quarta-feira, 29 de junho de 2016

Você não é conservador, é só um babaca a mais

Tenho lido que os conservadores estão saindo do armário. E aí, várias coisas. 

Conservadores não saem do armário, porque nunca entraram, certo? Meio que estão nem aí pra grita geral midiática e pro debate além de suas próprias paragens e referências. Conservadores não são a mesma coisa que o(a) reacinha que dá plantão na Internet, repetindo a meia dúzia de frases de blogs de periódicos vergonha-alheia como Veja, que decorou como se fossem iluminações. 

Eu cá não sou conservadora, nunca me identifiquei com suas posturas e escolhas, mas já tive debates sensacionais com quem era, e aprendi muito. Tratava-se de um grande intelectual lá da minha terra, um dos organizadores do setor de ciências humanas da universidade federal na qual fiz graduação e mestrado; foi professor de todos os meus melhores professores. Tinha sido interventor por um período, após o Estado Novo, em 1946. Se dedicou a ensino e pesquisa – quando digo se dedicou, quer dizer de verdade, com cuntiúdo e sustância. Era apaixonado pela teoria da história. E eu o conheci por conta dos caminhos cheios de curvas que a gente toma pela vida afora. Não em 1946, tá?!

Um dos meus grandes professores, Francisco Paz, me chamou um dia pra um tête-à-tête. Precisavam de alguém que lesse para o professor Brasil Pinheiro Machado, pois, já beirando os 90 anos de idade, estava com a visão precária. Apenas o nome do professor Brasil já é coisa que impõe respeito para quem o conheceu, mesmo que não pessoalmente, mas por seus textos, por exemplo. Fui. Passei por uma “leitura teste”, na casa dele, num dia muito frio de agosto. Me lembro do sol, da manta xadrez do professor Brasil sobre suas pernas e do meu medo de nem conseguir falar, que dirá ler para ele. Me estendeu um texto de Hegel e disse que eu podia começar. Com as duas mãos apoiadas sobre a bengala, ele ouvia, os olhos perdidos em algum ponto a sua frente, mas que davam a impressão de estar me encarando. E lá ia eu, lendo, parando quando ele pedia, ou quando ele queria discutir um ponto específico. Discutir em termos, né? Porque ele dava uma aula a cada parada. Perguntava o que eu achava. Esclarecia. Sondava minhas referências de leitura. Ao fim do texto, perguntou sobre o mestrado que eu fazia, queria detalhes do projeto, das referências teóricas, da pesquisa, do que dizia meu orientador. Por fim, ficou combinado que eu voltaria. Uma vez por semana. Que com o tempo viraram duas. Depois, três. Ele falava sobre política como grande historiador que foi. Nunca falou abertamente de suas opções, mas concluí que não se tratava de nenhum revolucionário de outros tempos... Li para ele até que a doença o debilitasse muito, e as leituras não fossem mais possíveis. A última vez em que o vi, justificou a interrupção dizendo que já havia resolvido as questões teóricas que tinha em mente. Ele morreu uma semana depois.

Assim, quando penso em conservadores, penso no professor Brasil, com seus olhos que quase não viam mais, embora ele soubesse exatamente onde estava cada livro. Apontava com a bengala: “deve estar na prateleira de cima, à esquerda. Veja se você acha.” Claro que estava exatamente lá. Como também estavam suas lembranças e referências, aparecendo na medida em que discutíamos. Tudo isso acabou marcando as minhas próprias referências, me dando a certeza de que, em termos de conhecimento, estou sempre muitos passos atrás. Já saio devendo...

Continuei não conservadora pela vida, mas com a certeza de que um debate inteligente faz ultrapassar a mesquinhez mental rapidinho. E feliz quando há ideias diferentes em jogo, mas, claro, num panorama lúcido, com um conhecimento capaz de relacionar de forma coerente as coisas aparentemente mais díspares no mundo.

