“Eu acho que o brasileiro é assim desse jeito errado por falta de visão periférica. Quando se trata de perceber a existência do outro e de levar em consideração a necessidade de respeitar os limites do próximo, somos o anti-Ronaldinho Gaúcho. Pra quem não manja de futebol, Ronaldinho Gaúcho é famoso por passar a bola para companheiros bem posicionados enquanto olha em outra direção, sei que é uma merda explicar piada mas acabo de falar na importância de respeitar os limites do próximo.
Percebam a ação do brasileiro em um lugar onde o espaço precisa ser compartilhado por muitos e nem sempre há área de circulação suficiente para evitar colisões - um supermercado, por exemplo. Nosso herói não só costuma parar diante do setor de produtos de limpeza para analisar suas opções como se estivesse examinando o quadro da Monalisa no Louvre como também cultiva o hábito de largar o carrinho de compras atrás de si, interrompendo o fluxo dos outros seres humanos que claramente tem menos importância na escala evolutiva do que ele.
Mesmo em uma das experiências mais degradantes da existência humana, o ônibus lotado, o brasileiro consegue a façanha de impor sua presença aos outros através de vários recursos: a perna aberta, a mochila nas costas, o quadril relaxado. Na hora de fazer valer seu direito ao espaço que escolheu preencher não tem lei da física que possa impedir.
O brasileiro trata cada metro quadrado do seu caminho como um território inimigo a ser conquistado. A cada passo ele finca uma bandeira imaginária, expande o peito e abre os braços para consolidar o perímetro. As pessoas ao redor que procurem outro quadrante habitável, aquele tem dono até que esse general invencível decida a próxima escala de sua turnê mundial.
Por isso acredito que não haja qualquer esperança de um projeto comum neste país. Um lugar onde um pedido de licença soa como uma ordem de despejo não pode mesmo aspirar por justiça social, ou que pelo menos esse filho da puta tire o carrinho da passagem.”
Quando você acompanha sites, blogs e figuras feministas, já sabe que notícias sobre assédio, agressão, violência em geral e impunidade são constantes. Vez ou outra, a coisa é tão aberrante que escapa para a grande mídia e o tema povoa geral o debate – como juiz e demais togados-cueca que não veem problema em macho ejacular em quem e onde quiser. É bom que se discuta. Necessário.
Vai daí que, no calor da discussão, mais e mais casos de violência contra a mulher vêm à tona. Com a indignação que um fato bizarro causa, outras mulheres sentem que podem compartilhar suas histórias, receber solidariedade. Mas aí, NÃO!!! Virtuália já desvia a indignação, indo contra essas mesmas mulheres! Chovem perguntinhas cínicas, olhares desconfiados, silêncios... E, claro, explicações: querem aparecer, aproveitar a comoção midiática, conseguir benefícios e demais nojeiras machistas.
Muito bom que o assunto tome conta das discussões. Porém, é preciso conhecer as regras do jogo. Tá? A primeira e fundamental: fatos como esse do momento são frequentes. Constantes. Se sobrepõem, se multiplicam, escala geométrica. Todo dia, em tudo o que é lugar. Não existe um fato que mereça mais atenção que outro. A coisa é estrutural. E também é naturalizada, banalizada.
Ninguém está dizendo que todas as mulheres do mundo são seres super sensacionais nota 10 o tempo todo; nenhum ser humano é. O que não se admite é que agressão seja minimizada, que relatos sejam colocados em dúvida. Que vítimas sejam alvo de desconfiança. Mulher não se sente valorizada com assédio, tá? Não entende agressão como ciúme de quem ama muito. Não vê a exposição que traz uma denúncia de violência como maneira fácil de ganhar fama.
No fundo, essa deslegitimação só manda aquele velho recado putrefato, pançudo e suado: fique no seu lugar, aceite, não encha o saco, não fique histérica insuportável, o mundo é assim, impossível mudar a ordem natural das coisas.
Que aqui no Trator se defende o ensino público, laico e universal em todos os níveis não é novidade. Desde o período pré-tratoriano, quando a criatura aqui era aluna do Instituto de Educação, mais de 30 anos atrás, com passagem pelo grêmio estudantil, união dos estudantes secundaristas e tudo o mais naqueles longííííínquos (e tão atuais) anos 80...
Sempre bom esclarecer. Pois semana dessas, na facul, moçada candidata à delegação da UNE passa nas salas para esclarecer/fazer campanha/pedir votos. Ao final, alguém do grupo toma a palavra e fala da importância de votar, participar e etc e tal. Certo ar de desdém, como quem falasse com uma legião de usuários de camisas pólo, frequentadores de Miami, paneleiros em potencial: “Não sei se vocês sabem, mas foi muito difícil reorganizar o movimento estudantil depois da ditadura” – moça com olhos dardejando. Depois, moça entre um tom desafiador e de denúncia: “Aliás, vocês sabem que teve uma ditadura nesse país, né?”.
Eu:
Entende-se, vivente começa a tomar parte das questões da existência e acredita que o planeta passou a girar naquele dia. Esse não é o maior enrosco das universidades, é só mais uma chatice.
