefe da Secretaria de Governo, mais os caminhoneiros autônomos ficam com raiva de Michel Temer. E o governo parece que gosta de dizer isso, num ato contínuo de sadomasoquismo político. 

A incapacidade desse governo em entender a complexidade da situação ajudou a criar algo que possa já estar além do seu controle. Como venho dizendo neste blog, há uma insatisfação legítima de um grupo profissional que viu não apenas sua renda ser corroída pelos constantes aumentos no preços dos combustíveis, mas também a vida transformada em caos devido à imprevisibilidade de quando ocorrem os repasses. Claro que empresas de frete parasitam o movimento em nome de seus interesses e devem ser punidas. Mas esse não é, nem de perto, o cerne da questão. E a partir do momento em que uma grande parte da categoria não se vê representada pelo acordo firmado com o Palácio do Planalto e segue parada, a ficha do governo deveria ter caído. Nessa hora, contudo, o presidente chama a "mãe" - o Exército - para adotar a força no lugar do diálogo, deturpando a função constitucional dessa instituição. 

Temer e seu grupo político do MDB chegaram ao poder com a benção de grandes empresas e do mercado, de um lado, e da velha política, de outro. Ao primeiro grupo, prometeu tirar o país da crise sem jogar a conta da conta dos mais ricos e aplicar reformas liberalizantes que reduziriam o tamanho do crescente Estado de bem-estar social em prol do PIB. Ao segundo, prometeu sobrevivência diante da Lava Jato e um governo-amigo que mudaria proteções sociais e ambientais para facilitar a vida de seus representados, fazendo com que voltássemos 20 anos em dois. 

A reação do governo Temer diante da greve dos caminhoneiros deve ser entendida no contexto da política que ele adotou em seu governo: pró-mercado, fiscalista e de restrição da proteção social. Analistas não entendem por que a população não acredita que o país melhorou, uma vez que os indicadores econômicos provariam isso. O povo, contudo, não "come" indicadores econômicos e o desemprego segue forte. O governo agravou a instabilidade social e, dois anos após seu início, o Brasil parou pela falta de combustível na bomba. A verdade é que a agenda do mercado, abraçada por Temer, é tosca e sem sutiliza para lidar com a política. Talvez por isso parte dele morra de amores por um candidato à Presidência tosco e sem sutileza. 

Não importa o que aconteça daqui em diante, fica uma lição: chamar algo por outro nome não muda a sua natureza. Shakespeare já dizia isso há 500 anos, mas parece que nossa elite política e econômica passou todo esse tempo lendo outra coisa.”

👉 NA ÍNTEGRA

terça-feira, 22 de maio de 2018

O fêici em maio de 1964

Campeando pelas quebradas virtuais, topei com um jornal que existiu na minha terra, chamado Correio do Paraná. O exemplar em questão, que circulou em Curitiba no dia 9 de maio de 1964, custava 20 cruzeiros (“na capital”).




Na primeira página, um editorialzinho reforçava a importância de “caminhos livres à democracia e à ordem cristã”, pedindo uma colaboração do leitor para salvaguardar a democracia e anular “a ação nefasta dos comunistas”. Porque era só o que faltava, né? Comunistas prejudicando nosso Brasil varonil, de céu azul-anil. Parece que não respeitavam nada, esses lacaios de Moscou... Humpf!


Pra não deixar dúvidas, outro editorialzinho, mais para o meio da publicação, lembrava que caiu o “govêrno insensato e desleal que levava o Brasil para os caminhos da anarquia”. Não bastava serem comunistas, queriam anarquizar a quizumba ainda por cima. Se bobear, até a compota de figo seria banida!

😱


O senador João Calmon visitava Curitiba no período. E o Correio do Paraná estampou na capa a frase do governista, explicando que a revolução fora feita o golpe fora dado pensando-se nos trabalhadores. Aaaaah, bons tempos em que as “classes privilegiadas” chupavam o dedo, né?


🙈🙉🙊

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria passava por uma “limpeza”, pois, vocês não vão acreditar, mas tinha comunista lá saindo pelo ladrão! Até dinheiro pra Moscou parece que já tavam mandando! 