Então, conservadorismo, na minha cabeça, é assim. Não o desfiar de chavões tolos e conclusões paleolíticas. Você pensa diferente? Ótimo: você pensa! Mas o que se vê por aí é um punhado de recalques enfeitadinhos, tentando passar por reflexões profundas acerca de um mundo que não estaria à altura de tanta riqueza intelectual e tanto conhecimento político – tudo isso, bem entendido, despejado num óleo já pra lá de requentado, no qual boiam colunas e sites de uma pobreza patética e uma violência de ideias primária (e assustadora).  

Na bôua, santa, aplaudir Bolsonaro não é ser conservador. Isso é ser o(a) reacinha da vez, apaixonado(a) pelas próprias linhas, que só repetem parcas e porcas ideias como se fossem voos inspirados pelo espírito da renascença. Sério, isso não é a definição de conservadorismo. Você só é babaca, do tipo revoltadinho(a), temeroso(a) de que tomem suas preciosidades – aquelas que ninguém quer. Você que tem uma ideia fixa e não deixa que nenhum debate, aula, texto ou o que for se desenvolvam, é só alguém sem a menor educação – pois não sei se avisaram, mas falta de educação e grossura não são apanágio do conservadorismo, beleza? São apenas provas da sua tosquice. 

Quédizê, não tente se alinhar ao conservadorismo, puro e duro; você já está alinhado(a) – mesmo que não saiba – com a turba enfurecida que caça e mata suspeitos de bruxaria no meio da rua, no século XXI. Sua ação se dá em outros espaços, mas seu cérebro e suas capacidades são exatamente as mesmas.

Bonnus track vergonha alheia: a volta dos adesivos “o sul é o meu país”, orgulhosamente colados nas traseiras dos carros. Sério: vergonha, mas muita vergonha alheia.






    

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Personal Jesus na Bretanha: escolha o seu

A Bretanha (la Bretagne) é uma região no oeste da França, na beira do Atlântico. É linda, mas tem graaandes períodos de céu cinza, chuvas passageiras, verão com 16°. Tem cidra de verdade, que é um álcool de maçã, casas de pedra escura, vaquinhas que parecem publicidade do Milka, menires e um catolicismo que resiste. 

Não raro, se vê um Jesus crucificado num cruzamento de ruelas no interior da região. Neste momento, estou pertinho deste:

Meda. Logo ao lado, um lugar chamado Le loup pendu (o lobo enforcado). Mas a região é linda. A gente releva as tradições, pois as atualizações valem a pena. Por exemplo, na mesma Bretanha, alguns quilômetros adiante (Vannes):




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Juízes na “república de Curitiba” - uma balança capenga

Desde que Lula citou a infeliz expressão “república de Curitiba”, os ânimos bairristas se assanharam mais do que em dia de festival folclórico, quando se mostra que somos (nós, curitibanos) originários da Europa... A-hã. E aí, mistura-se aquela vontade de protagonizar a lemas evocando uma superioridade moral e maior capacidade de trabalho. Boa coisa não dá. Mas não dá meeeeesmo.

Tirando o fato de que o juiz Moro aí do desenhinho ficou a cara de um profe meu da facul, sobra a eterna busca por uma identidade local, que teria um caráter diferente daquele do restante do país. Afinal, só nós trabalhamos, só nós temos horror a corrupção, só nós fomos feitos de outro barro. Logo, da república de Curitiba, só receberíamos lisura e a justiça mais afiada, aquela que jamais se curva à malemolência da corrupção e do compadrio – “coisas que só ocorrem de São Paulo para cima” (frase que eu cresci ouvindo). É óbvio-pululante que nem todo mundo pensa assim naquelas plagas, mas é fato que os adeptos desse bairrismo são barulhentos e espalhafatosos.  

