sábado, 13 de fevereiro de 2016

E se a microcefalia vier de um pesticida... da Monsanto?


“Com a relação proposta entre o vírus da zika e o surto de microcefalia no Brasil em recém-nascidos parecendo cada vez mais tênue, médicos latino-americanos estão propondo uma outra causa possível: o piriproxifeno, pesticida usado no Brasil desde 2014 para deter o desenvolvimento da larva do mosquito em tanques de água potável. Poderá a “cura” ser, na realidade, o veneno?
A reportagem é de Claire Robinson, publicada por GMWatch - The Ecologist, 10-02-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
As más-formações detectadas em milhares de crianças em mulheres grávidas que vivem em regiões onde o Estado brasileiro adicionou o piriproxifeno à água potável não são coincidências, muito embora o Ministério da Saúde ponha a culpa diretamente no vírus da zika.
A opinião da Organização Mundial da Saúde de que o surto de microcefalia na região Nordeste do país é causado pelos vírus da zika foi, até o momento, pouco questionada.
O ministro da Saúde brasileiro, Marcelo Castro, chegou a dizer que tem “100% de certeza” de que há uma ligação entre zika e microcefalia, um defeito de nascimento em que os bebês nascem com cabeças pequenas.
Essa visão é amplamente apoiada pela comunidade médica internacional, incluindo o influente Center for Disease Control, dos EUA. Mas não há fortes evidências desta relação. Em vez disso, existe uma mistura de indícios e provas circunstanciais.
Um dos estudos científicos centrais, feito por A. S. Oliveira Melo et al. e publicado na revista Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, encontrou o vírus da zika nos fluídos amnióticos que afetaram bebês e suas mães. Mas somente duas mulheres foram examinadas, um número demasiado pequeno para estabelecer uma ligação estatisticamente significativa.
O jornal The New York Times também informou, em 3 de fevereiro, o resultado das análises feito pelo Ministério da Saúde do Brasil: “Dos casos examinados até agora, 404 foram confirmados como tendo microcefalia. Somente 17 deles testaram positivo para o vírus da zika. Mas o governo e muitos pesquisadores dizem que o número pode ser amplamente irrelevante, porque os testes feitos encontrariam a presença do vírus em somente uma minúscula porcentagem de casos”.
E, no último fim de semana, o indicador mais poderoso de que a microcefalia pode ter uma outra causa foi anunciada pelo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, segundo reportagem do Washington Post. Autoridades colombianas de saúde pública até agora diagnosticaram, segundo Santos, 3.177 mulheres grávidas com o vírus da zika, mas em nenhum caso se observou microcefalia no feto.


Médicos argentinos: é o inseticida
Agora, um novo relatório foi publicado pela organização médica argentina Physicians in the Crop-Sprayed Towns – PCST (na sigla em inglês), que não apenas desafia a teoria de que a epidemia do vírus da zika no Brasil seja a causa do aumento de microcefalia em recém-nascidos, mas propõe uma explicação alternativa.
Segundo a PCST, o Ministério não conseguiu reconhecer que, na região onde vivem mais pessoas doentes, um larvicida químico que produz más-formações em mosquitos foi adicionado no fornecimento de água potável em 2014.
Este pesticida, o piriproxifeno, é fabricado pela Sumitomo Chemical, um “parceiro estratégico” japonês da Monsanto – empresa que estes médicos aprenderam a desconfiar devido ao grande volume de pesticidas dela pulverizados em terras agrícolas na Argentina.
O piriproxifeno é um inibidor de crescimento da larva do mosquito, que altera o processo de desenvolvimento desde a larva, passando pelo estágio da pupa até a fase adulta, assim gerando más-formações em mosquitos em desenvolvimento e matando ou incapacitando-os. O produto age como um hormônio juvenil de inseto, ou juvenoide, e tem o efeito de inibir o desenvolvimento das características do inseto adulto (por exemplo, asas e genitália externa madura) e o desenvolvimento reprodutivo.
O produto químico tem índices de risco relativamente baixos, possuindo uma baixa toxidade aguda. Testes feitos pela Sumitomo realizados em uma variedade de animais descobriu que ele não era um teratógeno (não causava defeitos de nascimento) nos mamíferos testados. No entanto, não se pode tomar essa conclusão como um indicador confiável dos seus efeitos nos seres humanos – especialmente diante das evidências em contrário.
A PCST comentou: “As más-formações detectadas em milhares de crianças de mãe grávidas que vivem em regiões onde o Estado brasileiro adicionou o piriproxifeno à água potável não são coincidências, muito embora o Ministério da Saúde coloque a culpa por este dano diretamente no vírus da zika”.
Eles também notaram que o zika tem sido tradicionalmente tomado como uma doença benigna que nunca antes esteve associada com defeitos de nascimento, mesmo em áreas onde ele infecta 75% da população.