😈

O Correio do Paraná também noticiou que o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal carioca A Última Hora, deixava o país rumo ao Chile. Também, né? Nascido na Bessarábia, vocês queria o quê? 

😬

E a “limpeza” continuava, pois onde menos se esperava, lá estavam os vermelhos. Até no Banco do Brasil!!!

💰👀
 
Na coluna Resenha Política, ficamos sabendo que dava pra doar ouro pra recuperar a economia do país. Você doava sua aliança, por exemplo, e ganhava um anel de metal com a inscrição Dei ouro para o bem do Brasil. Sério. Tava achando que era só uma # do Trator, né? Nã-nã. Moçada fez fila pra doar ouro aos milicos. Se autodenominavam “Legionários da Democracia”, marchavam com deus, a família e as toalhinhas de crochê em cima do rádio.

😵


Mas como nem só de notícias vivia um periódico impresso, os classificados davam conta das casas e terrenos à venda. Um Simca 1962 tava valendo na negociação.
🚗
E falando de carros estrangeiros, circulavam pelas ruas da capital paranaense (e das cidades brasileiras em geral) uma pá de marcas das décadas anteriores, de Citroën a Oldsmobile, passando por Skoda e Jaguar. Depois da “Gloriosa”, acabou essa festa.
⛽

Carro usado era (é) comércio garantido. E a publicidade usava frases de efeito pra reforçar a ideia.
 Tudo bem que hoje se anuncia “queima de estoque”, mas “grande queima de carros” me faz pensar em piromaníacos, não adianta...
🔥 🔥 🔥 
 Tirando carros, o hábito de comprar usados podia causar vergonha, pois denunciava a pindaíba. Se hoje comprar em brechó é tendance, nos anos 60, os comerciantes garantiam “discrição absoluta” aos seus clientes. Como esses, na Rua Riachuelo (na ativa ainda hoje).
 😎

Reclamações quanto a buracos nas ruas, falta de calçamento, ônibus e afins eram publicadas na coluna Curitiba Grita e depois comentadas no rádio.

📻

Falando em comunicação de massa, o Cine Ópera exibia O mundo dos vampiros, filme mexicano de 4 anos antes. Não importa, era tão “forte”, que não se recomendava a pessoas “sensíveis e nervosas”. Já no domingo, tinha o Festival Tom e Jerry – “sòmente desenhos do Rato e do Gato”, avisavam (certeza que tinha bocaberta perguntando sobre a Branca de Neve...).
😳

 E, claro, o horóscopo alertava o vivente sobre seu porvir (tratando objetos e a bicharada pelos nomes: caranguejo, carneiro, balança...). Dá pra usar o mesmo ainda hoje, vai aí, moçada!
💩

👉Por fim, só lembrando que “antes não era melhor”. 


terça-feira, 15 de maio de 2018

Revisão de texto – pontuação e informações equivocadas



Nada mais reacionário que um liberal brasileiro - 2



   👉Revista Cult

“Uma das mais importantes inovações do pensamento moderno é a noção de história linear. Rompendo com a lógica presente na concepção de tempo greco-romana e mesmo medieval, o Iluminismo insiste que a história seria guiada por um devir se desenrolando como uma flecha ao longo do tempo.

Abrimos mão de uma visão mais intuitiva de circularidade, tal como presente na natureza, e passamos a aceitar a ideia de um aprimoramento linear e inelutável. Interessantemente, de forma irônica e talvez mesmo trágica, os desdobramentos recentes em nosso país parecem nos remeter mais à lógica histórica clássica do que à moderna, já que parecemos estar presos a uma circularidade que tende dolorosamente a se repetir a cada 50 anos, mais ou menos, pelo menos no que se refere à nossa experiência política.