Porém, há vistas grossas de ufanistas quando o assunto não convém. Por exemplo, quando se refere a atos do mais puro coronelismo corporativo, vindos das idolatradas instâncias jurídicas da terra dos pinheirais:

O jornal em questão não é periódico disquerda, longe disso. Tradicionalíssimos, seus editoriais beiram o reacionarismo. Mas aí não vale, né? Fingimos que não vemos o enrosco e quem sabe ele deixa de existir...

E falando nisso, curso de extensão aí, moçada! Será que ensinam o passo-a-passo?



Grandes herois nacionais: o “japonês da Federal”


Só queria saber de que vai se fantasiar no próximo carnaval a moçada-batedora-de-panela, educação-moral-e-cívica, revoltadões-on-line...





quinta-feira, 26 de maio de 2016

#EstuproNuncaMais








Quanto pior... pior



































Nesses últimos dias, dá a impressão de que “quanto pior, melhor”. Aquele tipo de coisa que catastrofistas na virtuália passam o tempo a postar, conjurar, dizer que antes não tinha nada disso, e que se fosse lá em casa, levava uma camaçada...

Mas o fato é que não tem como fingir que não acontece; “focar” em temas mais urgentes; evitar para não se deprimir. Está aí. Vejo agora meus coleguinhas da facul, com seus 20 e poucos, numa revolta sem fim (com razão, é claro). Muitas e muitos expondo todo o nojo que sentem pelo estereótipo do masculino. Outras e outros cobrando de seus amigos uma atitude, um post que seja, a condenar o fato. Umas e uns querendo saber o porquê do silêncio.

Enquanto isso, tem quem ache um exagero; que não é bem assim e que as generalizações não ajudam. Não, não ajudam. Mas acredito que o sentimento que sustenta essa grita é a recusa em aceitar que determinadas explicações sobre o mundo recebam sobrevida, dia após dia. Falo da recusa em aceitar certas naturalizações, como aquela que ensina às meninas como evitar um estupro; como e quando sair à rua para não chamar a atenção de um possível estuprador; da explicação que se dá às meninas sobre impulsos masculinos que, uma vez liberados, não têm volta – logo, não provoque, não teste, não libere sua curiosidade. Tema, desconfie, “se preserve”.

Não acredito que o problema esteja na pornografia em sua essência – está na cultura da violência, do exibicionismo, do machismo em imagens, textos, famílias, escolas, igrejas, discursos oficiais, decisões legislativas. E pior, em momentos de visibilidade da barbárie, a explicação sobrevoa o “desequilíbrio mental”. Descrições na imprensa falam em “suposições”. Dúvidas pairam, silenciosas, sobre o fato de uma menina estar na rua. Até tarde. Onde não deveria. Parece ser normal a existência do perigo, da agressão. Se a mulher permanece no espaço privado, isso não ocorre (o que não é verdade). Se ela se dispõe a circular em espaços públicos, ela mesma se torna pública e terá que lidar com isso. “Se não quiser que olhem, não se vista assim”; “se não quiser que passem a mão, não vá alí”; “se não quiser ser estuprada, que fique em casa”; “conseguir um homem é o ponto alto da sua vida”. As frases pronta-entrega passam a preencher o debate.

Como se fosse uma lei da natureza que jamais será modificada. Nessas horas, deixamos de ser seres racionais. Que podem transformar. Questionar. Passamos ao sempre foi assim. E falaremos em execuções sumárias. Em educação restrita (burcas?). Em mais religião. Por isso, entendo a revolta e a vontade botar fogo em tiozões que representam e reforçam esse patriarcado; é a resistência à ideia de inevitabilidade, ordem natural à qual devemos nos acomodar, nos adaptar. “Aceite, que dói menos”; “se for inevitável, relaxe e goze”. “Risos”. SQN.