Médicos brasileiros também suspeitam do piriproxifeno

O piriproxifeno é uma introdução relativamente nova ao meio ambiente brasileiro; o aumento da microcefalia é um fenômeno relativamente novo. O larvicida parece, portanto, um fator causativo plausível na microcefalia – muito mais do que mosquitos geneticamente modificados, os quais alguns têm culpado pela epidemia do zika e, consequentemente, pelos defeitos de nascimento.
O relatório do PCST, que também aborda a epidemia da febre da dengue no Brasil, concorda com os achados de um outro relatório sobre o surto do zika, este produzido por médicos brasileiros e pela organização de pesquisadores em saúde, Abrasco.
A Abrasco igualmente identifica o piriproxifeno como uma causa possível da microcefalia. Ela condena a estratégia do controle químico dos mosquitos portadores do zika, o que, dizem, está contaminando o meio ambiente bem como as pessoas e não está diminuindo o número de mosquitos.
Em vez disso, a Abrasco sugere que essa estratégia está, na realidade, orientada por interesses comerciais da indústria química, que, dizem, encontra-se profundamente inserida nos ministérios de Saúde latino-americanos, bem como na Organização Mundial da Saúde e na Organização Pan-Americana de Saúde.
A Abrasco identifica a empresa inglesa de insetos geneticamente modificados Oxitec como parte de um lobby corporativo que tem distorcido os fatos sobre o vírus da zika a fim de atender os seus próprios interesses. A Oxitec vende mosquitos geneticamente modificados para a esterilidade e os coloca no mercado como um produto de combate à doença – estratégia condenada pelos médicos argentinos como um “fracasso total, exceto para a empresa que fornece os mosquitos”.
Tanto os médicos brasileiros e argentinos quanto as associações de pesquisadores concordam que a pobreza é um fator-chave que está sendo negligenciado na epidemia em curso. A Abrasco condenou o governo brasileiro por sua “ocultação deliberada” das causas econômicas e sociais: “Na Argentina e em todo o continente, as populações mais pobres com menos acesso ao saneamento e à água potável sofrem mais com este surto epidêmico”. A PCST concorda, afirmando: “A base do progresso da doença encontra-se na desigualdade e na pobreza”.
A Abrasco acrescenta que a doença está estreitamente ligada à degradação ambiental: inundações causadas pelo desmatamento e o uso massivo de herbicidas em plantações de soja (geneticamente modificadas) tolerantes a herbicida. Em suma, “os impactos de indústrias extrativas”.
A noção de que a degradação ambiental pode ser um fator na difusão do zika encontra sustentação na visão de Dino Martins, Ph.D. Martins, que é entomologista queniano, diz que “a explosão dos mosquitos em áreas urbanas, que está levando adiante a crise do vírus da zika” é causada por uma “falta de diversidade natural que, do contrário, manteria as populações de mosquito sob controle e também pela proliferação de resíduos e a falta de locais para o despejo em algumas áreas que fornecem um habitat artificial para os mosquitos se reproduzirem”.


Ações de base comunitária

Os médicos argentinos acreditam que a melhor defesa contra o zika são “ações de base comunitária”. Um exemplo de tais ações acontece em El Salvador.
Um dos locais favoritos para a reprodução dos mosquitos portadores da doença são contêineres de armazenamento de água parada, ou caixas d’água. Os salvadorenhos começaram a manter peixes nesses ambientes; os peixes comem a larva do mosquito. Assim, a dengue se foi juntamente com o mosquito que transmite a doença. Até agora, não há nenhum caso de infecção do vírus da zika.
Programas simples porém eficazes como esse correm o perigo de serem negligenciados no Brasil em favor de programas de pulverização de pesticidas e da soltura de mosquitos geneticamente modificados, iniciativas apoiadas por empresas. A prática de pulverização ainda não foi comprovada, e os mosquitos geneticamente modificados podem estar causando prejuízos muito mais graves do que os mosquitos que estão sendo visados.”
 