De modo concreto, é quase impossível não vermos fortes reverberações dos acontecimentos de 1964 nos eventos envolvidos na atual crise em que vivemos, cujo início se coloca por volta de 2014. Foi então que, logo após do segundo turno da eleição presidencial, o candidato oposicionista Aécio Neves se recusou a aceitar sua derrota no pleito, apesar de ter concordado em participar do mesmo processo, em um gesto claramente golpista que lembra as palavras, também golpistas, de Carlos Lacerda, ao se referir a Vargas, dizendo que o último “não pode ser candidato. Se o for, não pode ser eleito. Se eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar.”

Embora dita anos antes do golpe de 1964, a frase expressa nitidamente a lógica que passaria a guiar os auto-denominados liberais brasileiros, que por fim viriam a apoiar uma intervenção militar no país. Da mesma forma que seus antecessores nominalmente liberais, a partir da sua recusa em aceitar os resultados do processo de democrático, Aécio e seus aliados, que passam a boicotar o governo no Congresso, começariam a conclamar seus eleitores, fortemente representados nas classes médias urbanas, para que fossem às ruas demandar a renúncia da presidente democraticamente eleita, ou forçar, de alguma forma, casuística que fosse, sua remoção do posto, por meio de um processo de impeachment.

Os capítulos dessa história são bem conhecidos por todos não sendo, portanto, necessário detalha-los aqui. Caberia somente enfatizar seu aspecto central, qual seja, a recusa em aceitar a vontade majoritária do país, expressa por meio do voto popular. Assim, novamente reverberando atitudes semelhantes quando do primeiro e importantíssimo processo de aprofundamento da democracia formal em nosso país (entre 1945-1964), nossos liberais (de fato, conservadores e elitistas) somente aceitam a expressão democrática da população quando lhes convêm.

Tanto Lacerda como Aécio se recusaram a aceitar que o governo de então, seja esse o de Vargas ou de Goulart, no início dos anos 60, ou de Dilma, mais recentemente, pudesse estar em sintonia com os desejos da maioria da população. Lembremos que, embora seu governo estivesse imerso em uma das principais crises econômicas e paralisias políticas da história do país, Goulart continuava sendo um presidente extremamente popular, tendo obtido três vezes mais votos no plebiscito de retorno ao presidencialismo de janeiro de 1963, do que a quantidade de votos que o haviam elegido vice-presidente em 1960. Da mesma forma, seu partido, o PTB, quase dobrara sua delegação na Câmara Federal nas eleições congressuais de 1962, expressando, portanto, a concordância com a sua agenda de reformas por parte crescente de segmentos da população.

O medo e recusa em aceitar as regras democráticas é, pois, tradição recorrente dos liberais tupiniquins, ainda que os meios pelos quais isso se manifesta variem, incluindo desde operações de natureza militar até a promoção de desinformações, boatos e histeria por seus membros na mídia corporativa. Isso ocorreu tanto no início dos anos 60, como demonstrado novamente pela ação de Lacerda; no final dos anos 80, quando da campanha de terror contra Lula; e mesmo em anos ainda mais recentes, com o o devaneio sobre o suposto bolivarianismo do PT.

A grande inovação na implementação desse ativismo ao longo dos últimos tempos tem sido o uso do aparato formal do estado de direito, de natureza eminentemente liberal, para impedir o funcionamento da própria democracia formal, também de natureza liberal clássica, diga-se de passagem. A manifestação mais clara desse processo tem sido a subversão da lógica acusatória que deixa de presumir a inocência do acusado para deduzir sua culpabilidade necessária quando da existência da suposição de um possível interesse no ato ilícito.

Esse raciocínio invertido – e claramente negacionista – da lógica humanista fundante do pensamento liberal moderno é paradoxalmente exercido por agentes investidos na defesa do próprio estado liberal, que agem nesse sentido, de maneira mais frequente quando da remoção de atores políticos de grande apelo popular, como Lula, do jogo democrático. Subverte-se, assim, mais uma vez, a essência da tradição liberal a fim de que interesses oligárquicos, fortemente arraigados entre os ditos liberais dessas paragens tropicais, sejam defendidos.