Não aceite. Não aceite que é pulsão sexual masculina (natural, normal). Não aceite o papo sobre mulheres terem que se preservar (como? de quem? por que?). Não aceite lorotas machistas que nivelam tudo pela passividade/atividade. Não aceite estereótipos como formas naturais de vida (“coisa de viado”; “precisa desmunhecar tanto?”; “não na minha frente”; “tem que ser sexy, sem ser vulgar”). Não aceite opressão, precariedade, regra cagada, preconceito, violência como se fosse dado natural.

Por fim, é desesperador perceber que a tal da “ordem natural das coisas” só é citada quando se trata de injustiça social, de opressão de grupos e manutenção desta. Quando realmente se trata da “ordem natural das coisas” – por exemplo, desmatamentos, destruição, poluição em nome do bom e velho capitalismo de rapina – aí, se lança mão de termos como “progresso social”, “avanços”, “necessidade de mudanças estruturais”. Logo, há que se questionar. Se revoltar. Fazer barulho. Não aceitar. Isso sim é um caminho sem volta (felizmente).

Bonus track do inferno:


http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2016-05-25/fa-de-bolsonaro-alexandre-frota-apresenta-propostas-a-ministro-da-educacao.html

Em tempo: Alexandre Frota é aquele ex-ator, ex-modelo, ex-atleta, “empresário”, que já riu muito contando em entrevista na TV como estuprou uma mulher. Apresentador e plateia também riram e aplaudiram. u-hu. |Aqui|.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O Aécio primeiro e o machismo nacional junto


Moçada rindo do tal “Aécio ser comido primeiro”. Risinhos por conta de uma possível “passividade homossexual”. Sugestões de que ele poderia gostar da situação, fotos com outros homens gerando piadas-tiozão e por aí vai. Ou seja, associa-se uma figura política péssima, com idoneidade questionável, demagogo e golpista a uma possível “viadagem”. Faz rir muito o fato de se imaginar Neves “sendo comido”. É como se perdesse ainda mais a dignidade ou como se recebesse o que merece...

Que essa caterva política mau-caráter tem que ser exposta, assim como os paneleiros que a aplaudem, isso é inquestionável. Mas é questionável o fato de ainda vermos “escorregadas” homofóbicas vindas de um povo disquerda, muito cioso de suas escolhas contra a opressão, contra ataques a minorias e pessoas vulneráveis. Sobretudo, viventes que se veem como representantes de um pensamento moderno, revolucionário, que quebre de vez com as convenções sociais moralistas.

Nessas horas, aquele bom e velho machismo se revela mais ativo que nunca. Até por que suas fronteiras ideológicas são outras...

Ah, sim! Mas isso é problema meu, claro. Coisa de politicamente correta; feminazi; sem senso de humor; quiçá isentona ou mesmo golpista, não é mesmo? Sério: análise do discurso vale sempre, moçada! E preconceito é preconceito, não importa “de que lado você está”.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

“Celebridades” protestando

Calma, calma. Não se trata da revolta de Caras nem de passeatas na Avenida Batel. Nada disso. Estou só passando adiante informação da Folha de S. Paulo a respeito de uma declaração de Fernanda Montenegro. Isso ficou confuso? Bem, vamos lá. Didaticamente. Por partes.

A atriz Fernanda Montenegro – “primeira-dama do teatro brasileiro”, ganhadora do Urso de Prata no Festival de Berlim, de um Emmy, indicada a um Oscar, entre tantos outros prêmios pelo mundo – afirmou em entrevista que Michel Temer vai se arrepender de ter suprimido o MinC; disse que apoia as ocupações que a classe artística promove em todo o Brasil, pois os artistas têm sim o direito de protestar. Em resumo, foi isso.

Como a Folha noticiou a declaração? Colocando no site F5, “o site de entretenimento da Folha” (no qual você pode ler sobre os últimos tweets de Kim Kardashian, a “festa ostentação” de um mc ou o guarda roupa da duquesa de Cambridge). 



E dentro desse site picareta de entretenimento, escolheram a vinheta celebridades para alocar a declaração política da atriz. 