A vida no telescópio

Sempre ouvi que os bons cronistas põem a vida/a sociedade/o mundo no microscópio. Como não integro este bando, fico de cá, olhando tudo pelo telescópio e garantindo distâncias saudáveis.

Lendo sobre os hábitos criados pela feicibuquização da vida. Citam-se as compulsões por comparação, controle da vida alheia, crítica permanente e outros no mesmo estilo. Fala-se sobre esse “novo” perfil comportamental. Novo pra quem? Quem viveu a infância nos anos 70 conheceu a mesmíssima situação, no tempo em que o fêici era tudo mato. A gente conhecia isso como minha mãe. Oras.

Abelhas gourmet perseguindo Consorte pela casa, atrás de um french touch, de uma nouvelle cuisine. Pobre Manézix.


Jair Henrique costumava dizer que tirava o cérebro e punha de lado pra assistir ao Super Bonita, do canal GNT. Dia desses, dando bobeira, olhei um dos episódios, já quase no final. Ivete Sangalo entrevistava Maria Ribeiro. Momentos marcantes: Ivete conta que cortou a franja do filho, ficou torta e mal cortada, “mas era dia do índio na escola, então, tudo bem”... *risadas em uníssono*. Maria Ribeiro explica que come diuntudo, nada faz pela aparência e que deveria ter força de vontade, fazer exercícios: “se pelo menos eu tivesse uma osteoporosezinha, né, teria um motivo pra ter que me exercitar!”. *risadas em uníssono*. Já eu:


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Proibindo Hitler


Entre um Aedes aegypti, um crime ambiental de mineradora e a violência policial benzida pelo Estado, é a republicação de um livro que tem esquentado a virtuália.

Juízes, juízas, abaixo-assinados e muita gente querendo aparecer garantem o puxa-e-afrouxa, pedindo a proibição do livro Minha Luta, a retirada de exemplares da vitrine, capas “mais sóbrias”. A imprensona, claro, a postos, garantindo clics e comentários naquele banho-maria de lugares-comuníssimos e ideias de pé quebrado.

Detesto teorias da conspiração, mas que tudo isso parece campanha de marketing, ah, parece. Mas participariam nossos juízes da farsa? HAHAHA! E se a resposta for negativa, é tão ruim quanto, pois assinala que estão acreditando, pondo fé nas decisões que impõem.

Bom, há sempre a hipótese das pessoas com uma necessidade patológica de atenção, que ultrapassa interesses comerciais ou o fetiche legalista. Seja como for, o FEBEAPÁ da semana garante canecos pra todo mundo, incluindo historiadores inteligentes; um deles referiu-se à falta de veracidade, de valor filosófico e histórico do texto. 

Se isso for argumento, bora proibir o texto do Demétrio Magnoli, que afirma que cotas são discriminação reversa? Ou Brasil sempre, que explica ser necessário torturar para combater a ameaça vermelha que ceifa a vida de homens de bem? Sem contar o valor filosófico de livros como O monge e o executivo, O segredo, Saúde Emocional e |____________| (insira aqui a sua bobajada preferida), não é mesmo?

Outro caneco vai para os que sublinham o perigo de uma possível legião de neo-nazistas que surgiria logo após a leitura do livro. Francamente, acho que seria espantoso o fato de simpatizantes do nazismo folhearem um livro e entenderem frases mais complexas. Pois mesmo que Mein Kampf seja uma montoeira de chavões toscos, amálgamas estúpidos e violência disfarçada de iluminação política, mesmo assim, é necessário conseguir ler parágrafos com mais de uma linha. E eles são vários e são muito chatos. 

Mas essa moçada da toga e das assinaturas tá sabendo que o texto circula livremente e é facilmente acessível desde sempre? Alguém tem que ir lá avisar e explicar que, mesmo antes da Internet, havia uma tecnologia chamada fotocópia; também permitia a divulgação e a disseminação de uma pá de escritos, uma loucura! 