O liberalismo clássico pressupõe a liberdade e igualdade de oportunidades para a participação no mercado econômico e arena política. Subterfúgios que impeçam esse exercício democrático, ainda que revestidos de carapaças formais legais ou salvacionismos moralistas de forte apelo emocional, contradizem fortemente a lógica liberal moderna. Já que grande parte da nossa trajetória política é mais circular do que progressista, não seria o caso de que nossos liberais se assumissem, de vez, por aquilo que realmente são: defensores pré-modernos da lei do mais forte e da eliminação da democracia popular?”

RAFAEL R. IORIS é professor da Universidade de Denver e autor do livro Qual desenvolvimento? Os debates, sentidos e lições da era desenvolvimentista (2017)

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Escola sem partido: do conto do vigário ao Conto da Aia


 

Uma comissão na Câmara Federal está analisando as propostas do movimento Escola sem Partido, que quer modificar a Constituição e impor suas diretrizes para a educação pública do país. Muitos caem nesse conto do vigário, pois realmente creem que professores entram em sala de aula para fazer lavagem cerebral, doutrinando alunos a aumentar fileiras stalinistas, gayzistas, feminazis e de adoradores do tinhoso em geral. 

Só por isso, já se percebe que nunca puseram o pé numa sala de aula, pois imaginam crianças e adolescentes sem raciocínio, a absorver passivamente qualquer balela de professoras e professores. Pequeno parêntese aqui: os colegas “doutrinadores” mais persistentes que eu conheci queriam mais cristianismo, civismo, disciplina e valores familiares na escola... 


Há uma neurose pela neutralidade, como se fosse algo possível, concreto. E de que neutralidade estariam falando? Da que exige famílias representadas no modelo papai-mamãe-filhinhos, desconsiderando qualquer outra? Da que brada que conhecimento científico é só uma opinião, e que o mais importante no ensino são “valores” (quais)? Da que tacha movimentos sociais e por direitos humanos como baderna e crime? Da que impõe censura a livros, exposições e discussões? Da que provoca cinicamente e depois desce a mão em quem reage contra? Isso é neutralidade, torcida brasileira? Quem sofre de escassez neuronal acredita que sim, do mesmo jeito que acredita na existência da tal “ideologia de gênero”, a ameaçar nossa sociedade como a loira-fantasma, o homem-do-saco ou o boi-tatá.

|Jota Camelo|

Pra quem consegue raciocinar por 5 minutos que sejam, a manobra é evidente: formar legiões de zumbis que garantam no poder políticos ditos cristãos, a transformar a bíblia em Constituição e a inteligência em crime. Até lá, vão angariando “pessoas de bem”, convencidas da pureza dos argumentos, afinal, desde que surgiu nosso mundo, “família” é sempre a mesma, né? Desde o paleolítico éden. A-hã. A homossexualidade é coisa inventada para fazer parada gay, feminismo só leva à decadência de valores e à má-educação das crianças e conhecimento científico só é aceito se não contrariar a bíblia. 

A coisa toda vira uma experiência de Pavlov. Basta que se pronunciem palavras como direitos humanos, gênero, aquecimento global, movimentos sociais, cotas ou laicidade para que os modernos cruzados do escola sem partido noção salivem e caiam matando.

|Laerte|

Mas só o fato de esses projetos chegarem a ser discutidos em espaços de decisão política é assustador. Porque uma coisa é optar por viver nesse obscurantismo. Outra bem diferente é lutar para transformá-lo em lei, com punição dos não aderentes. Salve-se quem puder.

The Handmaid's Tale (Bruce Miller, 2017)



terça-feira, 24 de abril de 2018

Polícia no “Baile da Saudade”


Quando eu era adolescente, e as playlists se faziam em fitas K-7, havia uns programas na TV chamados Festa Baile, Baile da Saudade e coisas afins. Vovozinhos e vovozinhas trabalhados no terno cinza e nos giga broches florais se apertavam num cenário que incluía mesas com toalhas brancas e arranjos vegetais duvidosos. A imagem era bem cagada e as músicas remontavam a 40, 50 anos atrás, muitas já usadas e recicladas em filmes, novelas, publicidades. Pairava aquela vibe nostálgica, suspiros  por um tempo em que era-se jovem e tudo era lindo. Hoje, ocupo eu o posto da vovozinha. Não sou saudosista nem acho que “antes era melhor”. E a trilha do meu Baile da Saudade, também já usada e reciclada (em filme ruim, inclusive), vem do disco Cabeça Dinossauro, dos Titãs, de 1986.