Quédizê... à altura de leitores-panela, não é mesmo? Que claro, se precipitaram sobre a novidade xingando Montenegro de “cupincha do PT” (os estúpidos sequer têm ideia de que ela nem eleitora do partido é); outra, do tipo heroica-falo-mesmo, lança a questão: “o que ela já fez pelo país? Que eu saiba, nada”. Momento Monty Python (e o que os romanos fizeram por nós?)...

Realmente, imprensona nacional: você está no nível de seus comentaristas. Melhor que isso, só o DC, que se esforça tanto pra tirar o dele da reta quando o assunto é otôridade, e acaba fazendo rapapé até pra Eduardo Cunha...




domingo, 15 de maio de 2016

Dúvidas do momento

Primeira: qual é a da imprensa nacional – e da classe média brasileira – com a “repercussão lá fora”, com a “reação da imprensa internacional”? Que coisa mais provinciana, obtusa! É como se uma parte do país fosse a família Kardashian...


Segunda: ultimamente, algumas frases têm me lançado algumas décadas atrás, em termos de ideias. Além do povo que fala como se estivesse fazendo jogral na aula de Educação Moral e Cívica (forma e conteúdo), tenho a sensação de estar no Instituto de Educação, década de 1980, nas aulas da professora Deusdith L. M., “sociologia da educação”. Volta e meia rolava uma enquete do tipo “homens de brinco: você namoraria?”; “a pena de morte deveria ser banida?”, e por aí ia. Um dia, a profe disse que as minhas respostas eram vulgares, não estariam à altura de “uma futura professora”. Tenho me sentido beeeem vulgar ultimamente. Estaremos involuindo?


Terceira: quando é que Cid Moreira volta ao Jornal Nacional? Saudades, né? SQN.




Quarta: é nóis! Porque a ponte para o futuro do Michel Temer é a Hercílio Luz, não tem?

Por fim, Gregório Duvivier falando sobre a situação do país. Trator assina embaixo.




sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ouvindo “a little bit closer” em 2016

Na facul, esperando o busão. Em frente, o estacionamento do Centro Socioeconômico, no qual um Golf preto entra, janelas abertas, alto-falantes berrando. Charo. Oi?! Siiim! María Del Rosario Mercedes Laura Jennifer Pilar Martínez Molina Baeza De Rasten, a Charo, que em 1977 pedia a little bit closer . Coisas que se impregnam na memória de uma criança e nunca mais a abandonam... (pra quem é de Curitiba, abertura do programa Linda em alguma década do século XX).





E eu fico imaginando quem seria a figura do Golf preto... Juventude barroca-diferentona? Ou saudosistas? Por favor, você, que ouve Charo em alto volume e frequenta o socioeconômico da UFSC: identifique-se, conceda uma entrevista ao Trator Desgovernado! De alguma forma, este espaço também é seu... Loco, loco...


Trator olímpico





quinta-feira, 21 de abril de 2016

Prince (1958-2016)






 
(Prince em 03:25)
 

Não há dignidade nesse risinho...

Pra variar, moçada fazendo amálgamas tolos e jogando com a desinformação (coisa que se dá em todo e qualquer ponto do espectro político). Nos últimos dias, a afronta do deputado Bolsonaro a conceitos como democracia, respeito e inteligência, fez com que se multiplicassem na virtuália diversos relatos de ex-presos políticos das décadas de 1960 e 70. Aqueles relatos dos quais muitos preferem não tomar conhecimento, com a justificativa de que as pessoas então presas e torturadas não defendiam uma democracia pura e simples, mas a “ditadura do proletariado”, por exemplo. 