Há o revoltadão-online, como sempre achando que isso é coisa de esquerdopata, do PT e das feministas, que parabeniza o chanceler alemão pelo conjunto da obra e se pergunta por que não proíbem também O Capital, num verdadeiro espetáculo de raciocínio e erudição.

Tem a turma que pede “capas discretas”, pois imagens do Führer & suásticas serviriam como promoção do nazismo, do antissemitismo e blábláblá. History Channel tá com os dias contados, então?

Consigo entender que a aversão a determinadas ideias asquerosas possa provocar a vontade de banimento delas. Logo que eu comecei a usar a internétchi no século passado, participei de um daqueles abaixo-assinados inócuos que ficavam circulando por email -- o dito cujo pedia que uma editora gaúcha de textos nazistas não tivesse o mesmo espaço que outras editoras numa feira de livros nem lembro onde. Mas ideias não se banem. Elas podem ser combatidas, discutidas, questionadas, e pra isso, é preciso entendê-las, não tentar apagá-las.

Tem quem diga que as pessoas não sabem discernir, que tem muito professor burro, que tem oportunistas panfletários, que a imprensa não ajuda, que a maria-mole rosa já não é a mesma. Sim, tudo isso é verdade. Mas a proibição de um livro é que vai solucionar tudo isso, magicamente?

Também vão aparecer as citações a Fahrenheit 451, infelizmente não as melhores, e muitas com base no “ouvi dizer” ou “vi o filme”, que deixa a desejar. Pois uma das coisas geniais do livro é a explicação que dá o Capitão Beatty sobre como se chegou à proibição dos livros: as pessoas começaram a solicitá-la, depois se habituaram. De bom grado substituíram a leitura pela distração, pelas “telas múltiplas”, pela informação desnecessária e contínua, pela publicidade, pelo consumo. Tudo isso passou a dar uma sensação de movimento, sem que ele existisse. Era mais confortável e mais seguro. Não houve um golpe autoritário bem marcado, houve uma outorga das pessoas aos governantes e juízes, pois desejaram suprimir o que fosse contraditório, complexo, inquietante, ofensivo. 



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Lembranças nebulosas dos anos 70...

Conversando com minha irmã Izabel, que me pergunta se eu lembrava da dra. Marlene, nossa dentista quando éramos crianças (eu, uns 7 anos; minha irmã, 5). E eu lembrava. Dela, de alguns detalhes do consultório, numa casa antiga, grandes portas que dobravam, chão de madeira. 

Naquela sala de espera, folheei muita revista Manchete, Fatos & Fotos e coisas parecidas. Lembro de ter lido uma entrevista com a Rita Lee; havia uma descrição de sua prisão, por conta de “baganas de maconha”, “tóxico” e outras coisas das quais o significado me escapava. A matéria parecia longa, nebulosa, muito além do que a minha capacidade permitia entender.

Esses elementos todos compunham uma memória bem viva, faziam sentido na minha cabeça. Até minha irmã dizer que a única coisa nítida na lembrança dela era a fisionomia da dentista. Para ela, dra. Marlene era assim:


E aí que meu mundo caiu, né?! Pois nem nas minhas conexões neuronais mais distorcidas eu encontro alguém que pudesse se parecer com a Farrah Fawcett naquele tempo... Como assim? 

As pessoas que eu conheço em geral acham que eu tenho boa memória. Ao que eu sempre respondo que isso é característica da minha irmã, sem discussão.

Por isso, fiquei com uma sensação de ter caído num limbo, pois pra mim, nossa dentista era assim...

... praticamente uma sósia da Shelley Duvall (The shining, Annie Hall)... 


 Tá. Eu fui uma criança míope, muito míope mesmo. 
Mas isso já é ridículo!




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Juiz Moro – chamem os Mythbusters!

Moçada “de bem”, famílias com-deus-pela-liberdade-e-a-volta-do-Festa-Baile-na-TV, o povo que “parabeniza” online em espaço de comentários, que compartilha frase de Chico Xavier enquanto aplaude a polícia militar e tenta negociar uma boquinha para o filho – tava todo mundo meio sem herói, afinal, Joaquim Barbosa não se candidatou a rei nem a chefe da Liga da Justiça.