José Sarney ocupava a cadeira presidencial. Uma greve geral, que chegou ao Palácio do Planalto, foi batizada pela imprensona pesada de badernaço. O Plano Cruzado II dava as caras. Eu fazia o terceiro ano do magistério no Instituto de Educação, pertencia ao Grêmio Estudantil D. Júlia Wanderley e à União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Curitiba (vocês nem adivinham quem havia sido presidente da entidade pouco tempo antes 😁). 

Aaaah, aqueles tempos que não voltam mais parecem nunca mais ir embora, não é mesmo? Então, quando ouço Polícia, primeira faixa do Cabeça Dinossauro, parece que volto no tempo que andei em círculos. Ou que nem saí do lugar... Dureza é constatar que a música sofreu uma “apropriação cidadão-de-bem”, digamos assim, que inverte o sentido das palavras polícia para quem precisa, usando a ambiguidade do refrão. Mas na minha Festa Baile, ela ainda guarda o sentido original do século passado e continua servindo de trilha sonora para as questões sociais do pais.

Por exemplo:
Polícia Militar e Guarda Municipal de Florianópolis aspergem pimenta e fecham numa sala funcionários da saúde, das creches e jornalistas.

Choque da Polícia Militar ataca professores do Ensino Infantil de Belo Horizonte.



Há quem tema os militares novamente no poder. Não precisa, moçada: 1. Governadores, prefeitos e suas polícias militares já estão dando conta do recado; 2. Escrevinhadores da imprensa fossilizada, que passam pano pra qualquer tipo de otôridade, reprisam a narrativa da “baderna”. 3. A panelagem exige a punição de trabalhadores. 

Voltamos ao ponto de partida, e você não pode jogar outra vez.








 

domingo, 22 de abril de 2018

Pimenta na democracia dos outros...

 A prefeitura de Florianópolis vai pagar a iniciativa privada para que esta forneça serviços públicos. São as tais Organizações Sociais (OS), entidades privadas que recebem do governo para atuar em áreas de “interesse público”. Assim como saúde e educação. E as tais OS se definem como “sem fins lucrativos”.

Então, viventes desta pujança chamada Brasil, não é porque há proprietários de escolas privadas, planos de saúde e demais grupos econômicos lobistas envolvidos que a coisa tem fim lucrativo. Tá? Afinal, a gente sabe que se tem uma coisa que acordos governamentais garantem por aqui é serviço público de qualidade acima de tudo, né? Ééééééééé!

Vai daí que em Florianópolis, o prefeito Gean Loureiro, do MDB (que século é hoje, moçada?), se contorceu e articulou para entregar creches e postos de saúde municipais às tais OS. Antes mesmo de a bagaça se concretizar, a prefeitura já estampava a propaganda milionária na TV (mais de R$ 9 milhões). Funcionários da prefeitura (alguns com salário atrasado e sem as devidas reposições) em greve, e com toda a razão. Votação em regime de “urgência urgentíssima” (sério, essa expressão existe, é oficial), num sábado à tarde.

Na sessão, bancada governista ofendendo servidores municipais e sindicatos. Estes, por sua vez, impedidos de entrar para acompanhar as discussões que decidirão suas vidas. Sim, pois as tais OS são um eufemismo para terceirização, fim de planos de carreira, contratos temporários de pessoal e por aí vai.


Na malfadada sessão, vereadores alinhados ao prefeito tentaram impedir de votar os contrários ao projeto. Vereador ligado ao MBL falou em fake news propagadas pelos opositores. Fardados entraram em ação. Spray de pimenta na cara de manifestantes e da imprensa. A Própria NSC (ex-RBS) assinou carta de repudio dos jornalistas contra a violência policial – trancaram imprensa e manifestantes em uma sala e aspergira pimenta na geral... “Bando de vagabundos comunistas”, brada a panelagem, até agora.