E aí, um primeiro nó a ser desfeito e não apertado a ponto de se arrebentar. Houve quem defendesse ditadura do proletariado; houve quem defendesse a ideia ampla de democracia; quem lutasse contra desigualdades; quem não aceitasse ter suas liberdades interrompidas. Tudo isso gerou as mais diversas formas de militância, intervenções sociais e adesões.  Nunca houve, na oposição à ditadura militar, um pensamento único, dirigido por um grupo apenas ou representado somente por algumas lideranças. As ações foram muitas, fruto de múltiplas reflexões, com visibilidade e resultados diferentes – dentro, é claro, dos limites impostos por uma ditadura latino-americana dos anos 60-70. O balanço do período e a autocrítica das pessoas envolvidas se fizeram de várias formas, angariaram simpatias e críticas.   

Seja como for, não é porque se tem críticas a determinadas posturas e ações que se pode defender a violência de Estado contra indivíduos, certo? Essa defesa é criminosa, obscurantista e reflete uma vontade de aniquilamento de quem tem ideias diferentes. Coisa de quem é incapaz de raciocinar sobre diferentes contextos, de compreender a diversidade das dinâmicas sociais em diferentes tempos e espaços. Para estas pessoas, imediatistas, o que vale são os próprios referenciais, a própria vida, aqui e agora. Tudo o que ultrapassar essa cerquinha estará, forçosamente, errado. Toda reflexão, colocação em perspectiva e vontade de compreensão é vista como defesa pura e simples daquilo que não aceitam. “Ou você está comigo ou está errado”.

E claro, isso dito por meio de subterfúgios, com indiretas e muita condescendência. Porque fica difícil sair defendendo Bolso e sua caterva salivante sem ser associado ao que há de mais ralé em termos de visão de mundo. Então, tenta-se fazê-lo em evasivas, buscando não comprometer seus espacinhos, temendo perder algo ou serem reduzidos à própria mediocridade. Mas creiam-me: não está funcionando. Afinal, falta certo aprimoramento de referências, certa sofisticação de raciocínio. Isso não é elitismo, é trabalho intelectual efetivo – e não é para fracos.






Recato & domesticidade


domingo, 17 de abril de 2016

Previsão do tempo: semana começa em Sucupira


Teve quem dissesse que Dias Gomes, autor de O Bem Amado, tinha uma pegada de realismo fantástico. Já eu, acho que o dramaturgo era praticamente um documentarista...



O episódio completo aqui (ou em qualquer noticiário nacional).





quarta-feira, 23 de março de 2016

Uma redenção pra chamar de sua

Em tempos em que se xingam cachorrinhos com lencinhos vermelhos e se etiquetam os que não se rasgam na rua clamando contra a direita, sempre gosto de lembrar que não, não gosto da farda; nunca votei em qualquer candidato do PSDB; estou no meio da quizumba política desse país desde 1985, quando estava no movimento estudantil. Mereço uma medalha por isso? Não, mas é só pra frisar que respeito é bom e acho que tá faltando...

Isso posto, chego ao assunto. Ontem, encontrei Metralhadora Giratória, que também atende pelo nome de Lucidez, e engatamos uma prosa sobre as reações variadas ao momento em que vivemos. Parece que está no ar uma busca por redenção: para uma militância que se dissolveu na burocracia profissional e na virtuália; para o mal-estar causado por alianças escrotas para as quais não se votou; para a tristeza de ver que muita gente-boa-pra-caramba também se deixa subornar. Quem sabe se um fato que una todos contra as excrescências da justiça e da política brasileiras não possa, de repente, também apagar a contradição do “nosso campo”. Um fato tão grande que consiga reduzir à insignificância todos os incômodos que nossas escolhas possam trazer, toda as sombras que também habitam nesse lado de cá da ponte. É indiscutível que pessoas decentes sejam contra arbitrariedades, golpes, manobras; mas também é visível quando fatos se tornam grandes e redentores, ganham narrativas épicas, com ações heroicas e engajamentos que exigem alarde.