Mas agora, tudo mudou! A revista Americas Quarterly criou esta capa e muito frisson entre os leitores da revista Veja e alguns colunistas da Fôulha (Estadão, O Globo, Gazeta do Povo, Diário Catarinense etc. etc. etc. ...).

Tá?! A Folha frisa: “revista dos EUA põe juiz Moro entre os 'caça-corruptos' da América Latina”. Dos EUA, vejam bem! Óóóóhhhhhhh! O fundador da revista, Christopher Sabatini, profe na Universidade de Columbia, colabora com o Instituto Millenium – aquele que tem como estrela FHC (ele mesmo integrante do conselho editorial da tal revista), que conta com Henrique Meirelles, Hélio Beltrão, Gustavo Franco, Rodrigo Constantino e grande elenco como “fundadores e curadores”, que tem como mantededores Jorge Gerdau, Nelson Sirotsky (presidente da RBS), João Roberto Marinho, Ricardo Diniz e por aí vai. 

Bem, cada um se filia às ideias que quiser, cada um tem o direito de defender suas verdades, de se agrupar como e com quem desejar. Até aí, joia. O problema aparece quando essas ligações deixam de ser explicitadas, dando a impressão que não se relacionam. Assim, criam-se e transmitem-se imagens como a do juiz Sergio Moro sendo o paladino da probidade, independente, apartidário, limpo, guiado apenas por seu amor à lisura, à justiça e à toalhinha de crochê sob o vaso de violetas.

Seja como for, a rede de criação, transmissão e fixação de determinadas imagens e desinformação está posta e trabalhando. Dia a dia, martelando, dando a impressão de divulgação pura e simples de fatos, só isso. Tem quem engula...

Lembrando, juiz Moro é este aqui, chapa do João Dória Jr.:




E o João Dória? É este, todo trabalhado no mundo empresarial – “não sou político, sou administrador e rico” –, atualmente, cheio dos brios, chamando na chincha seus adversários, dando uma de engraçadão, mostrando que é cu-e-calça com o juiz Moro e fazendo a alegria do revoltadão on line (que afirma “este me representa! Quero parabenizar o empresário João Dória blablablá”):
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MAS... vai daí que ele é o mesmo sujeito que:
  
Pôxa... não tá ornando muito com toda aquela honestidade pela qual dobram os sinos e gralha a direita-miojão, né? Além do que, tá estragando aquela capa tão gringa e tão ryka com o amigão Moro! Justo agora que a gente tinha um juiz pra chamar de nosso!

Então, juiz Moro caçador de corruptos, amigão da honestidade e apartidário?





Estudantes de Goiás no reino do jornalismo chapa-branca

Com 13 a 16 anos, os estudantes secundaristas de Goiás se mobilizam contra o plano do governo estadual para a escola pública – leia-se entregá-la à administração privada e à Polícia Militar. Houve caminhadas, manifestações e ocupações das escolas; quer dizer, quando são ignorados sobre decisões fundamentais para suas vidas, os cidadãos buscam outras formas de expressar suas opiniões, a necessidade de serem envolvidos no processos decisórios e a lista é longa.

Mas as pessoas continuam descobrindo que suas opiniões não contam se não forem precedidas por muito dinheiro, corroboradas por atravessadores de políticas públicas, funcionalismo pau-mandado, oportunistas e parasitas de toda ordem. Se as opiniões buscam mudanças e indicam clareza sobre o mundo, nesse caso, o pau come. Cacetete, desculpas oficiais e enrolações burocráticas serão a resposta. E mais cacetete, pra deixar claro que quando o protesto conta realmente, a proibição é regra, assim como a punição aos participantes.

A imprensa de releases constrói a narrativa da baderna e da violência, e estamos conversados. Assunto encerrado, não existe mais.
 
 Matéria completa e vídeos →






sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

“O MPL irrita tanto a direita quanto os petistas”


Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize
“É no mínimo interessante ver novamente pessoas como Reinaldo Azevedo, colunista clássico da direita brasileira, e Emir Sader — o pai dos defensores do PT — se unirem em um grito contra o Movimento Passe Livre. Isso mostra o quão importante é existir de fato uma nova via política que venha das ruas, e tenha uma cara completamente diferente daquela representada no bipartidarismo que se tornou o Brasil pós-ditadura.