Problema mesmo é ouvir prof falar sobre aquisição do conhecimento, método científico e depois lascar que, dependendo do signo de uma pessoa, melhor nem desenvolver trabalho junto... Ou ainda, prof que discorre sobre o “cérebro reptiliano” como verdade científica – ora, se aparece na internet, em algum TED da vida, se vem seguido de palavras como neurociência ou pesquisas mostram é verdade incontestável, néam? Por fim, kolégue já veterano na academia numa indignação contida, pois prof questionou suas fontes de pesquisa: textos psicografados e textos kardecistas...
Tudo isso só nesta semana.
Sério. O combate pelo ensino público tem que continuar, com muita força. Mas que venha com o combate pelo ensino de qualidade. Urgente!!!!
Olá, publicitários da Órama! Só pra avisar que o ex-ministro da economia Delfim Netto ligou dos anos 70. Ele quer de volta o “bolo que cresce no forno”...
Tudo bem, a gente tem colunistas constrangedores, uma imprensa capachona 💰💲, governos corruptos & empresários mafiosos. Mas a gente é mais lindo do mundo! Tá? Lide com essa manga, universo!
Então, gente. Tá tudo bem. As instituições estão funcionando. Não fale em crise, trabalhe. Quem é competente se estabelece. Quem não deve, não teme. Seja como for, o mercado vai regular tudo no tempo certo. Né?
“Sabe quando alguém está
jogando videogame e, de repente, a tela congela, o controle não
responde, trava tudo?
Pois, bem, nesta quarta (24), o Brasil deu tilt.”
É mais do que sabido que o imprensão brasileiro, pesado e praticamente institucional, é o porta-voz das elites política e econômica. Sempre pronto a dar a versão oficial, o chavão da vez a ser repetido até que se acredite nele. Tudo, é claro, com uma bonita aura de informação, debate e esclarecimento (um cenário mais lindão que o outro, galere!).
Só que quando o forninho cai, Giovana, parece que alguém chutou o formigueiro, e aí, é aquele corre-corre, desinformação a metro e concurso da chamada mais tombativa. Dá nisso:
Gosto da expressão “no meu tempo, isso-aqui-tudo era mato”. Patrimônio cultural brasileiro, me foi transmitido uns 40 anos atrás, e eu carrego a tocha adiante. Mas hoje, me inclinei mentalmente perante o tiozinho que animava uma conversa coletiva no busão – quem por engano cruzasse seu olhar, era automaticamente incluído.
Ele falava do tempo em que era menino e participava de uma equipe de remo. E apontava a via por onde o ônibus passava – a saber, em Florianópolis, há regiões que foram aterradas nos anos 60/70. A ilha “avançou” mar adentro, pra dar espaço a avenidas e aobras muitas vezes de objetivos e execução duvidosos... Pois era bem ali, onde passávamos, que ele remava. Com um largo gesto circular, ele explicou: “naquele tempo, isso-aqui-tudo era água”.
Hoje na facul: coleguinhas falando sobre músicas de infância que eram versões de músicas francesas, como a “dos dedinhos”, cantada pela Eliana, que usa a melodia de Frère Jacques.
Bom, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a juventude d@s coleguinhas, né? Uma vez que eu já era beeeeeem adulta quando saiu a tal música dos dedinhos – enquanto @s coleguinhas estavam de pijaminha, dançando na frente de TV e provavelmente balbuciando a letra... Tá. Mas mistura de gerações, no final das contas, é sempre bom. Então, daqui do meu lugar de fala vintage, lembrei as músicas francesas que são versões de sucessos brasileiros – informação que gerou váááários pontos de interrogação, pois por uma questão de espaço-tempo, não são conhecidas da moçada.
Então, pra ilustrar, aí vão! (em especial pra Janny F. e pro Luiz B):
Nem vem que não tem (Wilson Simonal, 1970)... 📻
... virouTu veux ou tu veux pas (Marcel Zanini) – espécie de si queres, queres, se não queres, dizes 😂
Não, o pornozão 70 não voltou atualizado. A deprimência agora monta no oportunismo político e nos anseios paneleiros que querem um filme pra chamar de seu. Acrescentam-se discursinhos emebiêi e justificativas marqueteiras de quinta categoria. Cria-se um trailer épico, digno de Fast and Furious. E pronto! A história do Plano Real vira filme. Roteiro bunda, atuações bosta, frases de efeito, olhares matadores. Prevejo muitas estrelas da Veja. Elogios do Escola sem Partido. Trabalhos de conclusão de curso a respeito.
E não é só isso! Porque trash pouco é bobagem, o novo gênero se firma:
Não adianta ser intelectual, apoiar um feminismo de publicidade e
estampar mulher corajosa genérica no perfil do fêici, se nas suas
escolhas de todo-dia ainda imperam misoginia, transfobia e homofobia. A
passividade (homo) sexual usada como xingamento, o relacionamento
lésbico entendido como mais um item à disposição do voyeurismo, o
exercício livre da sexualidade feminina julgado como indignidade, o
feminismo visto como exagero ou “manifestação errada,
peraí-que-vou-explicar”, a desqualificação exercida sistematicamente por
conta de aparência e gestos – nada disso é zerado só por que você se
define como progressista, vanguardista, disquerda; ao contrário, soma na
conta machista mais reacionária e persistente desses tempos difíceis...