Até aí, que seja, afinal, cu e autocrítica, cada um tem os seus. A quizila aparece quando a redenção pessoal toma ares messiânicos, pois a fé não é racional; em nome dela, chuta-se o próximo enquanto se berra contra a arbitrariedade.


  

quinta-feira, 10 de março de 2016

Vim, li e morri!

 
 
 
 
 
  
 
 
 



Por fim, utilidade pública:
Propostas para desgovernado.trator@gmail.com
Tô dispô, sou bilíngue, doutora, lavo, passo e cozinho trivial-básico.
Serião.

terça-feira, 1 de março de 2016

Cotas, racismo, revolta & academias

Nestes últimos dias, três assuntos me deixaram matutando, todos os três passando pelo mesmo ponto: movimentos negros e questões ligadas a cultura, sociedade, representações e por aí vamos.

A entrega do Oscar foi um deles; há anos não acompanho, mas é difícil não cruzar com alguma menção à cerimônia; e nesta edição mais ainda, por conta do boicote de atores negros e da apresentação do fantástico Chris Rock, que de tolinho-engraçadinho-palatável não tem nada. Sem entrar em discussões bizantinas, acho que o boicote é instrumento válido sim, e quem dele se utilizou fez muito bem, na medida em que põe certas discussões na cara da moçada; e acho que quem participou também o fez na classe, também botou o racismo na roda, e não tem pra onde fugir no meio da premiação, né?

Ontem, no Metrópolis (TV Cultura), Adriana Couto entrevistou a atriz Mawuzi Tulani, o ator Sidney Santiago e o diretor/coreógrafo Eugênio Lima a respeito de Exhibit B, instalação que há 2 anos angaria a maior quizumba por onde passa; o autor Brett Bailey busca denunciar o racismo e fazer pensar sobre a violência da escravidão nas idades moderna e contemporânea, assim como a atualização dessa violência no racismo nosso de cada dia, disseminado de diferentes maneiras, das mais sutis até a polícia militar brasileira, por exemplo. Houve boicote, manifestações contrárias, assim como adesões e vontade de participação na peça por parte de atores negros brasileiros. E como sempre, uma discussão que tem tudo para trazer pontos de vista novos, abordagens inteligentes da questão e voz a quem geralmente não é ouvido, esse tipo de discussão recebe rolão compressor da mídia em cima, espaço para o vozerio de quem está habituado a falar muito/sempre e a reprodução de lugares-comuns irritantes e inaceitáveis, como o “racismo ao contrário”, “a censura”, “o mundo tá chato” e blá-bláááá-b... (coloquei a entrevista no final da postagem, vale a pena).

Por último, vi passar um texto que deixou meio mundo acadêmico do fêici na indignação. Isso por que o professor José de Souza Martins – com uma vida e uma produção acadêmicas preocupadas com a exclusão, a opressão, entre outros temas – teve interrompida a aula magna na FFLCH da USP (respeito, respeito, todo mundo de joelhos, por favor) por estudantes do movimento Ocupação Preta. Aproveitando o início das aulas, estudantes buscam situações-chave na vida universitária para trazer a público discussões que vários – mesmo no meio acadêmico – julgam “muito chata”, ou “que não é momento”, “não é assim que se faz” e, novamente blá-blááááá-b...

Vai daí que o Alceu Castilho (Jornalismo, Geografia e Direitos Humanos) publicou em seu blog um texto revoltado, taxando a ação dos estudantes de truculenta, opressora, similar a métodos fascistas, arrogante... O texto passa para “as redes”, e parte do mundo acadêmico fêicibucado se rasga, chora, diz que “é lamentável” ou especula “onde é que vamos parar?”, em termos teoricamente mais rococós (reações que me fizeram pensar na “repressão nazista contra Chico Buarque” no fim do ano passado).