Em junho de 2013 não foi diferente.

Quem não se lembra do jornalista Paulo Henrique Amorim chamando os manifestantes contra a tarifa de “mimados de classe média”? E quem não se lembra também, de ver o pseudo-intelectual Arnaldo Jabor falar asneiras em rede nacional, praticamente exigindo mais repressão contra o MPL, que seriam para ele “rebeldes sem causa”?

O jogo só virou quando a opinião pública também virou. Ai, profissionais sem a mínima opinião que são, também acabaram por mudar de lado.

E lá vem 2016, menos de três anos depois, tudo acontecer novamente. O primeiro ato do Movimento Passe Livre neste ano ocorreu em três capitais do Brasil, na sexta-feira (08). A cidade de São Paulo contou com o maior protesto — mais de 10 mil pessoas compareceram. E também contou com a maior repressão. Mais de 15 pessoas foram presas, vários feridos — apesar da mídia convencional e seu negacionismo.

Não passou nem dois dias do ato, e dois célebres personagens decidiram colocar a cara pra fora novamente — Emir Sader e Reinaldo Azevedo.

O colunista da revista VEJA, de uma forma um tanto irracional e — me perdoe a palavra — burra, usou sua capacidade intelectual para “descobrir” que o ato contra o aumento da tarifa em São Paulo na realidade é pelo “Fica Dilma”. Resta saber se foi uma colocação simplesmente baseada na sua inteligência, que é nula, ou na má intenção simplesmente.

Já o pai dos petistas no Twitter, Emir Sader, usou aquele velho jargão: MPL? “Aquela esquerda que a direita adora”. Claro, adora tanto que o governador Geraldo Alckmin deu sinal verde para uma série de agressões policiais contra manifestantes e imprensa.

E é bom que ambos pensem desta forma. A existência de um movimento como o MPL é o que mantém, de certa forma, a bipolaridade fora das ruas. PT e PSDB vivem uma guerra dentro de Brasília, no poder institucional, e fazem o máximo possível para levar essa guerra para a rua, com manifestações contra e pró o governo Dilma.

O ano de 2015 foi praticamente assim — até o momento em que os secundaristas, assim como o MPL, mostraram para que veio.

Enxergando como uma grande ameaça — não só aos seus respectivos políticos envolvidos e aliados de empresas de transporte urbano — a possibilidade de uma nova onda de protestos desarticulados e baseados em pautas como a redução da tarifa tomarem conta das ruas no Brasil, ambos fazem o possível para criticar e tentar ao máximo jogar um pro lado do outro.

Enquanto o petista Emir Sader enxerga no MPL uma ameaça ao prefeito Fernando Haddad, o “tucano dentro do armário” Reinaldo Azevedo vê nos protestos do MPL no começo deste ano uma ameaça ao movimento pelo impeachment, pelo simples fato de que o Passe Livre pode retomar pra si o protagonismo das ruas, até então dominado pelos movimentos de direita em 2015.

E nós, no meio do furacão, entre erros e acertos, não podemos permitir que ambos acabem com isso. (...).”

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

sábado, 23 de janeiro de 2016

Status: me sentindo longínqua

Quiçá vintage...





Acredite: há coisa pior que Bolsonaro

Bolsonaro, lembrem, foi o capitão do exército que planejou explodir bombas em 1987, visando chamar a atenção para os baixos salários dos oficiais e pressionar as autoridades para o fato. Falastrão, bravateiro e terrorista, conseguiu ser desmentido até pela revista Veja (!).

Trinta anos depois, o mesmo falastrão terrorista quer definir o que deve ser ensinado nas escolas. Orgulhoso de seu conhecimento precário e seu raciocínio em carência crônica, Bolso lança mão dos valores familiares e moralistas, da bíblia e do óleo de fígado de bacalhau para angariar votos entre os zumbis que povoam a nação.

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E é justamente nesse orgulho-zumbi-ostentação que se percebe coisa bem pior que o Bolso – são seus eleitores, verde-amarelos, destemidos nas quebradas virtuais ou também adolescentes tardios, alguns já entrados na trintena, precisados de uma revolta pra chamar de sua, mesmo que seja a da estupidez concentrada; e ainda, o zumbi-leitor do Código da Vinci que acredita ter certificado de erudito (sem nem suspeitar que Da Vinci era gay, by the way). 