Uma viatura da polícia foi queimada “por manifestantes” – quais, ninguém sabe, ninguém viu. E o projeto foi aprovado. Ou seja, dinheiro público para empresas privadas. A definição é simples, clara. Quem bota um “mas” aí, o faz por má-fé.

O serviço público é falho? Sim. Então, lutemos para que melhore. Exijamos. E que sejam desmontados, com dados e informações reais, os argumentos favoráveis às privatizações que só alimentam abutres políticos e o delírio do cidadão-de-bem-que marcha-com-deus-pela-pátria.

Em tempo:

1. Abaixo-assinado contra a terceirização do serviço público em Florianópolis. Assina aqui, moçada!
👉 http://www.encampa.com.br/floripacontraos/

2. Aqui, o prefeito explica porque a política pública de saúde na capital não saía do papel: aparentemente, estamos aguardando para poder implantar o modelo inglês... Já dá pra servir o chá das 5 depois dessa votação?

3. Aplausos aos envolvidos no processo, que botaram este sujeito na prefeitura em 2016. Os que estão enchendo os bolsos, desde então, eu até entendo, pois mau-caratismo tem preço. Os que o elegeram “por convicção”, sinceramente, não sei em que dimensão alternativa cataram os próprios cérebros. É alarmante!

    

4. E depois do prefeito Loureiro, leva o caneco do maior cinismo da semana o comando da PM de Florianópolis. Sobre o ocorrido na câmara, explicaram:



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Sou um lixo, mas peço desculpas


Li hoje que a “magistrada” Marília Castro Neves – que se destacou mês passado por suas parcas & porcas ideias sobre Marielle Franco – veio a público novamente, com um pedido de desculpas à professora Débora Seabra. A detestável Castro Neves ofendeu a professora, que tem Síndrome de Down. Anteriormente, ela já havia criticado o Dia da Consciência Negra, a Lei Maria da Penha e o deputado federal Jean Willys.  Seus comentários não são poucos, não datam de ontem e recebem muitos likes e aplausos.

Investigada pelo Conselho Nacional de Justiça, a potestade das trevas então se desculpa. Diz ter sido “precipitada”, espalhou merda na cara do mundo sem verificar a natureza do conteúdo, blablablá, “me desculpe, não desejo mal a ninguém, obrigada por ter me ensinado ...”. Tá. Tendo em vista a investigação do CNJ, ela produziu uma prova pública de arrependimento. Só isso.

Mas tem quem acredite em pedidos de desculpas “sinceros” e públicos, do tipo “aprendi a lição, nunca mais faço”. Como se fossem o objetivo final de uma história como essa. Desse modo, uma gente intolerante continua destilando ódio fantasiado de opinião. Quando pegos em flagrante, posam de paladinos da honestidade, levados ao erro por precipitação, pelo calor do momento, pelos comentários de amigos. Sempre por outra coisa que não a própria vontade, a própria intolerância. Alguns passam a acreditar nas próprias balelas, repetidas tantas vezes e com argumentos tão cidadão-de-bem, palavras tão lapidadas, expressões tão combinando com o almoço em família.  

Essas atitudes me fazem lembrar do documentário I Am Not Your Negro (Raoul Peck/ EUA, 2016), sobre o ensaísta e poeta James Baldwin. A certa altura, fala-se sobre a intolerância que a sociedade americana parece gostar de alimentar, ao mesmo tempo que cultiva a ideia de simplicidade e sinceridade. Ou seja, as pessoas dizem e compartilham as maiores barbáries, as ideias mais rasteiras sobre o mundo e os outros, mas tudo bem, elas se desculpam “com sinceridade”. Se mostram simples, quase ingênuas, não compreendendo o porquê de tanto barulho. 

Reforça-se, assim, uma imaturidade na qual ninguém precisa se conscientizar, aprender, sofrer, se questionar. Basta vir a público, simples e sincero. Sua intolerância será perdoada. “Não fiz por mal...”. Compreendida. Abraçada. Ódio e desprezo passam por opiniões apenas. Nada a se preocupar. Sorriam todos. Está tudo bem.