E aí que, olhando o vídeo da aula magna interrompida, não encontrei hordas fascistas ou ações truculentas. Encontrei a mesma interrupção de aulas que já existia (boquiabertem-se!) no meu tempo. É parte integrante, mesmo que não “oficial”, de uma formação de humanas. Debate, debate, debate. Posso discordar da ação? É claro. Mas tenho a impressão que, neste caso específico, a crítica não passa só por isso. O retrogosto que fica ali, perdurando, encalacrando, é outro – questiona-se essa atitude numa aula de professor combativo, progressista, com uma história de vida engajada. Tudo é descrito como se os estudantes tivessem escolhido a dedo este professor e tivessem interrompido a aula porque são uns cabeça-de-vento ignorantes, que não guardam silêncio quando a academia consagrada se pronuncia. Sendo que a coisa toda é estratégica: em que momento haverá mais concentração de alunos e profes? Aula magna? É lá mesmo! Fosse quem fosse que estivesse com o microfone, seria interrompido (até o Chico Buarque).

Mas assim, não vale! Pois o professor é “dos nossos”. Quem sabe se a aula interrompida fosse do Luiz Felipe Pondé (podem me chamar pra participar da interrupção, tá?), o feito não seria compartilhado com orgulho? Talvez surgissem textos exaltando as novas (?) formas de intervenção, as articulações entre academia e movimentos sociais, a maria-mole rosa como instrumento revolucionário. 

O pior é que a discussão que alunas e alunos trazem à tona (sobre cotas, racismo, presença de negros na universidade) fica de lado. Mas parar de fingir que vivemos num paraíso universitário inclusivo e justo, veje bem, não é o momento. Protejamos nossa bolha, porque putz... dá um cansaço, vai atrasar o calendário acadêmico, vai ter que deixar divindades acadêmicas em segundo plano. Não precisamos exagerar, né? Quem sabe num outro momento, em outro fórum, com uma convocação bem divulgada ao qual esqueceremos de comparecer ...?

Conheço professores e professoras, que admiro e respeito muito, que não concordam comigo em nada disso. Mas cá entre nós, ou a universidade acolhe, promove e participa efetivamente de debates e ações atualíssimos, ou soçobra na pasmaceira, puxada ao fundo pelo peso de seus rapapés, papeis, reuniões, linhas, comissões...


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Garota, a mobilização funciona




E pra quem está chochando a pressão, afinal “o filme não é lá aquelas coisas” ou “há mobilizações mais importantes a serem feitas”, lembro que o problema não é esse. O problema é quando decidem o que você pode ou não assistir (ler, ouvir, ver), em função de valores retrógrados e pessoais – não universais tampouco naturais. Gostar ou desgostar do filme é outra história.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A garota dinamarquesa: filme banido no Qatar e em Santa Catarina


O filme A garota dinamarquesa (dir.: Tom Hooper, 2015) foi indicado ao Oscar. Inspira-se no livro de David Ebershoff, sobre a vida da artista plástica Lili Elbe, transexual dinamarquesa que viveu no início do século XX.

No Qatar, o filme foi proibido pelo Ministério da Cultura. 
As leis no emirado do Qatar são uma mistura de código civil e sharia – e adivinhem qual deles prevalece em se tratando de hábitos, educação, cultura, relações humanas, sexualidade... Onda há sharia, interdição é a regra. Não concordamos, mas tá explicado.

Santa Catarina é um rico estado no sul do Brasil. 
  
Vivendo a dor e delícia do ocidente contemporâneo, o Brasil é, em teoria, uma democracia laica. Não há sharia valendo como Constituição; mas há um pensamento retrógrado onipresente, determinando decisões sobre hábitos, educação, cultura, relações humanas, sexualidade... mesmo as mais comerciais. Não concordamos, mas não há qualquer explicação sobre essas determinações bizarras... Silencia-se, aguardando um provável esquecimento. 

Por enquanto, apenas esta carta de repúdio da ADEH busca uma explicação:
 

Olá, Cinemark, Cinesystem e Cinespaço! Alguma informação a respeito?