Dá pra gargalhar muito às custas de tanta tosquice e deselegância, mas também dá pra ter arrepios... São esses semi-viventes aí embaixo, junto com o Bolso, que querem determinar como as crianças brasileiras devem ser educadas, o que os educadores podem produzir e no que você pode pensar. Valei-me Nossa Senhora da Iluminação a Gás!


domingo, 17 de janeiro de 2016

Te ensinaram coisas erradas (L. Sakamoto)


Fomos treinados para o preconceito. 
Libertar-se disso pode ser assustador

Leonardo Sakamoto

“Deve ser assustador para uma pessoa que cresceu no seio da tradicional família brasileira, foi educada em escolas com métodos e conteúdos convencionais e espiritualizada em igrejas e templos conservadores, conviveu em espaços de socialização que não questionam o passado apenas o reafirmam e, é claro, assistiu a muita, muita TV, de repente, ser bombardeada com novas “regras'' e “normas'' de vivência, diferentes daquelas com as quais está acostumada.

Ouvi um desabafo sincero do pai de uma amiga que não entendia como as coisas estavam mudando assim tão rápido. Ele reclamava que tirar uma da cara do “amigo que era mais gordinho'' era só “coisa de criança'' e não bullying passível de punição. “A sociedade está ficando muito chata'', disse desconsolado.

De repente, contar piada de “bicha'' ou “sapatão'' deixa de ser legal. Zoar com “preto'', passa a ser crime. Tirar onda com “traveco'' é mal visto. Cutucar o “mendigo'' e o “índio'' é proibido. De uma hora para outra, a lei de deus não é mais a única a iluminar o caminho, as mulheres reclamam do direito ao próprio corpo e à dignidade, os mais pobres e os mais jovens querem ser ouvidos e ter sua fatia no bolo.

Ou seja, para essa pessoa, o Manual de Usuário do mundo, que ela recebeu, em fascículos, ao longo da vida, de repente é chamado de ultrapassado.

Imagine como pode ser angustiante descobrir que a fotografia do mundo que você achava que havia compreendido, na verdade, está incompleto.

Ou melhor, imagine descobrir que te ensinaram coisas erradas, mantendo a desigualdade e injustiça, em nome de uma suposta estabilidade social.

É desesperador. Uma sensação horrível de vazio sob os pés. Mas também pode ser libertador.

A partir do momento em que você percebe que há algo errado no que sempre te ensinaram, pode se abrir para as dúvidas e tentar entender a complexidade e pluralidade das coisas ou se trancar ainda mais, abraçando os dogmas com os quais você estava acostumado, como um náufrago se agarra a uma boia com medo de se afogar.

Isso ajuda a explicar parte do prestígio de personagens como o bilionário e pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, ou a miríade de esquisitices ultraconservadoras que habitam a fauna política brasileira. Percebam que não estou falando de direita, mas do extremo do extremo – que chama a própria direita de esquerda por estar fora da casinha.

Um cidadão médio dos EUA abraça o discurso violento e extremamente conservador de Trump. Ele se sente deslocado neste mundo em que um negro é presidente (independentemente das políticas que não adote para melhorar a vida dos negros), em que o Estado tenta implementar algumas (mínimas) políticas sociais e no qual o controle de armas é discutido abertamente diante da profusão de massacres e chacinas. Esse cidadão quer de volta o mundo que lhe ensinaram desde pequeno. Quer um porto seguro.

Muita gente que defende o passado com unhas e dentes tem medo de algo diferente porque foi preparado a vida inteira para ser um guerreiro de valores repassados por instituições como família, escola, igreja, trabalho, mídia. E nem sempre esses valores eram inclusivos, democráticos, solidários. Nem sempre a própria pessoa refletiu se esses valores faziam sentido para ela mesma.

Ou seja, é natural que sintamos medo daquilo que não estamos acostumados. E, da mesma forma, é natural que quem já tenha percebido que o mundo está mudando ao poucos sinta raiva ou decepção diante daqueles que se esforçam para que as coisas não mudem. Ainda mais quando a efetivação de direitos desse segundo grupo é ignorado e impossibilitado pelo primeiro.

Esses políticos, sejam de fora ou daqui, sabem falar diretamente com esse público que tem medo. Seus discursos são simples, fáceis de serem entendidos. Usam um vocabulário e elementos simbólicos que podem ser compreendidos por qualquer um. Quase uma sequência de tuítes, como é o casos dos discursos de Trump. O público se sente contemplado e abraçado – ao contrário de outros políticos que dizem defender o povo, mas falam apenas com a classe média alta ou intelectualizada.

Não há fórmula mágica. Precisamos de muita conversa e muita paciência. Não será no grito que a reflexão sobre a necessidade de se abrir para o novo, ou seja, para uma situação em que a dignidade de um número maior de pessoas seja contemplada, vai acontecer.

Xingar quem é reticente a mudanças e a abandonar sua zona de conforto (mesmo que essa pessoa seja, ela própria, uma das exploradas pela situação atual) não adiantará de nada.

E ignorar a sua existência apenas manterá parte da sociedade nos braços daqueles que se beneficiam do sofrimento alheio.”
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Ainda o Charlie. Bof!


Hoje, vários comentários e textos sobre a última capa do francês Charlie Hebdo. O mau gosto, a falta de respeito e, sobretudo, “retiro o meu Je suis Charlie”...

Só que Charlie Hebdo é isso, desde sua origem. Mesmo antes, quando seus criadores mantinham a revista Hara-Kiri. Parte de sua produção é podrona, grosseira. Sempre foi assim, há mais de 50 anos.

Não rola humor “inteligente, sutil e bem engajado”; apesar da crítica política, o que sobra é merda no ventilador, e salve-se quem quiser. Piadas sobre muçulmanos, campos de concentração, estupro, pobreza, entre outras, tudo sempre esteve ali – ao lado de denúncias contra ditaduras latino-americanas, por exemplo (umas de suas capas setentonas faz referência ao Chile, com um par de testículos torcido por um alicate).

Seus autores e desenhistas se definiam e definem como provocadores. São iconoclastas de verdade, até contra o que achamos válido. Temos que gostar disso? Não. Folheei poucos números da revista, tem muita coisa que acho ofensiva, por vezes, baixa. Então, não leio. Ninguém me obriga a fazê-lo. E esse meu desagrado não me impediu de ficar passada e plissada com o atentado de um ano atrás. E ainda me dá tristeza quando topo com uma entrevista antiga do Cabu ou do Wolinski.

Injustificável o que houve na redação do Charlie. Foi crime. Não importa se foi contra provocadores, contra quem desconhecia o “limite do aceitável”, contra quem “exagerava na dose” ou “não tinha o menor respeito”. Foi crime. Mesmo que eu deteste as caricaturas; mesmo que eu ache podre o machismo, a piada que humilha. Foi crime mesmo assim.

Quanto aos remanescentes da revista, continuam no mesmo caminho, radicalizando. Gosto? Não. Mas é assim que é a publicação. Desde o início. Moçada tem o direito de detestar e dizer por quê. Só que aí, a coisa resvala para as “análises abalizadas”, aquelas bem básicas e imediatas, que se colocam do “lado correto”, denunciando quem ali não está – e que tinha obrigação de, afinal, recebeu tanto apoio do mundo todo, inclusive o meu, né? Hora de sacar da manga a indignação.

Sério: a capa da revista é podre? Diga que é, critique. Mas não busque na publicação algo que ela nunca se propôs fazer. Charlie Hebdo nunca teve o apanágio da ironia refinada, não é de hoje, e é preciso situar essas edições, entender sua origem, suas ideias (não necessariamente concordar).

Agora, se você defendeu o direito à expressão destes humoristas e se dá conta de que não é o seu tipo de humor, problema seu. Conheça a história deles, antes de tudo, e não queira que uma produção existente desde 1960 se encaixe nas suas próprias escolhas, na sua militância, na sua ideia do que deva ou não ser humor.




domingo, 10 de janeiro de 2016

Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)


“Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, frequenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinquenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?”
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Texto: Bar ruim é lindo, bicho! Antonio Prata, Estadão, 26.12.08